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Viu, caro conservador, como você já gosta da Paulista fechada aos domingos?

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

Um dia, ironicamente, você passará a criticar sua reabertura aos carros, pois será uma mudança para a qual não estará preparado...

Viu, caro conservador, como você já gosta da Paulista fechada aos domingos?

(Foto: Fernanda Carvalho/ Fotos Públicas)

Neste domingo (06), a meteorologia indica um dia friozinho em São Paulo, com sol entre nuvens. De qualquer modo, entre ficar em casa assistindo ao Faustão e dar uma volta, milhares de paulistanos já colocaram suas bicicletas, skates, patins, patinetes a caminho da Avenida Paulista. Artistas de rua apresentando animados shows de mágica ou se passando por estátuas humanas, grupos musicais colocando casais e amigos para dançar em todos os ritmos. Crianças correndo livremente, cachorros se socializando com cachorros, fotógrafos amadores desenferrujando o olhar. Enfim, vida vicejando ao ar livre, como toda e boa vida deveria ser. Ah, mas em 2015, aposto que você, caro leitor conservador e antipetista, não pensava assim.

Em 2015, a proposta do então prefeito paulistano Fernando Haddad foi torpedeada por conservadores, tucanos e parte da imprensa. O então colunista da Veja Reinaldo Azevedo chegou a afirmar que a democracia de Haddad envolvia apenas “20 pessoas”. Comerciantes e moradores da região fizeram protestos e abaixo-assinados. Evocavam um cenário apocalíptico, caso uma das principais e mais famosas vias de São Paulo passasse 12 horas fechada à circulação de veículos por semana. O comércio iria despencar! Os hospitais da região não conseguiriam atender quem precisa de socorro! Os moradores não conseguiriam sair de casa e, pior, ficariam ilhados por farofeiros mal-educados!

De autoritário a democrático

O Ministério Público de São Paulo tentou barrar a iniciativa. Chegou a propor um meio termo: que duas pistas da avenida ficassem abertas ao trânsito em cada sentido. Carros, bicicletas e transeuntes que se entendessem. Não vingou. Haddad foi recebido com vaias de militantes do Movimento Brasil Livre, quando inaugurou a ciclovia local em junho daquele ano. Em 18 de outubro, quando o fechamento aos domingos passou a vigorar, Haddad foi acusado de autoritário, populista e de afrontar as determinações dos procuradores de Justiça.

Passados praticamente dois anos, a Paulista tornou-se um dos espaços públicos de lazer mais badalados da cidade – a ponto de a Veja São Paulo se render às evidências e manchetar, em uma de suas edições de março, que a “Avenida Paulista aos domingos vira calçadão democrático.” Para choro e ranger de dentes dos conservadores que, em memes de Facebook e covardemente escondidos no anonimato das redes, ladram contra qualquer mudança, mas tiram selfies alegremente com sua bike na avenida aos domingos.

Michael Oakeshott explica

O que isso revela? A essência do pensamento conservador. E não sou eu quem estou dizendo. Depois de ser tão xingado e tomado por ignorante por conservadores que me mandavam ler, antes de falar m..., fiz meu dever de casa. Estou lendo “Conservadorismo”, de Michael Oakeshott, filósofo e teórico político britânico que é considerado um dos mais importantes pensadores dessa corrente. A versão brasileira é da Editora Âyiné e integra a coleção Biblioteca Antagonista. Mais conservador do que isso, impossível.

Mas o que nos diz Oakeshott sobre aquilo que ele defende? No ensaio “Ser conservador”, o filósofo escreve, com todas as letras na página 137: “ser conservador é, pois, preferir o familiar ao estranho, preferir o que já foi tentado a experimentar, o fato ao mistério, o concreto ao possível, o limitado ao infinito, o que está perto ao distante, o suficiente ao abundante, o conveniente ao perfeito, a risada momentânea à felicidade eterna.”

Alguns parágrafos depois, como consequência lógica (afinal, ele é um filósofo zeloso de sua lógica), Oakeshott apresenta a visão dos conservadores sobre mudanças. “Mudanças”, diz ele, entre as páginas 138 e 139, “são circunstâncias às quais devemos nos acomodar, e a inclinação a ser conservador é tanto o símbolo de nossa dificuldade de assimilar essa acomodação quanto a referência que utilizamos para assim agir. (...) Ele [o conservador] tem grande dificuldade em se ajustar a novos cenários não porque tenha perdido algo melhor [com a mudança] do que a compensação [decorrente da mudança], nem porque esta não seja passível de ser desfrutada, mas sim porque o que ele perdeu era algo que de fato gozava e que ele aprendeu a gostar ao longo do tempo, ao contrário do que entrou em seu lugar: uma coisa estranha, fria, sem laços afetivos.”

Basta aprender a gostar

Por fim, Oakeshott afirma que, para um conservador, o ônus de provar que a mudança é positiva cabe àquele que a propõe. Tal prova deve abarcar todo o conjunto de prós e contras, antes que um conservador a aceite. E sua aceitação será tanto mais fácil, quanto mais pontual e específica for a mudança proposta. Tudo por uma questão de relutar em trocar as confortáveis pantufas das certezas presentes pelos incômodos sapatos novos da mudança. O problema, como ele mesmo admite, é que os conservadores não têm espírito aventureiro. Nenhum conservador se lançaria numa caravela para saber se o mundo é redondo. Imagine, então, ser o primeiro a andar de bicicleta na Paulista aos domingos!

Mas há uma esperança: basta um pouco de tempo para que os conservadores percebam que a ideia é boa, experimentem e aprendam a gostar, a estabelecer os necessários “laços afetivos” com a nova situação. Até que, um dia, ironicamente, passarão a defender que a Paulista seja fechada para sempre aos domingos, porque reabri-la aos veículos seria uma mudança para a qual não estarão preparados...