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Não, espanhol não é parecido com português

                     Não, espanhol não é parecido com português

Não, caro leitor, espanhol não é parecido com português. Tudo que você ouviu ao longo da sua vida sobre aprender espanhol ser fácil porque é parecido com português é mentira. Sinto-lhe dizer, mas não fique mal. Eu demorei praticamente 26 anos para descobrir e ter a certeza de que as duas línguas são bem mais diferentes do que parecidas.

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Sinto-lhe dizer também que se existe algo feio é o tal do “portunhol”. Hoje entendo perfeitamente a polêmica em torno de Vanderlei Luxemburgo quando foi treinador do Real Madrid, da Espanha, e a imprensa local só comentava sobre a língua falada do professor. Não critico, entretanto, quem depende somente do “portunhol” para se virar. Critico as pessoas que afirmam que o portunhol já basta. Acreditei nisso por muito tempo, até visitar países de língua espanhola e o desespero tomar conta de mim.

Fui a Buenos Aires em 2013 com a esperança de me comunicar em espanhol. Naquela época, eu tinha feito apenas seis meses de curso - bem fraco, diga-se - e a única palavra que utilizei correta foi acá, embora aqui também exista no espanhol e sirva para o mesmo uso do português. Ou seja, não tinha como errar. Só que na capital argentina já percebi que o “portunhol” não era tão parecido e fui obrigado a me comunicar em inglês. A sensação já foi de decepção.

Ok, sem problemas. Vamos assistir a alguns filmes argentinos, ouvir Maná, ler uma ou outra matéria sobre o Nadal e ainda acreditar que não é preciso estudar espanhol, que o “portunhol” basta, sem contar a verdade máxima de que, se falado devagar, o espanhol é completamente compreensível para nós, brasileiros.

Em abril de 2015, tive a oportunidade de cruzar o Oceano Atlântico pela primeira vez e pousar na bela Barcelona. Peguei “mi maleta” no aeroporto e fui confiante para o Urbany Hostel, na Av.Meridiana - excelente hostel, e fica a recomendação para quem for visitar a Catalunha. No balcão para confirmar minha hospedagem, tentei a falar espanhol. A moça morena de cabelos cacheados não entendeu. Respirei e utilizei todo meu arsenal e nada. A recepcionista me fez uma pergunta na tentativa de compreender o que eu falava, mas também não entendi absolutamente nada o que ela me indagava. O que eu fiz? Claro, pedi para ela falar mais devagar, com a certeza que entenderia. A moça pronunciou palavra por palavra, vagarosamente e tive a sensação de ter entendido. Aliviado, respondi - quase convicto. E o que aconteceu? Ela me perguntou se eu falava inglês. Não havia mais escapatória. Frustrado, iniciei o diálogo na língua americana e toda a confusão terminou em poucos minutos.

Não, espanhol não é parecido com português

   (Foi exatamente neste local da foto acima que desisti do meu portunhol para sempre) 

De Barcelona fui para Valência, cerca de quatro horas de ônibus. Sem confiança e desapontado inclusive com meu portunhol, não tentei puxar assunto com quase nenhuma pessoa. A senhora do hostel mal falava inglês e preferi me comunicar apenas o básico com ela. Fingia que entendia tudo e, na verdade, só entendi que precisava deixar a chave no balcão quando fosse sair. De Valência fui para Madrid, mais quatro horas de ônibus. Ao chegar na capital espanhola, já falei inglês no hostel e fui para o Santiago Bernabéu assistir Real Madrid e Málaga.

Não tem como se espantar com a beleza do estádio do time de Madrid. É algo impressionante. Foi fácil encontrar o meu lugar - assento 17 na fileira 7 - e claramente fui surpreendido o tão próximo estava do gramado para assistir Cristiano Ronaldo e companhia. No segundo tempo, quando o adversário começou a pressionar o time da casa, um senhor torcedor fanático começou a conversar comigo. Pelo tom de voz, claramente ele estava descontente com sua equipe. Quanto mais reclamava, mais conversava comigo. E eu? “Sí, sí, claro”. O senhor cuspia trezentas palavras em segundos e eu? “Sí, sí, claro” ou apenas meneava a cabeça. A situação era constrangedora. Ameacei o portunhol de novo, mas não funcionou. Aliás, pensando bem, se funcionou eu não sei, porque não entendi nada da resposta. Minutos depois, resolvi ficar quieto e não me envergonhar mais. Perdi uma grande oportunidade de conversar sobre futebol com uma figura do Santiago Bernabéu. O senhor já devia ter cerca de 70 anos e, pela maneira exaltada de reclamar, chamou a atenção de todos os torcedores ao redor,  atraindo fotos e despertando risadas. Sua esposa, uma senhora elegante, tentava conter o marido dos chiliques mas era impossível conter os acessos do esposo. E o que ele fazia? Conversava comigo. Não tenho dúvidas que perdi uma das grandes histórias de minha vida. 

Não, caro leitor, o espanhol não é parecido com o português. Algumas palavras lembram sim, e tem até o mesmo significado ou a mesma forma de ser utilizada. Mas é quase impossível sobreviver de portunhol. Depois dessa viagem, cheguei a conclusão de que um curso de espanhol seria o meu primeiro objetivo e é o que estou fazendo agora. A pronúncia e o sotaque são cruciais para se entender espanhol e, principalmente, se fazer entender. Se você fala inglês, use o inglês, mas não confie no seu portunhol. E, se der, faça aulas de espanhol. No começo, eu não gostava da língua. Hoy, me encanta.

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