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A 'saída do armário' mais cínica e oportunista da história

Yazar
A 'saída do armário' mais cínica e oportunista da história

Imagem: Divulgação/Netflix

Quem trabalha na cobertura e nos bastidores do cinema e da televisão sabe que, mesmo em 2017, muitos famosos que são gays, lésbicas e bissexuais escondem sua sexualidade para "preservar" suas carreiras. Por isso, quando alguém de prestígio resolve sair do armário, a reação da comunidade LGBT é de celebração. Não foi que aconteceu no caso de Kevin Spacey, que decidiu revelar que é gay depois de ter sido acusado de abuso sexual.

Na segunda (29), o ator  Anthony Rapp contou ao Buzzfeed que foi abusado por Spacey quando tinha 14 anos. "Ele me pegou no colo como se fosse uma noiva e me colocou na cama dele. (...) Ficou se esfregando no meu corpo e me apertando com os braços", relatou o ator. Mas não é a primeira vez que o comportamento predatório de Spacey é denunciado. Em 2015, o site americano Gawker publicou uma série de e-mails de pessoas anônimas relatando terem sido assediadas pela estrela de "House of Cards" durante as gravações da série e de outras produções.

Diante das acusações, Kevin Spacey publicou em seu twitter um texto dizendo que ele "honestamente não se lembra" do ocorrido no caso de Rapp. "Se eu me comportei como ele descreve, devo a ele o mais sincero pedido de desculpas pelo que deve ter sido um comportamento inapropriado de um bêbado", diz a declaração, na qual Spacey conta que já teve relações com homens e mulheres, mas decidiu viver agora como um homem gay.

Nos bastidores, já se comenta há anos que Kevin Spacey é bissexual. O ator já teve longos relacionamentos com homens e mulheres, mas talvez porque a bissexualidade ainda é mal vista e erroneamente associada à promiscuidade, até mesmo entre gays e lésbicas, Spacey decidiu se dizer homossexual. A ideia, aparentemente, era levantar uma cortina de fumaça sobre as acusações, conseguir alguma simpatia da comunidade LGBT e, quem sabe, mudar as manchetes de "Kevin Spacey é acusado de assédio" para "Kevin Spacey sai do armário". Mas o tiro saiu pela culatra. 

Além da desculpa do "eu estava bêbado" não colar, essa "saída do armário" foi provavelmente a estratégia de PR mais destrambelhada do ano. Se Spacey tivesse permanecido calado, a acusação teria se juntado ao mar de relatos sobre abuso sexual que surgiram à luz do escândalo de Harvey Weinstein, mas na urgência de controlar a conversa, ele apenas colocou combustível na fogueira. E no meio da confusão, a Netflix anunciou o cancelamento da série "House of Cards", estrelada por Spacey.

Além de usar sua identidade LGBT da maneira mais cínica e perversa possível, Spacey fez o desserviço de associar sua suposta homossexualidade ao abuso sexual de adolescentes, o que é completo absurdo. Isso, associado ao assédio contra Rapp, que ele praticamente admitiu ter cometido, já deveriam ser evidências suficientes para enterrar sua carreira. Tomara que os acontecimentos recentes tenham mudado de vez a regra da impunidade em Hollywood.