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Marcello Miyake
marcellomiyakehá 8 meses

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Críticas, textos e devaneios sobre filmes (às vezes) não-tão-convencionais.
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O cinema puro de Alfred Hitchcock

Foi em Londres, no ano de 1899 que Alfred Joseph Hitchcock nasceu. Fora criado rigidamente sob formação católica. Começou a cursar engenharia paralelamente à cursos de ilustração, foi então que encontrou sua verdadeira paixão, a sétima arte. Aos 20 anos começou sua carreira no cinema ao ser contratado para produzir os letreiros de filmes mudos no Players-Lasky. Lá aprendeu a roteirizar, editar e trabalhar na direção de arte. Se tornou assistente de direção em 1922.

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"Se você tiver sido educado com os jesuítas como eu fui, esses elementos seriam importantes. Eu me sentia aterrorizado pela polícia, pelos jesuítas, pela punição, por um monte de coisas. Estas são as raízes do meu trabalho."

Ainda em 1922 dirigiu Mrs. Peabody, mesmo que não finalizado. Seu primeiro longa como diretor estreou em 1925, The Pleasure Garden. No ano seguinte, filmou The Lodger, produção a qual sintetizou muito de seu estilo. Na trama, o protagonista é inocente, mas acusado por crimes que desencadeiam vários acontecimentos. Também foi nesse filme em que o diretor criou sua mais famosa assinatura, a de aparecer em algum momento do filme (salve pra Marvel). Posteriormente, suas participações passaram a se concentrar no começo dos filmes, para que os espectadores não perdessem o foco na trama o procurando.

A Estalagem Maldita é o marco final da chamada “fase inglesa”, filmado em 1939. Após um ano, Hitchcock viria a ganhar o seu único Oscar, o de Melhor Filme por Rebecca – A Mulher Inesquecível, longa que inicia a “fase americana” de sua carreira. Assim como Stanley Kubrick, o Mestre do Suspense nunca foi reconhecido devidamente pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Os únicos filmes indicados foram: Um Barco e Nove Destinos; Quando Fala o Coração; Janela Indiscreta e Psicose. Em 1967 recebera o prêmio Irving G. Thalberg pelo conjunto de sua obra. “Thank you” foi seu agradecimento, conhecido como o mais breve da história do Academy Awards.

Em Notorious (1946), fora apresentado o conceito MacGuffin para objetos essenciais para o personagem e desenvolvimento da trama porém irrelevantes para o espectador. Na estória, uma garrafa com suposto urânio enriquecido. Enquanto seus personagens se preocupam com o recipiente, quem assiste se preocupa apenas com o romance – tema muito explorado por Hitchcock.

Em 1954, dois grandes clássicos foram filmados. O primeiro é Disque M Para Matar, estrelado por Grace Kelly e Ray Milland. O longa explora mais traços do estilo Hitchcockeano, mais especificamente, a falsa acusação por crimes cometidos por outro alguém. O segundo é Janela Indiscreta, considerados por muitos, a melhor produção do diretor. Na trama, acompanha-se o fotógrafo (vivido por James Stewart) invalidado pela perna quebrada que vigia a vida dos vizinhos com sua câmera, até que este começa a pensar que um dos vizinhos assassinou sua esposa e a partir disso, ele começa a investigá-lo. Observamos a vida de várias pessoas ao longo de Janela Indiscreta. Nunca temos certeza do que se passa realmente do outro lado de suas janelas. A complexidade de inúmeras vidas em apenas um edifício eternizou o longa.

O cinema puro de Alfred Hitchcock

Um Corpo que Cai, de 1958 trouxe consigo a inovação no efeito de vertigem do protagonista, na qual o diretor puxa a câmera para trás enquanto dá o zoom. A técnica é copiada até os dias atuais. Mesmo com o fracasso de crítica e bilheteria nos Estados Unidos, Vertigo é considerado por várias listas como “o melhor filme de todos os tempos”. Apesar da trama conspiratória, criminosa, suicida e investigativa, o longa é na verdade sobre o amor, homenageando as mulheres projetadas pelos homens, existentes apenas no plano das ideias.

Baseado no romance de Robert Bloch, o clássico absoluto de Hitchcock foi lançado em 1960. Psicose carrega consigo uma complexidade psicológica enorme, até bastante criticada na época que saiu. O longa apresenta todos os elementos característicos do diretor, especialmente nas inovações técnicas, como nas posições e movimentos das câmeras, nas elaboradas edições e nas surpreendentes trilhas sonoras que realçam os efeitos de suspense e terror. Evidente na icônica cena do chuveiro, filmada com aproximadamente 60 takes.

Os Pássaros (1963) marca o ápice do suspense de Hitchcock, com cenas fortes e efeitos especiais surpreendentes para a época, o filme apresenta apenas três músicas, deixando que o clima se construa a partir do silêncio e expressões de desespero no rosto dos atores. Com sua direção peculiar, o Mestre do Suspense – não muito conhecido pelo tratamento positivo com seus atores – foi responsável por jogar pássaros vivos em Tippi Hedren durante as gravações.

O cinema puro de Alfred Hitchcock

É inegável sua importância para o cinema. Copiado por inúmeros diretores até hoje, o estilo de Alfred Hitchcock consegue ser extremamente característico e perceptível. No livro de entrevistas Hitchcock/Truffaut, o diretor francês batiza sua direção de “cinema puro”. Conceito que se nomeia a preferência da imagem para a construção de uma cena em relação aos diálogos ou o som. São as cenas em si dialogando com o público. O espectador se torna participante dos filmes. Exemplo claro em Janela Indiscreta, quando Lars Thorwald confronta Jeffries dizendo “O que você quer de mim?” fala claramente direcionada à quem assiste o filme, após passar uma hora e quarenta e cinco minutos observando sua vida.

Além do conceito, na entrevista também foi comentada a diferenciação de aterrorização e suspense. O diretor dá o exemplo de dois homens que estão dialogando sentados diante a uma mesa. Quando uma bomba explode, o espectador se aterroriza por cinco segundos. Se o público toma conhecimento do explosivo antes, este fica apreensivo durante todo o diálogo e os cinco segundos de medo são estendidos para cinco ou dez minutos.

O diretor sempre foi conhecido por ser extremamente metódico. Não gostava de participar das gravações. Sempre se viu como alguém do design de produção ao invés de diretor. Deixava todos os ângulos e montagens anotadas.

O ano de 1980 foi marcado com o recebimento da KBE da Ordem do Império Britânico pelas mãos da Rainha Elizabeth II e por sua morte, causada pela insuficiência renal. Mesmo com as críticas negativas que sofrera e por ser conhecido como alguém que vê os atores como “gado”, a importância que Alfred Hitchcock deixou para o cinema é imensurável. Suas obras foram eternizadas na sétima arte e se tornam ainda mais vivas com a passagem do tempo como nos trabalhos de Steven Spielberg, John Carpenter, Sam Raimi, M. Night Shyamalan, Martin Scorsese, George A. Romero, Peter Bogdanovich, Dario Argento, William Friedkin, David Cronenberg e Quentin Tarantino, por exemplo.

Branco Sai, Preto Fica & o apartheid (nem tão) invisível

Na missão para revelar a culpa do Estado brasileiro por crimes contra a população periférica em Brasília no ano de 1986, um homem volta do futuro para encontrar evidências. Baseado no massacre no baile de black music na Ceilândia, cidade-satélite de Brasília, o novo filme de Adirley Queirós (A cidade é uma só?) assemelha-se às ficções distópicas clássicas da literatura e constrói a sua narrativa particular sobre o racismo "velado" que vivemos até hoje.

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Branco Sai, Preto Fica & o apartheid (nem tão) invisível

Após violenta segregação e marginalização de negros e pobres do centro de Brasília como provável tentativa de “purificação” por parte do governo, duas vítimas marcadas física e emocionalmente pelo massacre ocorrido encontram-se na poderosa cultura oriunda dos povos africanos. Ao tempo em que o primeiro empenha-se à modelação de próteses as quais são utilizadas para a manifestação cultural por meio da dança, o outro dedica-se quase inteiramente à música e elaboração de bombas eletromagnética contra o governo, constituída pelas gravações mistas de rap, hip hop e até mesmo tecnobrega.

Não são simplesmente bombas eletromagnéticas, e sim culturais.

As linhas temporais passadas são marcadas por fotografias, desenhos conceituais que "anunciam o futuro", músicas dedicadas às vítimas de 86' e transmissões em vídeo da população do futuro para o detetive que parte em busca das evidências contra o Estado.

Branco Sai, Preto Fica & o apartheid (nem tão) invisível

O filme utiliza do recurso cyberpunk - sub-gênero da ficção científica, consiste na tecnologia como "ser dominante" e degradação da sociedade - como background, mas com grande influência brasileira na fotografia, maquiagem, elementos do cenário e principalmente na marcante trilha sonora. Em meio aos ferros-velhos e depósitos de lixo nas margens da capital brasileira, o diretor apropria-se de elementos narrativos já bastante conhecidos no universo de ficção distópica. Entre eles, o destaque de pontos podres da sociedade de modo a evidenciá-los para possível reflexão por parte do espectador.

Por exemplo, em Admirável Mundo Novo, Huxley critica a divisão entre classes e a falsa ideia de felicidade que nos é imposta dando “zoom” e apresentando o Soma e a segregação entre alphas, betas, deltas, gamas e ípsolons. Assim como Orwell evidencia o controle e vigilância por parte do governo através das tele-telas, o Grande Irmão e o pensamentocrime em seu 1984. Bradbury também atira para o lado da crítica através da evidência em Fahrenheit 451, livro cuja discussão se baseia no controle de informação por meio da queima de livros, proibindo-os e criminalizando-os. Um paralelo pode ser traçado entre os três romances e a discriminação; vigilância; barreiras ao redor do centro da cidade e omissão de informação apresentada pelo longa.

Branco Sai, Preto Fica & o apartheid (nem tão) invisível

As críticas propostas pelo filme não se limitam apenas à segregação racial e econômica, mas se expandem para outros temas atuais, também apresentados sutilmente. Como exemplo, a fala do povo futuro: “a vanguarda cristã assumiu o poder”, fazendo alusão à bancada evangélica no senado; às invasões militares que ocorrem nas favelas e bairros marginais; também ao preconceito latente em relação à cultura popular por parte da “elite cultural”.

Em função do roteiro o qual se desenvolve de forma não-linear, a montagem da trama por parte do espectador torna-se necessária, o que desloca a responsabilidade do filme para a sua capacidade de compreensão e conexão dos fenômenos aos quais são propostas as reflexões. Nesse sentido, o longa apresenta ótimos diálogos, muitas vezes livres, essencialmente brasileiros e naturais, com na cena de tiroteio imaginário digna de comparação à atuação de Samuel L. Jackson em Pulp Fiction. Refletindo na exemplar performance do elenco, formado por Marquim do Tropa; Dilmar Durães; Shockito e Gleide Firmino.

Branco Sai, Preto Fica & o apartheid (nem tão) invisível

Branco Sai, Preto Fica apresenta-se extremamente profundo e eficiente, apesar da aparente confusão gerada por parte da narrativa fragmentada. Com o elenco muito competente e uma trilha sonora exemplar, puxando a raiz da cultura negra e popular. O longa de Adirley Queirós discute temas atuais importantes e preenche o espaço na lacuna de ótimas produções do gênero. 

DISPONÍVEL NA NETFLIX!

VEJA O TRAILER: 

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marcellomiyake
Crítico mirim, desenhista amador, escritor júnior e futuro quadrinista (se tudo der certo).