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Sobre re-forma, protesto e iconoclasmo

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Sobre re-forma, protesto e iconoclasmo


Embora muito já se tenha dito e escrito sobre o assunto, cuido que não se saberia dizer, ao certo, se o que Lutero pretendia com as 95 teses afixadas na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg era, necessariamente, aquilo que algum tempo depois, convencionaria-se chamar de Reforma (Protestante).

Contudo, o que sei, é que, se num amontoado de qualquer coisa, tentar-se acrescentar algo novo, isto irá, inevitavelmente, afetar toda a estrutura dessa coisa, podendo com isso, na pior das hipóteses, vir a ruir, ou, numa não tão pior assim, mas igualmente ruim, deixar tal coisa defeituosa. (Seria esta ultima situação, o nosso caso?)

Outra coisa que também posso dizer que sei é que, foi Jesus mesmo quem disse, que não é prudente colocar remendo de pano novo em roupas velhas, pois o remendo novo romperia o tecido velho e tornaria ainda maior o buraco na roupa.

Pois bem, dito isto, penso que se a dita "Reforma Protestante" tivesse ocorrido sob o entendimento da boa e velha iconoclastia radical de Moisés que ao descer do monte Horebe viu que, entre os israelitas, (não muito diferente dos nossos dias) estava uma bagaceira só... Ponderemos, então, diante dessas circunstâncias, o seguinte:

O que ele fez? Chamou Arão e propôs alguma espécie de reforma? Não mesmo! A primeira e enérgica atitude que Moisés tomou diante do evidente e escancarado desvio, foi arremessar no chão as "sagradas" tábuas da lei que tinham acabado de sair do forno divino, e que ele trazia todo serelepe achando que o povo ficaria animadinhos com a novidade. Tamanha foi a sua decepção!

Isso mesmo! Ele despedaçou, destruiu em mil pedacinhos os mandamentos cravados nas tábuas de pedra. Repreendeu todo mundo, inclusive Arão, e em seguida destruiu, também, o bezerro de ouro que estes haviam construído para adoração; derreteu o ouro usado na fabricação do ídolo e os fez beber como aplicação disciplinadora pela grave falta cometida.

Em nosso dias, Ele seria rotulado de sacrilégio, herege, louco, desviado... porque, além de destruir o "livro" sagrado da época, infligiu "violência" por meio de uma disciplina dura e hostil. E sabe-se lá mais o que inventariam!

Não houve ali espaço para re-forma. A adoração do bezerro de ouro já era a forte evidência do que representava uma possível re-forma, sendo esta, entendida como aquilo que seu próprio nome mesmo já sugere: uma forma de ré... de voltar atrás, de retrocesso ao paganismo de práticas idolátricas, que a partir daqueles dias não deveria mais caber no entendimento e nem na fé no Deus que, real e maravilhosamente, os havia libertado da escravidão no Egito.

Sobre re-forma, protesto e iconoclasmo

 Sim, este mesmo Deus de quem o apóstolo João diria muito tempo depois nas revelações do apocalipse, quando o ouviu dizer: "Eis que faço novas todas as coisas". Ou seja, dando a entender, por assim dizer, que não há reformas a serem feitas, como se existisse ainda algo a ser negociado, alguma espécie de concessão a ser feita. Não, absolutamente. Mas, sim, a destruição completa do que era antigo, pela substituição rigorosa e absoluta do que é novo.

O próprio evangelho na encarnação do filho de Deus é o testemunho dessa realidade em que a velha Lei de mandamentos, que antes vigorava sob o regime duro que nem pedra, fora substituído pela nova lei suave do coração, que passou a vigorar sob o regime leve do amor. Fazendo, assim, a completa dissolução do velho homem nascido em pecado, e portanto, destinado à morte; e o surgimento do novo homem nascido em Deus por intermédio de seu Espírito para a vida eterna.

Desse mesmo modo, foi que, nem mesmo, pedra sobre pedra restou, que não fosse reduzido a pó, do tão ufanante templo construído sob pretexto de adoração a Deus, mas que trazia desde seus alicerces a vaidade daqueles que o erigiam, não apenas, como simbolo externo de suas pretensões de poder, mas, sobretudo, como ídolo perverso dentro de seus próprios corações gananciosos.

Portanto, nunca houve reformas necessárias a serem feitas (sequer comemoradas), nem nunca haverá. O que sempre se demandou daqueles que foram chamados ao serviço de Deus, foi a iconoclastia total de toda pretensão de arranjos e soluções engenhosa e desonestamente humanas para com aquilo que é de ordem estritamente divino.

Portanto, 500 anos depois das famigeradas 95 teses de Lutero, o que então se caberia comemorar, tendo em vista a sua iniciativa contestadora, e por essa mesma razão, chamada de protestante? 

Ora, creio que, exatamente, o protesto, a denúncia, a voz profética de alguém que clamou contra a (des)ordem, a corrupção e desmandos em nome da fé, num dos momento de maior deserto espiritual histórico já visto, preparando, desse modo, o "caminho do Senhor", ao longo desse mesmo curso histórico, para que as gerações seguintes à sua, pudessem conhecer e receber o mesmo querigma do qual, este foi alcançado e se viu liberto pela verdade de tal revelação.

O protesto é, portanto, a voz do iconoclasta, que grita a iminente queda de todo ídolo que a potestade mundo, sob vários disfarces, ergue sobre a cabeça-altar de todos os homens, pois diz, aquele, no seu grito: “Caiu! Caiu a grande Babilônia;..." Apocalipse 18:2

Por enquanto "Babilônia" (mãe de todas as espécies de ídolos-demônios) ainda resiste de pé. Em contrapartida, há também, um outro, sem número de vozes que ecoam em uníssono, levando adiante, através do séculos vindouros, a palavra-mensagem do evangelho genuíno, sob o mesmo tom de protesto, tal qual foi o de Lutero, ao dizerem com todo vigor e rigor: “Saiam dela, vocês, povo meu..." Apocalipse 18:4

N'Ele que disse ser a única pedra que realmente importa, pois é firme e sobre ela tudo se firma, embora muitos nela ainda tropecem,

Um forte, fraterno e afetuoso abraço.

Originalmente publicado em maxwalteros.blogspot.com.br