LAVA JATO

Vitória de Temer: 2013 finalmente acabou (mal... bem mal...)

Márcio Juliboni
Autor
Márcio Juliboni

Foi um engano achar que o gigante brasileiro despertou há quatro anos – era apenas sonambulismo

Vitória de Temer: 2013 finalmente acabou (mal... bem mal...)

(Foto: Márcio Juliboni)

O ano de 2013 oficialmente chegou ao fim, aqui no Brasil, nesta quarta-feira (25), com o enterro da segunda denúncia contra o presidente Michel Temer. A cerimônia foi precedida, nesta semana, pelo enterro da acusação contra o tucano Aécio Neves, oficiado pelo Conselho de Ética do Senado. Mas o que tornou o cortejo da denúncia contra Temer ainda mais fúnebre foi o canibalismo político de seus aliados. Os deputados não se constrangeram em devorar vultosos recursos públicos. Em transe, mergulharam numa realidade paralela cujo apogeu coube ao deputado Carlos Marun (PMDB). Sorridente, ele literalmente sambou na cara da sociedade, em frente aos jornalistas. Mas o que mais impressiona é o profundo silêncio de velório das ruas – a antítese das jornadas de junho de 2013.

Nada de panelaços, campanhas em redes sociais, protestos de rua, autodeclaradas (ou fabricadas) “lideranças populares” mobilizando gente no YouTube. Nenhum resquício daquele generalizado desejo de mudança que levou multidões às ruas há quatro anos. É verdade que, até hoje, os estudiosos tentam compreender o que, de fato, ocorreu naquelas semanas. O que começou como um protesto contra o reajuste das tarifas de ônibus urbanos logo se transformou em algo bem maior, a ponto de o slogan mais lembrado daqueles tempos ser o “Não é só pelos 20 centavos”.

Caras-pintadas versão gourmet

Sem lideranças conhecidas ou articuladas, milhares de pessoas marcharam pelas principais cidades brasileiras para protestar contra tudo aquilo que estava lá: da má qualidade dos transportes públicos, a pauta expandiu-se para as péssimas condições dos serviços públicos em geral (saúde, educação, segurança etc.), alcançou notas contra a corrupção, como na resistência à realização do Copa do Mundo no ano seguinte (lembra do "Não Vai ter Copa"?) e a crítica aos já altíssimos gastos com o torneio, e desembocou na épica ocupação do Congresso por populares. A pressão foi tamanha, que a então presidente Dilma Rousseff correu para montar um pacote capenga de medidas de austeridade que prometiam combater a corrupção, implantar reformas políticas e melhorar a gestão pública.

Os atos deixaram tensos políticos de todos os partidos. O levante espontâneo preparou terreno para os protestos na época da Copa, um ano depois, e pelo “Fora Dilma”, que cresceu durante 2015 e atingiu seu ápice na primeira metade de 2016, com seu impeachment. Todos esses eventos foram impulsionados por aquele primeiro arranque de junho de 2013. As reivindicações apresentadas lá foram adotadas pelos manifestantes nos meses seguintes, acompanhadas pela crescente insatisfação com Dilma.

Vai sonhando...

Quatro anos depois, contudo, chegamos ao fim de 2013. A classe média de direita, que assumiu o protagonismo do impeachment, simplesmente sentou-se no sofá e se limita a praticar bullying contra desafetos pelas redes sociais – achando que isto é debate ou combate. Neste ponto, estão corretos os que dizem que o objetivo maior das “lideranças populares”, como o VemPraRua, o MBL, o Revoltados OnLine e que tais, era apenas tirar um governo de esquerda (seja lá o que for esquerda no Brasil) do poder. Cumprido o objetivo, retornaram cheios de orgulho cívico e preguiça para a frente de seus televisores de LED de muitas polegadas.

Agora acompanharam, com um silêncio digno de cúmplice de assassinato, à morte de qualquer esperança de guinada ética e moral no governo Temer. O Palácio do Planalto se transformará, nos próximos meses, em uma grande feira do rolo, onde parlamentares e governo negociarão, a céu aberto, aos olhos de todos, verbas por votos. Em 2013, uma propaganda ufanista do uísque Johnnie Walker mostrava o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, erguendo-se e se revelando um gigante de pedra. Era a metáfora do gigante brasileiro despertando de seu berço esplêndido e marchando firmemente em direção ao futuro. A julgar pela omissão constrangedora do povo e de suas autonomeadas lideranças, tudo não passou de um embaraçoso engano. O gigante não acordou – era apenas sonâmbulo.