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Marina Teixeira
marina.teixeirahá 2 meses

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"Whitney Houston died of a broken heart"

Marina Teixeira
há 2 meses67 visualizações

Essa frase é a que inicia o doc "Whitney: Can I Be Me", do documentarista britânico Nick Broomfield, disponível desde a madrugada de hoje na Netflix. Conhecido por outros docs ligados à música, como "Biggie & Tupac" e "Nick & Courtney", além de trabalhos com pegada mais política, esse material produzido por ele não foi oficializado pelos Houstons, apesar da presença da mãe de Whitney, Cissy, sendo entrevistada em um dos momentos. 

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(aliás, a família está trabalhando num doc "oficial", dirigido pelo Kevin McDonald)

Compreensível, já que em boa parte do doc, que tem 1h40 de duração, a família é considerada uma das culpadas por sua decadência, e a longo prazo, morte. 

"Whitney Houston died of a broken heart"

O doc usa como ponto central a turnê mundial do álbum "My Love is Your Love", a última turnê bem sucedida da diva, em 1999, quando tudo muda na vida de Whitney. Enquanto vemos imagens inéditas de bastidores, dirigidas por Rudi Dolezal (que tem créditos de co-diretor no documentário), o filme vai e volta cronologicamente, mostrando a história da vida de Nippy, desde sua infância em Newark, New Jersey, o estrelato como diva pop e os elementos que causaram sua profunda dependência química e morte - aliás, diversas razões que explicam bem o motivo desse doc não ser o "oficial" sobre a Whitney.

- Questões raciais: Whitney Houston era uma cantora negra vendida como estrela pop, para consumo de uma América Branca com músicas pop agradáveis de fácil consumo. Moldada como "princesa" pelo embuste Clive Davis, na verdade Nippy não era nada daquilo que vendiam. De acordo com o documentário, ela era "hood", "from ghetto" (e muito mais próxima do Bobby Brown, criado nos projects em Boston, do que o público poderia imaginar), e para não "afugentar as sensibilidades" do público branco que a consumiria (já que, no surgimento de um artista negro de sucesso, a primeira coisa que as pessoas fariam era ir atrás do passado para desqualificá-lo), a ideia era apresentá-la como uma figura "de classe", com uma biografia respeitável - filha de Cissy Houston, cantora gospel, backing vocal de Aretha Franklin; e prima de Dionne Warwick, seu nome tinha peso antes mesmo de estourar.

No entanto, ao ser vendida pela gravadora como uma artista pop, Whitney foi vista como "vendida" pela comunidade negra - tanto que, ao ser vaiada no Soul Train Awards em 1989, aquilo foi considerado um turning point para ela. A comunidade que Whitney sempre valorizou e nunca deixou pra trás parecia tê-la tornado uma pária. Ela tentou fazer algo mais R&B com o álbum "I'm Your Baby Tonight" (1990), contra a vontade de Clive, na busca pelos créditos junto à comunidade negra.

(se você quer saber mais sobre essa treta, vale a pena conferir o filme da Lifetime sobre a Whitney, que apesar de bem irregular e ter uma imagem bizarramente simpática sobre Bobby Brown, mostra um pouco sobre todo esse momento após o Soul Train e a busca da identidade musical da Whitney)

Ou seja, moldada para consumo dos brancos e mal vista pelos negros, Whitney Houston tentou se adequar a essas identidades - uma que era dela, de fato; e outra que foi criada, plástica - mas nunca conseguiu chegar a um denominador comum.

- Família religiosa e conservadora: criada numa família batista, hiper religiosa, Nippy era cantora de igreja junto com a mãe. Extremamente ligada a Deus, acreditava que seu dom foi dado por Ele e sua vida era guiada, de muitas formas, aos ensinamentos da religião. Por isso, manteve o casamento de anos com Bobby Brown, por acreditar que casamento "era pra sempre", e continuou com ele para que a filha Bobbi Kristina tivesse um pai. Essa família, aparentemente, não via com bons olhos a amizade profunda entre Whitney e Robyn Crawford, que sempre estavam juntas em awards e turnês. Robyn era uma presença que equilibrava as loucuras de Whitney, questionava Bobby Brown e tinha profunda afeição e adoração por Whitney. A recíproca era verdadeira, e o doc deixa com uma sutileza quase óbvia que as duas tinham um relacionamento que era mais do que amizade. Há uma dúvida entre se Whitney era lésbica ou bissexual (desconfio de que seja a última opção), e referências leves ao apagamento da discussão sobre homossexualidade feminina entre as mulheres negras. 

Robyn Crawford era uma figura tão importante para Whitney manter a sanidade que durante anos, ela tentou tirá-la das drogas, revelando a extensão de seu vício para a mãe, Cissy, que simplesmente não gostou da intervenção da amiga na vida da filha (ou arrimo de família). Pior: a própria Cissy declarou o incômodo se a filha se assumisse homossexual; ou seja, mesmo que Whitney quisesse assumir uma possível bissexualidade, seria mal recebida pela sociedade, gravadora e pela própria família. 

A saída de Robyn da turnê de "My Love is Your Love", onde era diretora criativa, após diversas brigas com Bobby Brown, foi um ponto fortíssimo que destruiu Whitney. Uma das pessoas em quem ela mais confiava não estaria mais ao seu lado - e nunca mais as duas se viram. Até o próprio embuste (Bobby, no caso), sabia da importância de Robyn na vida da ex-esposa, e declarou isso após a morte de Whitney.

- Família aproveitadora: os Houstons não eram flor que se cheire MESMO. Um dos entrevistados mais importantes do doc é o ex-segurança de Nippy, que após uma turnê fracassada da diva (ainda no auge, nos anos 90), mandou um documento informando que a vida da cantora estava em risco pelo uso de drogas e pediu a demissão dos enablers e rehab urgente. Resultado? O cara foi demitido por fazer seu trabalho - proteger o cliente. Whitney Houston™ era maior que tudo. Não houve rehab, ninguém cuidou de Bobbi Kristina, e o pai de Whitney, John Houston, com quem ela tinha uma relação mais próxima do que a mãe, ainda processou a cantora anos depois, pedindo US$ 100 milhões de dólares (pai do ano, hein).

Quando o núcleo familiar trai Whitney, uma mulher extremamente ligada à família, e não há mais o conforto dos amigos mais próximos (leia-se Robyn), sobra para a diva apenas o rei dos embusteiros...

- Bobby Brown: evidentemente, o doc mostra o bad boy do R&B como ele é (e poderia ter sido mais escroto, mas ele não merece muito a atenção), mas na verdade, é importante ressaltar que o filme explica que Bobby não é o causador direto do fim de Whitney, mas foi um dos catalisadores, porque eles combinavam perfeitamente em tudo. Duas personalidades adictas, que queriam se provar o tempo todo, acabaram juntas e se destruindo na mesma medida. O problema aqui é que Whitney tinha baixa autoestima (o que explica a necessidade de agradar e a identidade fragmentada da artista), e Bobby se aproveitava disso para abusá-la psicologicamente. Ela era realmente apaixonada por ele, e queria estar no mesmo "nível" que Bobby. O jogo de poder entre a diva milionária e bem sucedida e o cantor de R&B decadente one album wonder virava diversas vezes, e podemos responsabilizar (e muito) Bobby por isso. 

Tanto que ele a traía diversas vezes, e após (finalmente) se separarem, ele rapidamente encontrou outra. Isso acabou ainda mais com a autoestima dela, a afundando nas drogas.

- Drogas: O início da vida da Whitney com drogas foi ao lado dos irmãos, ainda em Newark, mas a descida da cantora do uso recreativo para o vício foi após o massivo sucesso de "O Guarda-Costas", justamente com a chegada de Bobbi Kristina. O fato é que tanto as forças externas que a reprimiam (gravadora, família, religião, sociedade) a empurravam para o vício, quanto a crescente impressão durante o filme de que nada a tiraria daquele caminho se não fosse uma intervenção forte, se todo mundo se juntasse pra dizer umas belas verdades e colocá-la numa rehab. Nem a própria filha a tiraria daquilo, Bobbi que nasceu no auge do sucesso com o filme. 

Curiosamente, ao final do doc, eu me senti com muito mais pena de Bobbi Kristina, que tem pouco mas respeitoso espaço dentro do filme. Uma criança que não pediu pra nascer naquela situação, que não foi tirada da loucura dos pais, e visivelmente era carente de amor, nunca teve chance para ser uma criança normal. Nem o nascimento da própria filha fez Whitney acordar para o vício e se livrar tanto de Bobby quanto das drogas. E nem a família teve a decência de tirar a menina daquele ambiente. Porque Whitney Houston™ era mais importante que qualquer coisa. A mina de ouro precisava render, nem que para isso a saúde de seu principal "produto" fosse destruída ou uma criança perdesse a inocência e a sanidade no processo.

No entanto, eu senti que menos de duas horas não foram suficientes para compor todas as complexidades e problemáticas da Whitney. Apesar da sábia escolha de não expor tanto a parte da vida dela relacionada ao vício profundo em drogas, o fim de toda a reputação de "princesa" que a Whitney tinha aconteceu mesmo com a participação dela naquele reality show horrendo "Being Bobby Brown", onde o público viu a diva bem longe do pedestal onde ela foi colocada. Além disso, senti que faltaram um pouquinho mais de insights sobre o contexto da indústria musical e como ela foi um dos elementos mais importantes por um bom tempo e depois ficou datada com o bubblegum pop; e um pouco sobre as barreiras raciais que ela quebrou para as mulheres negras, com seus clipes sendo exibidos na MTV (como o Michael conseguiu para os homens).

Outro aspecto que eu senti MUITA FALTA foi da parte mais musical do processo. Mesmo que as cenas da Whitney cantando na tour e performances em awards compensassem, eu queria acompanhar um pouco sobre as motivações dos álbuns, como foi o processo de produção, mudança de estilo no terceiro álbum, os desafios do comeback, os CDs posteriores... Mais conversas com produtores e compositores, algumas cenas de arquivo dela gravando os CDs no estúdio, a parte mais "artística" mesmo da carreira. Da carreira de atriz, ficou só no "O Guarda-Costas" e olhe lá! Dava pra estender mais um pouquinho, valia a pena tratar desse aspecto, mesmo que a filmografia da Whitney não fosse tão extensa.

Mas no geral, é um documentário bem bacana, que vale a pena, tanto como filme, quanto como biografia, sobre a história de uma das artistas mais importantes da história da música, suas complexidades, tristezas e sucessos, além da busca incansável e interminável por uma felicidade que, se ela teve, foi por pouco tempo.

"Whitney Houston died of a broken heart"

maratoninha Rocky Balboa [2] Rocky II, 1979

Marina Teixeira
há 2 meses25 visualizações
maratoninha Rocky Balboa [2] Rocky II, 1979
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marina.teixeira
Jornalista de formação, social media por profissão e aspirante a digital influencer e blogueirinha pra fazer publipost. Ou não.