ECONOMIA

Voto em quem tiver coragem de combater o cartel dos juros altos

Yazar

Só duas coisas justificam o esculacho dos juros ao consumidor no Brasil: a grande concentração bancária e a covardia do governo de enfrentá-la

Voto em quem tiver coragem de combater o cartel dos juros altos

Quando os juros brasileiros cairão na real? (Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil)

Entra presidente, sai presidente, e há algo que não muda: a absoluta falta de coragem de enfrentar o cartel dos juros altos, formado pelos grandes e poucos bancos de varejo do país. Segundo um relatório do Banco Central divulgado há menos de um mês, quase 80% do crédito concentra-se em apenas quatro instituições: Itaú, Bradesco, Caixa e Banco do Brasil. O resultado, para o bolso dos clientes, não poderia ser pior. Enquanto a taxa básica de juros – a famosa Selic -, que funciona como referência do sistema financeiro, baixou em outubro para 7,5% ao ano (o menor patamar em muitos anos), os juros ao consumidor estão subindo! Outro documento, publicado nesta sexta-feira (24) pelo BC, mostra que a taxa média de juros no crédito subiu 0,4 ponto percentual de setembro para outubro, alcançando 27,4% ao ano.

Quando se separam os tipos de crédito, encontram-se taxas ainda maiores. Em outubro, as pessoas físicas (aquele jargão jurídico-burocrático-financeiro para se referir a nós, pobres mortais) sofreram com uma taxa média de 34,2% ao ano – 0,3 ponto maior que em setembro. Em particular, as taxas médias das operações com juros livres (aquelas cuja taxa não é regulada pelo governo) bateram em 59,5%, puxadas por 14,4 pontos percentuais de aumento nos juros médios do cartão de crédito; 2,4 pontos no cheque especial; e 4,7 pontos para o crédito não consignado. No segmento de crédito direcionado (como o imobiliário), o cenário não foi melhor: o custo médio ficou em 8,5%, com alta de 0,1 ponto sobre setembro.

Da boca pra fora

Toda essa numeralha prova apenas uma coisa: há um abismo entre a valentia exibida por candidatos e políticos pelos palanques Brasil afora, e a covarde submissão com que afinam a voz ao grande capital, após serem eleitos. Essa subserviência é suprapartidária: foi vista em governos de direita, de centro e de esquerda. De Fernando Henrique Cardoso a Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, pouco (para ser educado) foi feito para trazer os juros aos consumidores para níveis civilizados. Basta lembrar que, nos governos petistas, os bancos não se cansavam de bater sucessivos recordes de lucros trimestrais e anuais. Questionado a respeito, Lula chegou a declarar, numa atitude populista, que preferia ver os bancos ganharem muito dinheiro, a quebrarem e recorrerem aos cofres públicos para se salvarem.

É uma meia verdade. O spread bancário (a diferença entre o custo do dinheiro captado pelas instituições – grosso modo, o “preço do dinheiro” para elas – e os juros que cobram dos clientes) continua nas nuvens. Mesmo com um recuo de 6,1 pontos nos últimos 12 meses encerrados em outubro, o spread para créditos de pessoas físicas está em 27,6 pontos. Quando se olha apenas para os contratos com juros livres, a diferença é ainda maior: 35,4 pontos de spread!

Solução? Mais bancos

Os bancos alegam que é dessa palavrinha em inglês que tiram dinheiro para cobrir seus custos operacionais (como funcionários e instalações), financeiros (os juros que pagam pelo dinheiro “comprado” de outros bancos), a inadimplência (isto é, o calote de quem não paga suas prestações) e seu lucro (porque ninguém é de ferro). O que as instituições pouco dizem é que boa parte dos custos operacionais é coberta pela cobrança de tarifas de serviços dos clientes. Portanto, não está embutida no spread. Segundo: o preço do dinheiro comprado pelos bancos está bem baixo. Como se viu, a Selic está no menor patamar em muito tempo. Se for buscar recursos no exterior, a situação é ainda melhor: os juros estão ainda mais baixos na Europa, nos Estados Unidos e no Japão. Mesmo somando o “risco-país”, não há como justificar essa diferença. Por fim, apenas 3,9% das famílias estão com um atraso igual ou superior a 90 dias em seus financiamentos. Segundo o BC, essa inadimplência permanece estável nos últimos quatro meses.

Resumindo: há poucos argumentos racionais que justifiquem uma diferença tão grande entre o quanto os bancos pagam pelo dinheiro, e o quanto cobram por ele. Só duas coisas justificam essa situação escorchante: a extrema concentração do mercado de crédito no país, e a história covardia do governo em enfrentá-la. Não se trata, alerte-se, de obrigar os bancos a reduzirem os juros por decreto, como Dilma tentou fazer. O caminho mais saudável é ampliar a concorrência, abrindo o país para mais bancos, mais investidores, mais recursos. Na era do capitalismo financeiro, os bancos brasileiros são bem pouco capitalistas. Preferem o bom e velho colo do Estado protetor. E ai do governo que ouse negá-lo! Por isso, um bom requisito para escolher seu candidato a presidente é se ele ou ela terá coragem, mesmo, de encarar essa briga. Eu, pelo menos, ainda não vi nenhum assim.