Coluna: Por que precisamos de feminismo?
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A ditadura da magreza destruiu nossa relação com a comida

Micheli Nunes
há 7 meses351 visualizações
A ditadura da magreza destruiu nossa relação com a comida
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O mundo não foi feito para pessoas gordas e isso é explícito de diversas maneiras. Cadeiras, roleta do ônibus, roupas, poltronas de cinema, poltronas de avião e até elevadores, tudo isso é feito tendo em mente uma pessoa que pesa em média 70kg. Na TV, no cinema, na publicidade, pessoas gordas são gravemente sub-representadas, e quando aparecem geralmente são o motivo da piada. Mas talvez uma das consequências mais sutis e discretas que essa gordofobia institucionalizada nos trouxe é uma relação doentia com a comida. E não só para a pessoas gordas.

Desde criança aprendemos que existem comidas boas e ruins, e que as comidas ruins são boas e as boas são ruins. Entendeu? Não é fácil mesmo. Nos dizem que aquilo que é gostoso faz mal, e o que faz bem tem gosto ruim, mas temos que comer. Isso é estabelecido muito cedo na vida, especialmente para mulheres. Nos ensinam a contar calorias, fazer substituições, cortar grupos alimentares inteiros, fazer jejum intermitente, comer de três em três horas, consumir gorduras boas, não consumir gordura nenhuma, não jantar, jantar sim, comer só coisas integrais, não comer glúten, tomar iogurte, não comer derivados de leite, levar snacks pro trabalho, comer castanhas (mas só três), anotar tudo o que comemos, colocar num app, light, diet, zero calorias, zero açúcar... SOCORRO!

A ditadura da magreza destruiu nossa relação com a comida

Fiz a minha primeira dieta aos 8 anos. Passei os próximos 20 lidando com distúrbios alimentares intermitentes e um constante estado de "estou de dieta" ou "estou quebrando a dieta". Todas - eu repito, TODAS - as mulheres que eu conheço passaram pelo menos um terço da vida preocupadas com isso. E muitas delas ainda estão preocupadas com isso. É muito frequente ver mulheres se desculpando por comer. "Nossa, que gordice, né?". "Eu tô estressada, mereço esse chocolate". "Vou comer essa sobremesa, mas vou passar o resto da semana só na salada". Uma comida é a vilã, a outra a redentora. Uma é o pecado, a outra o perdão. Uma te seduz, a outra te redime.

Isso é traço de uma relação extremamente doentia com a comida. Em vez de celebrarmos o que alimenta o nosso corpo e nos mantém vivos, nós embarcamos em um jogo psicológico. Por livre e espontânea vontade, nós nos prendemos a um regime ditatorial, que nos mantém com medo, ansiosas e preocupadas. Isso ocupa nossa mente, nos mantém submissas, estraga nossos instintos e não nos permite ouvir nosso corpo. Não sabemos mais se estamos com fome, com sede, ansiosas, excitadas, deprimidas, com desejo... e deveríamos saber! Deveria ser instintivo! 

A ditadura da magreza destruiu nossa relação com a comida

É uma lavagem cerebral que nos mantém reféns de um mercado multimilionário de dietas, tratamentos estéticos e produtos nichados, desenhados para nos escravizar num circulo vicioso de falhas. Preferimos comer uma  barra de cereal com gosto de serragem e tristeza, que custa o seu peso em ouro e tem mais calorias que um bombom, do que comer um bombom e aproveitar. E provavelmente a insatisfação vai nos levar a comer o bombom eventualmente, e mergulhar na culpa e na autopiedade.

Não estou dizendo que precisamos chutar o balde e comer sem critério. Estou dizendo que perdemos a capacidade de perceber nossos limites. Estamos nos empanturrando com biscoitos industrializados sem açúcar, saladas hermeticamente fechadas e com gosto de nada, frutas cristalizadas que custam nove vezes mais do que deveriam. E estamos controlando isso com aplicativos, caderninhos, notas do cárcere. E isso tudo só nos deixa ainda mais ansiosos.

Que tal cultivarmos uma relação mais saudável com a comida? Menos coisas sem gosto "para gente magra", menos dietas absurdas, menos horários marcados no alarme, menos apps. Vamos comer comida de verdade, fresca, barata, feita por um ser humano. Vamos comer quando tivermos fome, e parar quando a fome acabar. Vamos comer o que gostamos, aprender a apreciar o sabor dos alimentos. Vamos aprender a ouvir o nosso corpo e não demonizar grupos alimentícios inteiros. Vamos comer um fastfood ou chocolate quando der vontade sem achar que somos um fracasso e sem fazer trocas absurdas e injustas, que incluem períodos de fome e desnutrição. 

Chega de entrar em batalhas perdidas E isso não tem nada a ver com dieta ou emagrecimento. Tem a ver com libertação.

Lana de Holanda mostra que o ativismo na Globo é importante sim

Micheli Nunes
há 7 meses273 visualizações
Lana de Holanda mostra que o ativismo na Globo é importante sim
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A temática feminista e LGBT está cada vez mais presente nas mídia mainstream, o que tem gerado uma divisão nos movimentos ativistas. É verdade que quando levamos esses assuntos para veículos tradicionalmente conservadores, as informações acabam adquirindo ruído. Entendo as críticas das pessoas que se opõem, principalmente no que diz respeito à visibilidade, pois muitas vezes esses veículos falam sobre pessoas sem dar a elas o protagonismo das suas histórias. E quando trazem essas pessoas para a TV, geralmente escolhem as mais "aceitáveis" para o público geral, ou seja, menos polêmicas ou transgressoras, dando a impressão de que todo o movimento é assim.

Mas com cada vez mais informação sendo compartilhada de maneira independente na internet, esse ruído tem diminuído. E temas como feminismo e transexualidade acabam sendo mostrados  na TV com alguns problemas, mas de maneira positiva no saldo final. Uma prova disso é o enorme impacto que esses programas e reportagens têm na vida das pessoas que vivem aquela realidade. Já falei disso no post sobre o feminismo do Amor & Sexo e revisito o tema para compartilhar a experiência da Lana de Holanda. 

Lana é uma jornalista e ativista trans do Rio de Janeiro. Depois de um episódio da reportagem especial do fantástico sobre pessoas transgênero, ela passou por duas experiências poderosíssimas, que relatou em sua página do Facebook. A primeira foi em um Subway, quando um dos atendentes se referiu a ela com o pronome masculino e logo foi corrigido por uma colega: "É senhora, seu burro! Não viu o Fantástico não?". Leia o relato completo abaixo:

A outra experiência de Lana é ainda mais emocionante. Ela relata que sua mãe, com quem não falava há um ano por não aceitar a transição da filha, está assistindo ao especial e agora entende melhor o que a filha vive e aceita. Leia também o post completo:

 

É por isso que mesmo usando alguns termos errados e transmitindo alguns conceitos ultrapassados, o especial do fantástico é vitorioso na missão de humanizar pessoas trans e alcançar pessoas que o ativismo online não alcança. E esse trunfo não tem preço.

Aviso: O feminismo em que eu acredito inclui mulheres trans. Estou ciente de que outras vertentes não dividem os mesmos princípios, mas todo o conteúdo que você vai encontrar nos meus textos tem a intenção de ser inclusivo e interseccional. 

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.