ECONOMIA

Você está radicalmente certo do que pensa sobre política? Pense de novo...

Autor

Você crucificaria Jesus? Queimaria Giordano Bruno? Apoiaria a superioridade de uma raça? Cuidado... todos os que fizeram isso eram tão convictos, quanto você

Você está radicalmente certo do que pensa sobre política? Pense de novo...

Em cerca de quatro meses de Storia, consegui a proeza de ser expulso de dois grupos de esquerda e dois grupos de direita no Facebook, nos quais postava meus artigos e tentava debater com um mínimo de civilidade a situação política. O que irritou os esquerdistas foi a minha ferrenha defesa de que, se Luiz Inácio Lula da Silva (o Santo Padroeiro de quem veste vermelho) errou, deve ser punido pela Lava Jato. Já entre os direitistas, minhas críticas ao libertarianismo (uma modinha importada da Áustria), à intervenção militar constitucional (nunca vi constituição regular golpes de Estado, mas enfim...), e a São Jair Bolsonaro foram insuportáveis. Além dos palavrões costumeiros, a situação apenas reforçou minha certeza de que os cientistas cognitivos estão corretos: nosso cérebro entra em pane, quando confrontado com dúvidas, e a reação é violenta. A má notícia é que só evoluímos, quando nos dispomos a questionar nossas certezas.

Já vi de tudo em matéria de teoria da conspiração e ideias grotescas nesse tempo, seja de direita, seja de esquerda. Mas o que leva uma pessoa a se descontrolar, a ponto de ofender e perseguir alguém que pensa diferente? Se não for um robô, militante virtual, hater ou troll, a resposta dos cientistas é que esse indivíduo está lutando com todas as forças contra a “dissonância cognitiva”, processo pelo qual o cérebro tenta anular um estímulo que contradiz crenças anteriores. Em bom português: nosso cérebro busca neutralizar dúvidas para que não surtemos. Entre os mecanismos para isso, estão os famosos “atalhos mentais” – generalizações que nossa mente produz, a fim de acelerar a tomada de decisões. É o famoso “pensa rápido” ou “fica esperto”.

Pensar ou viver

Evolutivamente, os atalhos mentais tiveram uma função importante para que nossos ancestrais sobrevivessem tempo suficiente para deixar descendentes. Imagine um hominídeo há milhões de anos, colhendo sossegadamente sementes na savana africana. De repente, ele percebe um borrão correndo em sua direção e rugindo ferozmente. O que aconteceria, se nosso personagem fosse um filósofo pré-histórico, avesso a conclusões apressadas? Afinal, aquele dente-de-sabre salivando poderia, muito bem, ser um dócil gatinho de meia tonelada que só quer brincar. Ou, quem sabe, se acalmaria antes de alcançá-lo. Ou por que, cargas d’água, temos de estigmatizar todos os felinos como agressivos e carnívoros? Se nosso filósofo das savanas perdesse tempo com essas considerações, viraria almoço muito rápido. Na dúvida, corra primeiro e pense depois. Generalizando: reaja primeiro, reflita depois.

Trata-se de um mecanismo brilhante do cérebro, quando lidamos com ameaças concretas à nossa integridade física e à nossa sobrevivência. Mas, o fato é que, atualmente, as ameaças são muito mais imaginárias, que reais. Ou, no mínimo, o risco que representam à nossa vida é bem menor. Ainda assim, nosso cérebro continua respondendo como se vivêssemos na Idade da Pedra contra perturbações de nossa paz. Isso se aplica, obviamente, à política. Você critica o Bolsonaro? É petralha! Você apoia a privatização? É coxinha! Você é contra um golpe militar? É mortadela! Você espera que Lula pague pelos seus crimes? Deus do Céu!! Você é um golpista!

Atalho para o desastre

As caricaturas e simplificações idiotizantes que tentam entulhar em nossa cabeça só pegam, porque conectam-se rapidamente às nossas crenças anteriores, à nossa luta para reduzir a tal dissonância cognitiva, aos nossos atalhos mentais que nos impelem para a ação impensada. As dúvidas, os contra-argumentos, as divergências nos irritam, porque nosso cérebro não foi feito para duvidar. Em outras palavras: consome-se muita energia pensando, e perdemos um tempo precioso para correr até uma árvore e escaparmos de quem quer nos almoçar. Preferimos, preguiçosamente, esperar que algum guru nos diga o que temos de pensar. É muito mais cômodo ter respostas prontas, do que buscá-las. Evolutivamente, é até mais econômico em termos de calorias.

O diabo é que agir sem pensar induz a um efeito manada. Basta lembrar dos índios americanos matando milhares de búfalos, simplesmente ao induzir o líder da manada a pular de um penhasco. Sempre que vejo alguém reagir raivosamente a uma questão, ou a um ponto de vista diferente, pergunto-me se ele queimaria Giordano Bruno por dizer que a Terra não era o centro do universo. Ou condenaria Cristo por afrontar a igreja de seu tempo. Ou diria que negros e índios não tinham alma. Ou que judeus são uma raça inferior. Ou, mais provavelmente, que não houve ditadura, nem há provas contra Lula.