Marcelo Bechara's story
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Causos de Tarça

Marcelo Bechara
há um ano3 visualizações

 O café já está servido, na mesa do quintal, pontualmente às 15h. Os filhos e netos revezam as cadeiras para se servirem, mas uma ainda está vazia e todos aguardam ansiosamente pelos barulhos dos pés se arrastando, que vem do quarto, denunciando que acabara de tirar um gostoso cochilo da tarde. A cadeira dela, da ponta da mesa, está sempre a espera. Ninguém se senta. E quando alguém se senta, prontamente levanta quando ela aparece. Assim que vê os filhos, netos, bisnetos e marido, logo abre o sorriso. O sorriso que não precisa de nenhuma palavra. O sorriso que transborda amor e alegria. Mas ela é de palavras. Ela não fica quieta. Ela quer saber de tudo. E quer contar tudo.

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Certo dia, há muitos anos, fomos pescar no sítio. Uma das paixões dela. Vó Tarcília costumava se sentar bem ao meio do tablado, com os netos ao redor. Lembro-me que depois de pegarmos vários lambaris, queríamos pescar traíra. Coloquei um lambari inteiro no meu anzol e perdi várias fisgadas. Vó Tarcília disse que era melhor colocar apenas metade do peixe no anzol. Respondi que não tínhamos faca ou canivete, mas dessa vez ela não usou palavras para explicar o que tinha que fazer. Vó Tarcília cortou o lambari no dente, ficou com uma metade e me deu a outra. Eu só respondi em pensamento. Não era algo que costumava ver todos os dias. Resultado: peguei uma traíra, e prontamente a Vó veio no meu ponto de pesca para tentar pegar mais uma. E conseguiu. Ela sabe pescar.

A paixão pelo marido não muda. Não importa se é no 1º ano de casado ou no 67º aniversário de casamento, como completaram neste ano de 2016. Se ele não está junto, ela sente falta. E assume: “saudade do meu veio”, diz a Vó. Teve uma vez que ela resolveu vir para São Paulo acompanhar a colação de grau do afilhado. Insistiu que queria dormir na sala e não no quarto. O sofá era confortável demais para ela ter que se movimentar até a cama. Tudo bem, Vó. Boa noite. Fui para meu quarto, só que meu irmão saiu com a namorada, chegando apenas de madrugada. Logo que ele entrou no apartamento, ouviu a voz da Vó:

- Dito? É você?

- Não, vó. É o Marquinhos.

- O quê? Onde você estava?

- Eu estava com minha namorada, Vó.

- Namorada? Como assim, Dito? Que namorada?

- Não é o Dito, vó. É o Marquinhos!

- Não estou entendendo nada… - E Vó Tarcília voltou a dormir.

Na manhã seguinte, acordou toda sorridente e com vergonha. Lembrava da cena, e ria, ria. Apesar da vergonha, contava para todos. Quando retornou para sua casa, em Tanabi, fez questão de contar durante o café da tarde, para a família. E ria. (Na verdade, caro leitor, o correto é escrever sobre as risadas no presente, porque ela está sempre sorrindo e rindo).

Vó Tarcília sempre é a última a deixar a mesa do almoço. Não só porque gosta de conversar, mas por apreciar cada refeição. E come bem. Mas, como ela costuma definir, ela come devagar. E come mesmo. Devagar, apreciando cada comida, contando histórias e dizendo que é feliz. Ela não pode comer doce, mas que mal faz um pedacinho? Ou só meio copo de guaraná (sem ser zero)? Como a Vó diz, é só para adocicar um pouco a boca, a comida estava salgada.

A memória dela é muito boa. Às vezes ela esquece um nome ou outro, principalmente das pessoas que entraram há pouco na família, mas, como ela mesma fala: “são muitos netos, muitas namoradas, muitos nomes para guardar, né? ”. E fica tudo certo. Só que ela se recorda de tudo que passou na vida. Da infância animada, dos primeiros meses de namoro com o esposo, a educação dos nove filhos em uma casinha no sítio, as histórias das amigas, a inesquecível família no Piauí e também a inesquecível companheira dela, por tantos anos, a Dudinha, cachorrinha que nos deixou há um tempo.

Nos últimos tempos, ela desenvolveu uma paixão e demonstrou mais um dom: pintar. Com aqueles livros de colorir, vovó passa horas se divertindo e focada no trabalho. Aqui vale mais uma passagem:

Era semana do Natal, cheguei na casa da Vó e ela estava sentada na mesa pintando. Acabara de ganhar mais um livro da comadre Matilde. Vovó já estava no terceiro desenho completo em poucos dias. Fiquei impressionado com a velocidade e falei:

- Nossa, Vó, a senhora não para de pintar. Poderia ter um descanso.

- É que no Natal a gente recebe muitos pedidos, o trabalho aumenta, tem que aproveitar -. E riu, riu e riu de novo.

Eu ri, e escolhi um desenho para levar comigo, para sempre, e que está comigo neste exato momento que escrevo esta crônica.

Não existe dias ou noite ruins. Não existe tristeza. Quando perguntei como foi a estadia dela no hospital depois de 10 dias, ela prontamente respondeu:

- Uma beleza! Todos me amam aqui - E riu.

Vó Tarcília não sabe amar pouco. Vó Tarcília não sabe ser triste. Vó Tarcília vive intensamente cada minuto de vida. Vó Tarcília não sabe só dar a mão para cumprimentar, ela quer um abraço forte, um beijo. Vó Tarcília não precisa de muito para ser feliz. Na verdade, ela precisa de bem pouco. Ela só precisa da família, marido e amigos. E claro, um caderno para pintar.

18:43, March 3rd

Marcelo Bechara
há 2 anos2 visualizações

                                                                      

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                                                Perdido entre flores e poemas

                                                                Capítulo 4

Lisa respirou fundo. De olhos fechados ela expirou o ar devagar, como se cada assopro significasse uma palavra que precisava ser dita em voz alta. Como se cada ar que saía de sua boca fosse um desabafo. A cada ar expirado seu corpo respondia com uma dose extra de calma. Era isso que ela procurava. Mas a dor insistia em continuar. Ainda a machucava. Aquela dor no peito que por tempos era sinônimo de alegria, hoje era sinônimo de lágrimas que caíam suavemente pela face de seu rosto até encontrar seus lábios e ela poder sentir o gosto salgado da dor. Não vá embora, pensava Lisa a cada lágrima que brotava de seus olhos cor de mel. Elas pareciam não ter fim. Todas as noites elas voltavam com a mesma intensidade. Às vezes apareciam ao longo do dia, em um lampejo de lembrança de como era a vida antigamente ou de como Lisa achava ser. Já não tinha mais a certeza de que a vida há meses era realmente boa. Se soubesse da dor que a causaria tempos depois, talvez escolhesse por não ter se entregado tanto àquele momento.

Alguns amigos disseram para Lisa que ela poderia se permitir a ficar triste, à dor do luto. Mas Lisa precisava do caminho inverso. Ela tinha que se permitir ser feliz. Ela tinha que encontrar a maneira para superar a dor que insistia em aparecer todas as noites inevitavelmente, quando repousava a cabeça no travesseiro. Ao fechar os olhos, Lisa procurava pensar no futuro, nos dias floridos e cheios de alegria que estariam por vir, mas o seu coração se sobrepunha a sua mente e era do passado que ela lembrava. Recordou-se do primeiro presente, uma surpresa trazida de uma viagem ao exterior em que ela jamais imaginara ganhar um dia. Era um presente simples, mas entregue com tanto amor que confortava seu coração lembrar-se do momento em que recebera. Abriu o pacote com um sorriso no rosto, os olhos cheios de lágrimas, mas eram lágrimas de alegria, da mais pura felicidade e sensação de se sentir preenchida, diferente do vazio que se instalara desde a despedida, o adeus incompleto, o adeus que se custa a acreditar, o adeus que mantém a esperança, mas esta esperança aos poucos se transforma em desespero e infelicidade.

18:43, March 3rd

Eram 3h48 quando Lisa acordou pela primeira vez. Não chovia, embora o céu estivesse encoberto de nuvens. Eram os últimos dias de outono e o vento gelado já anunciava que o inverno estava próximo. Lisa virou de um lado para o outro, puxou a manta até cobrir o rosto quase por completo, deixando apenas o nariz para fora, já que tentava inspirar o máximo de ar possível para se acalmar. Na quinta vez que encheu os pulmões, sentiu o corpo parar de tremer e a se acalmar. Na verdade, Lisa sabia que não estava calma de fato mas era sua pressão que diminuía com a intensidade da dor. Era como se seu corpo buscasse uma imunização sem depender dos esforços de sua mente. Mesmo com a pressão em queda livre, Lisa sabia que era a única maneira de voltar a dormir por alguns minutos imune de dor. Ou dormir para sempre, como costumava refletir. Era a única opção para se livrar da agonia pulsante. Lisa sabia, entretanto, que sentir dor também significava estar viva e ter mais uma oportunidade de superar o passado. O passado que a assombrava e a alegrava. O sorriso com o gosto salgado das lágrimas. Ela preferia lembrar do sorriso misturado com o sabor da água do mar, em que ela rodopiava em seus braços sem se preocupar com o futuro. Era a felicidade do presente e mais nada. Ela era feliz.

Lisa dormiu por mais uma hora em sono profundo. Nele os dias eram mais claros, com o Sol iluminando todos os caminhos de sua vida. Não havia medo, mas também não havia segurança. Existia uma única certeza: o vento era leve, os passos calmos, e o tempo fluía. O sono já tinha se esgotado e de olhos abertos Lisa esperou que a visão se acostumasse com a escuridão. Observou as rachaduras no teto, a cortina marrom que preenchia toda a extensão da parede e que não permitia a entrada de qualquer facho de luz. Lisa levantou-se enrolada na coberta e foi até o armário escolher alguma roupa quente. Optou por um casaco de lã preto que atingia até o tornozelo e um cachecol branco para proteger o pescoço. Ainda embrulhada com a manta, foi ao banheiro, ligou o chuveiro e começou a se despir. Peça por peça, observou as curvas de seu corpo no espelho, os seios, o quadril, as pernas e lembrou-se de quando seus pelos ficavam eriçados não por conta do frio, mas pelo toque dele, as carícias, a pele da ponta dos dedos que denunciavam as horas dedicadas ao violão, a respiração em sua nuca e os lábios próximos ao pescoço. Lisa abriu os olhos e, um pouco assustada, entrou debaixo do chuveiro, deixou a água quente lavar todas as lembranças com a esperança de recomeçar o dia com ao menos um sorriso.

O café da manhã foi simples. Café com leite, pão com manteiga e fatias de melão. Enquanto se servia, Lisa pegou uma caneta e começou a escrever algumas palavras no guardanapo. A primeira foi “viver”, que para ela tinha o mesmo significado de recomeço já que há tempos deixara de viver e via com desconfiança qualquer possibilidade de começar algo novo. Era uma ideia que a assustava já que não se permitia a esquecer o passado por mais dor que lhe causasse, era essa dor que a mantinha respirando e a fazia levantar da cama todos os dias.

A segunda palavra foi “poema”. Era uma das distrações preferidas de Lisa, além da música. Quando estava prestes a explodir em angústia, Lisa desabafava através da escrita no primeiro papel que encontrava em sua frente. Ela escrevia diversas palavras, algumas até pareciam desconexas no calor do da aflição mas ao fim Lisa percebia que todas juntas formavam uma declaração de saudade em formato de poema. A pressão novamente caía quando terminava uma poesia e a saudade batia ainda mais com mais força já que escrever era uma das atividades dele. Lisa costumava passar as tardes observando-o escrever com uma xícara de café nas mãos. Ela se sentava no sofá, com as pernas cruzadas e adorava observá-lo trabalhando, o hábito de esconder os lábios quando estava focado, a mão direita bagunçando os cabelos sempre que a inspiração fugia. Às vezes ele a chamava para ler um trecho e pedir uma opinião, seja da música, do poema, do conto ou do romance. Lisa gostava do fato de tudo ser compartilhado com ela e admiração por ele crescia cada vez mais. Mas tudo isso ficou no passado.

18:43, March 3rd

A terceira palavra foi “flores”. Os poucos momentos de paz de Lisa aconteciam em meio ao seu jardim ou quando ia para o campo sem destino e se deitava na relva no meio da árvores. Ali, apreciava a brisa que soprava por seu rosto, o ar puro que invadia seus pulmões, o leve toque das flores em sua pele e encontrava ainda mais paz quando o céu estava completamente sem nuvens. Deitada de costas, Lisa olhava para a imensidão azul se perguntando se existia um limite para o céu. Lembrou-se das poucas vezes que visitou o mar e ficou fascinada ao perceber que no horizonte céu e mar se encontravam. Era no meio das flores também que Lisa adorava escrever. Ela levava seu violão, um bloco de notas e uma garrafa térmica com café ou chá e passava longas tardes no meio do vale compondo e criando personagens que se tornavam uma companhia agradável para vida.

Quando colocava mais leite no café e saboreava uma torrada perdida, Lisa escreveu a palavra “amar”. A morena fechou os olhos, abaixou a cabeça e lutou para evitar as lágrimas que insistiam em percorrer o rosto. Como foi difícil para Lisa ceder a paixão. Como foi difícil para ela aceitar que o amava e mais difícil ainda responder às três palavras de amor que ele sempre dizia. Lisa demorou para aceitar. Criou empecilhos, criou dificuldades, problemas, brigas e quando resolveu aceitar viveu os anos mais felizes de sua vida. Lisa queria ter se rendido mais cedo porque mesmo com tantos empecilhos, o sentimento dela ainda era a saudade.

PS: Se você gostou do conto, você pode encontrar os outros três capítulos no Tumblr: marcelobechara.tumblr.com. Mas em breve passarei todos eles para o Storia. 

PS2: Os capítulos da Lisa sempre vêm acompanhado de uma sugestão musical. Espero que goste: 

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