CINEMA

maratoninha Rocky Balboa [1] Rocky, 1976

Marina Teixeira
Author
Marina Teixeira

Eu sou apaixonada pelos filmes do Rocky desde criança - não apenas porque o personagem sempre me acompanhou na minha formação como espectadora, Mas depois que fui lendo mais sobre cinema, entendi perfeitamente o fascínio que até hoje as pessoas tem pelo “Garanhão Italiano”: nós gostamos, torcemos, apreciamos os underdogs. Aqueles marginalizados, cuja chance foi tirada, aqueles que nunca tiveram essa chance, ou que sempre foram tratados como pessoas de segunda classe - Rocky Balboa representa essas pessoas. Representa a todos nós em sua simplicidade, abordagem direta e inocente diante da vida e a força imparável em sua luta. O personagem que definiu os ups and downs da carreira de seu criador e intérprete Sylvester Stallone continua marcando gerações, especialmente agora com o sequel/spinoff/reboot “Creed”, que deu um toque de frescor à franquia e adicionou camadas impensáveis com o filho de Apollo, Adonis.

(ainda vou falar de Creed porque é uma maratona de todos os filmes, mas basta dizer que AMÉM RYAN COOGLER)

Pois bem, começo esta maratona com o filme que começou tudo, “Rocky” (1976) vencedor do Oscar de Melhor Filme (vitória que muita gente não saca até hoje, mas é um filme clássico que fez muito sentido naquela época e ainda faz). Como sou preguiçosa por natureza, vou pegar uma resenha que fiz há alguns anos sobre o filme e dar uma adaptada. ;)  Aliás, essa resenha é bem pedante, ou seja, não sou eu; as próximas serão bem mais divertidas, prometo.;

O“Garanhão Italiano” (acho que o Stallone teve muito senso de humor ao pôr o nome de um filme pornô em que ele participou no início da carreira como sua alcunha na trama), é um boxeador de terceira categoria que trabalha cobrando dívidas a mando de um mafioso e é platonicamente apaixonado pela irmã de seu amigo Paulie (Burt Young), Adrian (Talia Shire), que trabalha numa loja de animais. Um homem fracassado na vida e que nunca teve a chance de mostrar seu valor, recebe a proposta de lutar contra o campeão mundial Apollo Creed (Carl Weathers), num típico confronto-show, em que teoricamente o mais preparado vence facilmente o lutador de bairro. Porém, Rocky percebe que, se ele aguentar 15 rounds contra Apollo, sua vida frustrada daria uma guinada: ele não seria mais o fracasso que pensa – ou que os outros acham que ele é. Ele mostraria o seu valor a todos. 

Mas Rocky Balboa não é o único. O filme desfila uma galeria de pessoas que se sentiram (ou são) desvalorizadas em algum aspecto da vida: além do protagonista, temos Mickey (Burgess Meredith), um treinador de boxeadores que, como lutador, nunca foi mais do que poderia ser; Paulie, talvez o maior embuste do filme, que na tentativa de ajudar a irmã a ter uma vida melhor, esquece o quanto humilhou e desprezou Adrian por ela não ser o tipo de mulher se esperava. Adrian, uma mulher de 30 anos tímida e introvertida (e futuro ícone fashion com os gorrinhos fofos), consegue se libertar da própria insegurança ao conhecer um homem que vê algo nela que ninguém mais viu. E, de certa forma, a chance de Rocky em lutar com Apollo é a chance desses personagens de fazerem as suas vidas valerem a pena de alguma forma. 

maratoninha Rocky Balboa [1] Rocky, 1976

Alguns aspectos interessantes do filme: a música de Bill Conti casa perfeitamente com o filme. “Gonna Fly Now” foi eternizada, e seus primeiros acordes são associados rapidamente ao boxe, mesmo que o espectador nunca tenha acompanhado uma luta. Outro clássico da trilha sonora, uma das melhores que eu ouvi na vida, é “Going The Distance”, perfeita ao ser mixada aos golpes certeiros de Rocky em Apollo em dado momento do filme. A direção de Avildsen é segura. Ele não é exatamente um auteur ou coisa do gênero; é um diretor competente e sensível, principalmente nas cenas em que Adrian vai ao “apertamento” de Rocky, na icônica sequência da corrida e na luta entre Rocky e Apollo, ainda empolgante mesmo tendo visto o filme várias vezes. Além disso, com seus planos abertos, ele torna Philadelphia um personagem - cinzenta, suja e pouco convidativa, representa bem o momento dos personagens, mas ao mesmo tempo tem algo que te atrai nela, que a câmera colabora para que você também a ame.

Outra questão sobre o filme merece um parágrafo à parte: o roteiro, escrito pelo próprio Stallone, e que faz com que sua atuação seja natural. Ao assistir o extra do filme com comentários do próprio ator/roteirista sobre como a produção foi feita (aliás, um exemplo clássico de filme modesto, cujo orçamento foi de U$$ 950.000 – uma mixaria na época), percebi que muitas das minhas considerações sobre o filme iam ao encontro do que ele dizia. A proximidade personagem-ator é óbvia: Stallone estava longe de ser famoso em 1976. Tinha feito poucos filmes, mas não ganhara reconhecimento. O roteiro apresentado aos produtores Irwin Winkler e Robert Chartoff era a oportunidade dele de mostrar o seu valor. E ser o protagonista da história – algo arriscado, já que ele era ninguém na época – era a chance de ouro para sua carreira melhorar. Creio que muito de Rocky, de suas dúvidas, medos e fracassos, era também parte do próprio roteirista. Talvez um Ryan O’Neal ou Redford (que eram as sugestões dos produtores) fariam bem melhor o lutador, com mais possibilidades de interpretação, mas será que eles se sentiriam plenamente identificados com um cara de 30 anos que não conseguiu fazer nada na sua vida que prestasse? Bem, Mike Nichols achou que Redford não convenceria como loser em A Primeira Noite de um Homem, então... Rocky é inspirado num caso real: Chuck Wepner, um lutador sem grife, resistiu a vários rounds numa luta com Muhammad Ali, e chegou a derrubá-lo. Aliás, Apollo Creed tem muito de Ali. O jeito provocador, carismático, meio garganta, talvez o jogo de pernas e algo na sua forma de lutar me fazem lembrar o Ali. Isso me faz pensar: Carl Weathers pode ter feito um Muhammad Ali mais convincente que Will Smith na cinebiografia do próprio… (SHAAADE)

Enfim, “Rocky” talvez não tenha sido o melhor filme daquele ano de ’76, mas é um dos mais marcantes – com toda a certeza. Em alguns aspectos, apesar de não ser da Nova Hollywood (ele me soa mais algo como Hollywood Clássica, com as histórias simples, tocantes e de finais felizes, mesmo que não da forma como se espera e sim da forma que poderíamos ver na vida real), a forma como foi produzida – toque de caixa, atores pouco conhecidos, o cachorro do Stallone faz parte do filme e a primeira mulher dele foi fotógrafa de cena – capta bem o espírito da época. Além disso, o original tem algo de inocente e poderoso em sua construção: sempre temos uma chance para mostrar o nosso valor: seja para alguém que nós amamos, seja para a comunidade em que nós vivemos ou por nós mesmos.

 

maratoninha Rocky Balboa [1] Rocky, 1976