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Você ainda quer um Trump brasileiro, depois de Charlottesville?

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

Bolsonaro trairia suas convicções e todo o seu passado para condenar um ataque homofóbico que terminasse em morte da vítima?

Você ainda quer um Trump brasileiro, depois de Charlottesville?

 (Foto: Gabriela Korossy/ Câmara dos Deputados/ Fotos Públicas)

Os violentos confrontos deste fim de semana em Charlottesville, na Virgínia, devem servir como um grande e barulhento alarme para todo brasileiro que sonha com um Donald Trump para chamar de seu em 2018. As enrascadas em que o presidente americano se meteu são um exemplo do que também pode acontecer por aqui, caso um candidato com traços autoritários, populistas, conservadores e reacionários ocupe o Planalto. Basicamente, Trump vive o seguinte dilema: negar suas convicções e condenar os ataques, ou manter sua integridade e deixar o país pegar fogo? Um eleito com perfil semelhante ao do republicano viveria o mesmo drama no Brasil.

A mesma catapulta que lançou Trump dentro da Casa Branca também foi usada, pelo então candidato, para atirar bólidos racistas, sexistas e de intolerância em geral durante a campanha. Foi eleito com as graças de grupos de extrema-direita, como a Ku Klux Klan, da qual, aliás, seu pai, Fred Trump, é suspeito de participar na juventude, segundo o The New York Times. No governo Nixon (veja a ironia), Trump pai e Trump filho foram processados pelo Departamento de Justiça por discriminar negros que buscavam imóveis para alugar. O caso só foi encerrado porque Donald Trump, diante da avalanche de provas apresentadas pelos promotores, aceitou fazer um acordo para acabar com essa baixaria. Ex-funcionários do grupo, porém, afirmam que a discriminação apenas foi para baixo do tapete, mas não acabou.

Trump não mudou de lá pra cá, a ponto de sugerir, diversas vezes, que Barack Obama não nasceu nos Estados Unidos, mexicanos são estupradores etc. Bastaram seis meses de alguém assim no Salão Oval, para que supremacistas brancos pusessem suas tochinhas pra fora e marchassem como nos tempos do apartheid que vigorou no sul do país. E, depois, atropelassem (e matassem) quem estava no seu caminho, opondo-se às suas ideias (até a simbologia do episódio é dantescamente rasteira).

Quem espalha gasolina e quem risca fósforos

O discurso de ódio não é exclusividade dos EUA. No Brasil, o ódio a minorias de gênero, cor, credo e linha partidária está cada vez mais escancarado. Jair Bolsonaro e Ronaldo Caiado são incensados por extremistas como as possíveis encarnações de um Trump tupiniquim. Eles fazem por merecer, claro, com seus discursos inflamados contra o que consideram “politicamente correto” – ou seja, toda a luta pela ampliação e equiparação de liberdades. Bolsonaro, lembre-se, chegou a propor que Enéas Carneiro, o caricato ultranacionalista de direita que fez sucesso nos anos 90, se torne oficialmente um herói da Pátria.

Até pré-candidatos que, em tese, seriam mais moderados, como João Doria, embarcaram na onda da retórica do porrete: fale grosso e bata forte no adversário, pouco importa se isso divide a sociedade, acirra ânimos e incendeia campanhas e ruas. Depois, que a sociedade veja o que sobra no rescaldo.

Alguém eleito com um discurso incendiário cairia na mesma armadilha de Trump: o que faria, diante do primeiro conflito entre quem ele apoia de coração e quem odeia com a mesma intensidade? Bolsonaro trairia suas convicções e todo o seu passado para condenar um ataque homofóbico que terminasse em morte da vítima? Ou falaria genericamente sobre os “vários lados” da violência? Caiado condenaria uma chacina de índios que se opusessem a grileiros, ou se limitaria a declarações protocolares? Depois que um extremista se elege espalhando gasolina por todo o lado, com que moral condenará aquele que apenas acendeu o fósforo?