REALITY SHOW

Aconteceu mais um abuso sexual em reality show e nós não aguentamos mais

Micheli Nunes
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Micheli Nunes
Aconteceu mais um abuso sexual em reality show e nós não aguentamos mais

Imagem: Reprodução Record

Vendo as imagens transmitidas por pay-per-view não há o que discutir: a TV Record, que exibe o reality show "A Fazenda",  permitiu que uma das participantes fosse abusada sexualmente por um colega diante das câmeras. Monique, que estava embriagada e já havia vomitado, foi colocada na cama por outra participante e estava visivelmente alterada. Dinei, ex-jogador de futebol, deitou-se na cama ao lado da moça, segurou o pescoço dela com um braço, encostou o corpo no dela e ficou se esfregando e passando a mão em seu corpo. Monique disse "não" e tentou desajeitadamente afastar as mãos do participante algumas vezes, mas ele continuou tocando seu corpo sem permissão. O nome disso é estupro, e até onde a gente saiba, é um crime. 

Toda a cena foi transmitida pelo pay-per-view, mas não chegou a ir parar na edição do programa, que ignorou completamente o ocorrido. Porém, não há como esconder ou diminuir o que aconteceu. Vídeos do abuso estão sendo compartilhados em todas as redes sociais, e no dia seguinte Dinei chegou a discutir com Monique e dar um tapa nas nádegas da moça: "Foi por pouco. Na próxima vez, te meto mais cerveja e embebedo você", disse ele.

Monique já havia participado do "Big Brother Brasil", na Globo, e também sofreu abuso na ocasião. Desacordada após uma festa, ela estava deitada na cama quando o modelo Daniel Echaniz começa a tocá-la e aparentemente chega a praticar relações sexuais com seu corpo inerte. Tudo também está registrado em vídeo. Na época, a Globo demorou para se manifestar, mas acabou expulsando o participante, que foi inocentado na justiça. 

Independentemente de quem seja a vítima, do que ela tenha feito ou de como ela se relaciona com o abusador após o ocorrido, é um completo absurdo que coisas assim aconteçam diante de câmeras, na frente de dezenas de pessoas. Se um participante de reality show agride fisicamente o outro ou ameaça fazê-lo, ele é imediatamente expulso, mas homens têm o total aval da produção para tirar vantagem do corpo das participantes mulheres como se não fosse nada de mais. E isso só é discutido e considerado depois que o público revoltado pede uma atitude.

Se assim, com vídeo provando tudo, não acontece nada com os abusadores, não é de se espantar que na vida privada tantas mulheres sejam vítimas de estupro e todo tipo de violência e abuso. A impunidade é quase certa, e a vítima precisa passar pelo inferno para conseguir o mínimo de atenção da justiça. 

A Record deveria ter compreendido o que estava acontecendo na hora, e impedido que Dinei continuasse tocando o corpo de Monique enquanto ela estava incapacitada de dar seu consentimento. A produção deveria ter interferido, do mesmo modo que faria se um participante tivesse dado um soco na cara de outro, ou puxado uma faca. Dinei deveria ter sido expulso imediatamente e uma denúncia deveria ter sido feita junto à polícia.

Nada disso aconteceu. E pior, a Record ainda não se pronunciou sobre o ocorrido e continua ignorando a revolta das pessoas nas redes sociais. Dinei continua na casa, dizendo que deixaria Monique bêbada novamente se pudesse. "Foi pouco", ele disse. Se isso foi pouco, o que acontecerá da próxima vez?  

Enquanto grandes emissoras de TV continuarem permitindo que coisas assim aconteçam, a mensagem que passamos é que os corpos das mulheres são públicos, disponíveis para o usufruto dos homens. Já chega! Alguém precisa interferir. A Record é uma rede de televisão que usufrui de concessão pública. Esse tipo de conteúdo é tóxico e criminoso. Não aguentamos mais.