ENTRETENIMENTO

Branco Sai, Preto Fica & o apartheid (nem tão) invisível

Marcello Miyake
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Marcello Miyake

Na missão para revelar a culpa do Estado brasileiro por crimes contra a população periférica em Brasília no ano de 1986, um homem volta do futuro para encontrar evidências. Baseado no massacre no baile de black music na Ceilândia, cidade-satélite de Brasília, o novo filme de Adirley Queirós (A cidade é uma só?) assemelha-se às ficções distópicas clássicas da literatura e constrói a sua narrativa particular sobre o racismo "velado" que vivemos até hoje.

Branco Sai, Preto Fica & o apartheid (nem tão) invisível

Após violenta segregação e marginalização de negros e pobres do centro de Brasília como provável tentativa de “purificação” por parte do governo, duas vítimas marcadas física e emocionalmente pelo massacre ocorrido encontram-se na poderosa cultura oriunda dos povos africanos. Ao tempo em que o primeiro empenha-se à modelação de próteses as quais são utilizadas para a manifestação cultural por meio da dança, o outro dedica-se quase inteiramente à música e elaboração de bombas eletromagnética contra o governo, constituída pelas gravações mistas de rap, hip hop e até mesmo tecnobrega.

Não são simplesmente bombas eletromagnéticas, e sim culturais.

As linhas temporais passadas são marcadas por fotografias, desenhos conceituais que "anunciam o futuro", músicas dedicadas às vítimas de 86' e transmissões em vídeo da população do futuro para o detetive que parte em busca das evidências contra o Estado.

Branco Sai, Preto Fica & o apartheid (nem tão) invisível

O filme utiliza do recurso cyberpunk - sub-gênero da ficção científica, consiste na tecnologia como "ser dominante" e degradação da sociedade - como background, mas com grande influência brasileira na fotografia, maquiagem, elementos do cenário e principalmente na marcante trilha sonora. Em meio aos ferros-velhos e depósitos de lixo nas margens da capital brasileira, o diretor apropria-se de elementos narrativos já bastante conhecidos no universo de ficção distópica. Entre eles, o destaque de pontos podres da sociedade de modo a evidenciá-los para possível reflexão por parte do espectador.

Por exemplo, em Admirável Mundo Novo, Huxley critica a divisão entre classes e a falsa ideia de felicidade que nos é imposta dando “zoom” e apresentando o Soma e a segregação entre alphas, betas, deltas, gamas e ípsolons. Assim como Orwell evidencia o controle e vigilância por parte do governo através das tele-telas, o Grande Irmão e o pensamentocrime em seu 1984. Bradbury também atira para o lado da crítica através da evidência em Fahrenheit 451, livro cuja discussão se baseia no controle de informação por meio da queima de livros, proibindo-os e criminalizando-os. Um paralelo pode ser traçado entre os três romances e a discriminação; vigilância; barreiras ao redor do centro da cidade e omissão de informação apresentada pelo longa.

Branco Sai, Preto Fica & o apartheid (nem tão) invisível

As críticas propostas pelo filme não se limitam apenas à segregação racial e econômica, mas se expandem para outros temas atuais, também apresentados sutilmente. Como exemplo, a fala do povo futuro: “a vanguarda cristã assumiu o poder”, fazendo alusão à bancada evangélica no senado; às invasões militares que ocorrem nas favelas e bairros marginais; também ao preconceito latente em relação à cultura popular por parte da “elite cultural”.

Em função do roteiro o qual se desenvolve de forma não-linear, a montagem da trama por parte do espectador torna-se necessária, o que desloca a responsabilidade do filme para a sua capacidade de compreensão e conexão dos fenômenos aos quais são propostas as reflexões. Nesse sentido, o longa apresenta ótimos diálogos, muitas vezes livres, essencialmente brasileiros e naturais, com na cena de tiroteio imaginário digna de comparação à atuação de Samuel L. Jackson em Pulp Fiction. Refletindo na exemplar performance do elenco, formado por Marquim do Tropa; Dilmar Durães; Shockito e Gleide Firmino.

Branco Sai, Preto Fica & o apartheid (nem tão) invisível

Branco Sai, Preto Fica apresenta-se extremamente profundo e eficiente, apesar da aparente confusão gerada por parte da narrativa fragmentada. Com o elenco muito competente e uma trilha sonora exemplar, puxando a raiz da cultura negra e popular. O longa de Adirley Queirós discute temas atuais importantes e preenche o espaço na lacuna de ótimas produções do gênero. 

DISPONÍVEL NA NETFLIX!

VEJA O TRAILER: