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Aconteceu mais um abuso sexual em reality show e nós não aguentamos mais

Micheli Nunes
há 25 dias957.2k visualizações
Aconteceu mais um abuso sexual em reality show e nós não aguentamos mais
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Imagem: Reprodução Record

Vendo as imagens transmitidas por pay-per-view não há o que discutir: a TV Record, que exibe o reality show "A Fazenda",  permitiu que uma das participantes fosse abusada sexualmente por um colega diante das câmeras. Monique, que estava embriagada e já havia vomitado, foi colocada na cama por outra participante e estava visivelmente alterada. Dinei, ex-jogador de futebol, deitou-se na cama ao lado da moça, segurou o pescoço dela com um braço, encostou o corpo no dela e ficou se esfregando e passando a mão em seu corpo. Monique disse "não" e tentou desajeitadamente afastar as mãos do participante algumas vezes, mas ele continuou tocando seu corpo sem permissão. O nome disso é estupro, e até onde a gente saiba, é um crime. 

Toda a cena foi transmitida pelo pay-per-view, mas não chegou a ir parar na edição do programa, que ignorou completamente o ocorrido. Porém, não há como esconder ou diminuir o que aconteceu. Vídeos do abuso estão sendo compartilhados em todas as redes sociais, e no dia seguinte Dinei chegou a discutir com Monique e dar um tapa nas nádegas da moça: "Foi por pouco. Na próxima vez, te meto mais cerveja e embebedo você", disse ele.

Monique já havia participado do "Big Brother Brasil", na Globo, e também sofreu abuso na ocasião. Desacordada após uma festa, ela estava deitada na cama quando o modelo Daniel Echaniz começa a tocá-la e aparentemente chega a praticar relações sexuais com seu corpo inerte. Tudo também está registrado em vídeo. Na época, a Globo demorou para se manifestar, mas acabou expulsando o participante, que foi inocentado na justiça. 

Independentemente de quem seja a vítima, do que ela tenha feito ou de como ela se relaciona com o abusador após o ocorrido, é um completo absurdo que coisas assim aconteçam diante de câmeras, na frente de dezenas de pessoas. Se um participante de reality show agride fisicamente o outro ou ameaça fazê-lo, ele é imediatamente expulso, mas homens têm o total aval da produção para tirar vantagem do corpo das participantes mulheres como se não fosse nada de mais. E isso só é discutido e considerado depois que o público revoltado pede uma atitude.

Se assim, com vídeo provando tudo, não acontece nada com os abusadores, não é de se espantar que na vida privada tantas mulheres sejam vítimas de estupro e todo tipo de violência e abuso. A impunidade é quase certa, e a vítima precisa passar pelo inferno para conseguir o mínimo de atenção da justiça. 

A Record deveria ter compreendido o que estava acontecendo na hora, e impedido que Dinei continuasse tocando o corpo de Monique enquanto ela estava incapacitada de dar seu consentimento. A produção deveria ter interferido, do mesmo modo que faria se um participante tivesse dado um soco na cara de outro, ou puxado uma faca. Dinei deveria ter sido expulso imediatamente e uma denúncia deveria ter sido feita junto à polícia.

Nada disso aconteceu. E pior, a Record ainda não se pronunciou sobre o ocorrido e continua ignorando a revolta das pessoas nas redes sociais. Dinei continua na casa, dizendo que deixaria Monique bêbada novamente se pudesse. "Foi pouco", ele disse. Se isso foi pouco, o que acontecerá da próxima vez?  

Enquanto grandes emissoras de TV continuarem permitindo que coisas assim aconteçam, a mensagem que passamos é que os corpos das mulheres são públicos, disponíveis para o usufruto dos homens. Já chega! Alguém precisa interferir. A Record é uma rede de televisão que usufrui de concessão pública. Esse tipo de conteúdo é tóxico e criminoso. Não aguentamos mais.

Brazilian Crime Story: Farah Jorge Farah teve o fim cinematográfico que queria

Micheli Nunes
há um mês533.0k visualizações
Brazilian Crime Story: Farah Jorge Farah teve o fim cinematográfico que queria
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Imagem: Suamy Beydoun

Luz baixa, música fúnebre e um corpo ensanguentado na cama. Foi este cenário que os policiais encontraram ao arrombar a casa do ex-médico Farah Jorge Farah para executar a ordem de prisão pelo crime cometido em 2003. Farah estava vestido com roupas femininas, e segundo o relato do delegado Osvaldo Nico Gonçalves, tinha colocado "seios".

Por ter um nome atípico e pelo absurdo de seu crime, Farah ficou famoso em 2003 quando descobriram que ele havia dopado, matado, arrancado a pele e esquartejado a ex-namorada. Na época ele se internou em uma clínica psiquiatra e confessou o crime. Ficou algumas semanas preso, mas conseguiu responder em liberdade com o argumento ridículo de que havia sido legítima defesa.

Brazilian Crime Story: Farah Jorge Farah teve o fim cinematográfico que queria

Ele foi condenado em 2008 mas conseguiu um habeas corpus. No total foram nada menos que 14 anos "respondendo em liberdade". Farah foi impedido de exercer a medicina (o que é o mínimo esperado) e decidiu estudar gerontologia na USP e direito na UNIP. Não deve existir nenhum outro exemplo melhor de privilégio de homem branco do que este: matou a mulher e foi à faculdade. 

Em uma entrevista ao G1, em 2010, reclamou que estava solitário. "Tem gente que nunca conversa comigo, não vai com a minha cara e não admite que eu faça faculdade", disse na ocasião. "Infelizmente as pessoas sobem em um pedestal". ELE MATOU E ESQUARTEJOU A NAMORADA. Não é como se sofresse bullying por ser feio.

Quase uma década e meia depois do crime, Farah finalmente foi condenado à prisão, mas decidiu que não era o que ele queria. Planejou o suicídio como quem escreve um roteiro ruim de uma peça de teatro amador. Vestiu roupas de mulher, colocou seios de mentira, ligou uma música fúnebre e cortou uma veia na perna. Um fim bizarro para uma vida bizarra.

Em tempos de "cura gay", é importante lembrar que colocar roupas femininas não significa que Farah fosse gay ou trans. O que sabemos de verdade é que Farah era um homem perturbado, que matou a ex-namorada de maneira hedionda e nunca cumpriu pena por isso. 

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.