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Uma intervenção militar do Brasil na Venezuela? É o que estão pedindo...

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A crise venezuelana tem tudo para se agravar e nos arrastar na busca de uma solução, mas metralhadoras vão apenas piorá-la

Uma intervenção militar do Brasil na Venezuela? É o que estão pedindo...

Pelo bem do Brasil, Maduro deve sair pacificamente (Foto: Divulgação/Governo da Venezuela)

Em 2018, não faltam problemas para esquentar a cabeça dos brasileiros: as últimas previsões indicam que o desemprego continuará castigando mais de 10 milhões de pessoas, a eleição presidencial pode tumultuar a retomada da economia, a (in)Justiça tentará, mais uma vez, defender os corruptos e abafar a Lava Jato, e as reformas não devem sair do papel. Tudo isso (e um pouco mais) já seria suficiente para absorver a energia e os recursos do país durante todo o ano, mas agora o Brasil pode ser arrastado a resolver um pepino que não é seu. Trata-se da gravíssima crise humanitária, política e econômica que aflige a Venezuela. Em um artigo publicado nesta quarta-feira (3) na Folha de S.Paulo, Ricardo Hausmann, ex-ministro do Planejamento de lá, defendeu explicitamente uma intervenção militar de países latino-americanos para depor o presidente-ditador Nicolás Maduro.

Em suas próprias palavras: “Uma transição política negociada [entre Maduro e a oposição] continua sendo a opção preferida, mas a intervenção militar por uma coalizão de forças regionais talvez seja o único meio de pôr fim à penúria causada pelo homem que ameaça a vida de milhões de venezuelanos.” O texto segue com quatro justificativas: a) a crise humanitária se acentua a cada dia; b) uma intervenção militar doméstica é improvável, já que as Forças Armadas venezuelanas são corruptas e submissas a Maduro; c) há meios legais para a Assembleia Constituinte requerer ajuda externa; d) a própria independência da Venezuela e de outros países da região dependeu de uma intervenção estrangeira.

Uma João Pessoa de refugiados

Por ora, Hausmann é uma voz solitária numa folha de papel. Não se tem notícias de que lideranças importantes da oposição pensem o mesmo – mas podem vir a fazê-lo, o que transformaria uma ideia num coro de milhões de vozes desesperadas. Se isso acontecer, o Brasil tem tudo para ser arrastado para o centro do drama. Primeiro, porque, apesar de todos os nossos problemas e do nosso complexo de vira-lata, somos o maior e mais importante país da América do Sul. Segundo, porque temos uma fronteira de 2.199 quilômetros com a Venezuela. Terceiro, porque o agravamento da situação, por lá, aumentou o fluxo de refugiados por aqui. Estima-se que 32 mil venezuelanos já tenham cruzado a fronteira – dos quais, 20 mil no ano passado. A maioria está largada à própria sorte em cidades de Roraima, apesar das polidas declarações do governo brasileiro de que irá ajudar.

A situação, porém, pode se agravar muito mais. Segundo O Globo, um relatório do Ministério do Desenvolvimento Social, concluído em meados de dezembro, estima que, no pior cenário, 700 mil venezuelanos podem se refugiar no Brasil somente em 2018. Para se ter uma ideia do que isso significaria, basta lembrar que apenas 42 dos mais de 5.500 municípios brasileiros têm mais de 500 mil habitantes. Os refugiados corresponderiam a uma “cidade” equivalente a João Pessoa, capital da Paraíba, com seus 720 mil moradores. Imaginem os custos para receber, acomodar e dar um futuro para todo esse povo...

Complexo de Rambo

Isto posto, devemos mesmo enviar uma missão militar para depor Maduro? Alguns afoitos dirão que sim, mas há muitas ressalvas nessa solução “Rambobolesca”. Primeiro: cadê o dinheiro para financiar uma coisa dessas? Não temos recursos nem para comprar esparadrapos para os nossos hospitais, quanto mais para armar e sustentar uma incursão externa. Segundo: quem disse que será fácil? Maduro teria todas as desculpas do mundo para endurecer ainda mais o regime, declarar a missão um ato de guerra (afinal, que país gosta de ser invadido?) e responder à altura. Lembrem-se de que boa parte do Exército lhe é leal, sem contar os milhares de paramilitares armados pelo governo. Não seria um bate-e-volta de fim de semana. Seria o início de uma luta sem data para acabar.

Terceiro: uma intervenção militar apenas agravaria a crise humanitária por lá. À medida que a batalha se alongasse, mais gente fugiria para cá. A pretexto de estancar o fluxo de refugiados, trocaríamos o envio de tropas por... muito mais refugiados! Genial, não? Quarto: a história mostra que intervenções atabalhoadas quase nunca dão certo. Estão aí os exemplos recentes do Iraque, do Afeganistão e da Síria. Após derrubar Maduro, o que o Brasil fará? Quem disse que é fácil estabilizar um país, resgatar sua arruinada economia e melhorar a vida de seu povo de modo indolor, como um Doril? Quinto: que países nos apoiariam? E qual seria o seu papel nisso tudo?

Diálogo, volver!

É claro que não devemos ignorar a crise venezuelana. Segundo o The New York Times, estima-se que os casos de desnutrição infantil severa triplicaram por conta da carestia de alimentos. A taxa de morte de crianças com até 4 semanas de idade disparou de 0,02%, em 2015, para 2% no ano passado – um salto de 100 vezes. Somente em 2016, mais de 11 mil crianças com até um ano de idade morreram de fome. As perspectivas seguem horríveis, com uma inflação que pode chegar a 2.300% neste ano. A resposta de Maduro a tudo isso é cada vez mais autoritária e errática. De um lado, proíbe e distorce deliberadamente dados oficiais, a fim de mascarar a realidade. De outro, concentra poderes e amplia o autoritarismo político e econômico. Trata-se de uma poderosa conjuntura que apenas expulsa mais e mais venezuelanos para cá.

Mas é muito improvável que esse drama seja solucionado por metralhadoras – pouco importa se pertençam ao Exército da Venezuela ou do Brasil.