Coluna -Por que precisamos de feminismo?
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Anita Sarkeesian e a misoginia online no level HARD

Micheli Nunes
há 3 meses7.6k visualizações
Anita Sarkeesian e a misoginia online no level HARD
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Se você é uma mulher na internet, especialmente se fala abertamente sobre feminismo , já deve ter sofrido ataques machistas e misóginos. Infelizmente é uma coisa comum. Porém, o nível de misoginia com o qual Anita Sarkeesian convive diariamente não tem precedentes. De difamação pública a ameaças de estupro e morte (dirigida a elas e a pessoas relacionadas a ela), Anita já experimentou de tudo. Porém, nas últimas semanas, ela tem recebido outro tipo de ataque. Depois de um episódio tenso na Vidcon, Anita está sendo acusada de assédio, ironicamente, por um de seus mais antigos assediadores. 

Anita é uma jornalista canadense especializada em cultura e criadora do site Feminist Frequency, que tinha o objetivo de tornar o feminismo acessível às novas gerações com um recorte de cultura pop. Do site surgiu o canal no YouTube e Anita ficou famosa, rodando os EUA e o Canada, dando palestras em eventos e universidades. Mas quanto mais espaço Anita conquistava, mais haters ganhava de brinde, e quando começou a falar especificamente de videogames em seus vídeos, começou a enfrentar o que há de pior no machismo dentro da cultura nerd.

Assim que Anita lançou a série de vídeos Tropes vs Women in Videogames, que arrecadou mais de 150 mil dólares online, alguns fóruns começaram uma campanha de assédio contra ela, que envolvia ataques em redes sociais com ameaças de estupro e morte. Eles se juntavam em grandes grupos e reportavam seu canal do Youtube, derrubavam seu site, vandalizavam sua página na Wikipédia, e chegaram a hackear seu e-mail e a tornar públicas informações como seu endereço pessoal e documentos. Também foi lançado um game que permitia ao jogador "bater" no rosto de Anita até ela ficar deformada, enquanto soltava gemidos.

Anita Sarkeesian e a misoginia online no level HARD

Mas não são só anônimos que atacam Anita. O YouTube é lotado de vídeos de pessoas que discordam dela, todos com milhares de visualizações e likes. E muitos deles não se acanham em desmerecer o trabalho de Anita por ela ser mulher, criticando sua aparência física e afirmando que ela está apenas em busca de fama. Na verdade, muitos youtubers ampliaram, e muito, sua base de fãs apenas criticando Anita e outros "social justice warriors" (SWJs), construindo uma carreira baseada em alimentar trolls.

Em 2014, um movimento batizado de "Gamergate" começou a reunir a comunidade dos gamers para, em teoria, pedir mais "isenção" da imprensa na cobertura de games. Segundo alguns de seus membros, a imprensa estava sendo "manipulada" por pessoas como Anita, e isso estaria prejudicando o mercado dos jogos. Só na prática não era bem assim. E a coisa escalou de uma maneira tão absurda, que uma ameaça de bomba obrigou a Universidade Estadual de Utah a cancelar uma palestra de Anita. Outros eventos dos quais ela participaria também receberam ameaças de bombas e de tiroteios em massa, e Anita precisou se afastar de sua casa e andar escoltada por policiais por meses sempre que aparecia em público.

Com esse histórico, este ano a VidCon - evento que reune youtubers e produtores de conteúdo do mundo todo - convidou Anita para participar de um painel chamado "Women Online", em junho. A ideia era discutir sobre o espaço das mulheres na internet e as agressões verbais que elas sofrem, mas quando Anita entrou no palco, um youtuber chamado Carl Benjamin, conhecido online como Sargon of Akkad, estava na primeira fila, junto com um grupo de homens autointitulados de "shitlords", cuja missão é "combater os SJWs". Juntos, eles lotaram as três primeiras filas, de braços cruzados, apontando câmeras para a jornalista.

Anita Sarkeesian e a misoginia online no level HARD


Sargon é um dos youtubers que conseguiu uma legião de fãs atacando Anita online, tuitando ódio contra minorias e fazendo vídeos agressivos contra SJWs. E eu estou falando de todo tipo de baixaria e absurdos, como dizer que Islamismo é um câncer e que o feminismo é fascista, fazer comentários sexuais inapropriados sobre mulheres e chamar Anita de "vadia burra". Hoje ele ganha 5 mil dólares por mês pelo Patreon, patrocinado por seus "fãs", para produzir esse tipo de material.

Falando muito diretamente, a presença de Sargon e se seus amigos no painel tem um nome: intimidação. Seu objetivo ali era mostrar que aquele não era um espaço seguro para ela. Foi o equivalente humano a mijar no chão para demarcar território. E levando em conta que Anita recebe ameaças de espancamento, estupro e morte diariamente, aquelas duas filas de homens poderiam significar que a integridade física dela estava em risco. 

Mas Anita não se intimidou. Entrou, sentou e começou a participar do painel. E quando a moderadora perguntou "por que ainda precisamos falar de assédio contra mulheres?", Anita respondeu: "Porque um dos meus maiores assediadores está sentado na primeira fila", afirmou ela, recebendo palmas. "Se você olhar meu nome no google vai aparecer cabeças-de-merda como esse cara, que faz vídeos idiotas, dizendo a mesma coisa de novo e de novo", continuou ela, que dirigiu-se em seguida a Sargon: "Eu odeio lhe dar atenção, porque você é um lixo humano".

Mas é claro que não demorou para que o comentário de Anita fosse usado contra ela. Defensores de Sargon argumentaram que, ao chamá-lo de lixo humano, Anita estaria "humilhando" e "assediando" o youtuber. E como seu ganha-pão é a publicidade que consegue desses embates, Carl imediatamente mudou seu nome no Twitter para "Human Garbage" e passou a reclamar que era uma vítima, pedindo "empatia". No mesmo dia ele publicou um vídeo no qual reclama que Anita não aceita "debater" com ele, e que sua presença no painel, junto com suas dezenas de seguidores, era para dar "uma chance" para o debate.

Anita Sarkeesian e a misoginia online no level HARD


Com esse contexto, afirmar que as palavras de Anita seriam assédio é no mínimo desonestidade intelectual. Uma frase, largamente atribuída a Malcolm X, se encaixa perfeitamente à situação: não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor. Há anos Anita atura as palavras misóginas de Carl contra ela, e os ataques incessantes de seus seguidores. Dizer que a atitude dela é condenável é gaslighting, uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas e seletivamente omitidas para favorecer o abusador, com a intenção de fazer a vítima, ou as pessoas ao redor, duvidarem da sua percepção e sanidade dela.

E isso pode não ter funcionado com Anita, mas é uma tática surpreendentemente eficiente. Ninguém quer ser a próxima Anita. Ninguém quer viver recebendo ondas de ódio por todos os lados, todos os dias junto com ameaças de morte e estupro. O atenuante é que o trabalho dela tem rendido frutos, novos games com mais inclusão e personagens femininas bem construídas, como Overwatch, estão ganhando o mercado, e empresas, como a Intel, estão investindo pesado em diversidade. A conversa está evoluindo, e os haters logo serão só barulho ao fundo.

Depois de anos 'amordaçada', Kesha lança um single de arrepiar

Micheli Nunes
há 3 meses6.6k visualizações
Depois de anos 'amordaçada', Kesha lança um single de arrepiar
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A música Praying já seria por si só uma mensagem poderosa, mas levando em consideração o cenário, fica ainda mais avassaladora. O single, lançado hoje no Youtube, é o primeiro lançamento original de Kesha desde o álbum Warrior, de 2012, e a primeira música depois da longa batalha judicial para se livrar das amarras com o produtor Dr. Luke (Lukasz Gottwald), que a cantora denunciou por abuso sexual e assédio moral, em 2014. Mas apesar do retorno da cantora ser motivo de comemoração, é bom ressaltar que ela ainda está presa contratualmente à Kemosabe, gravadora de Luke, e que ele vai lucrar com o single e com o novo álbum de Kesha, que será lançado em agosto.

A faixa começa com um desabafo em que Kesha questiona a existência de Deus e diz que foi abandonada: "Por favor, me deixe morrer, estar viva dói demais". A música segue com um reclado claro para Luke. "Você quase me enganou, disse que eu não era ninguém sem você. Mas depois de tudo o que você me fez, tenhoq ue agradecer por quão forte eu me tornei". 

Com uma vibe meio Sia, a canção ressalta a evolução pessoal de Kesha e o reencontro de sua força interior: "Estou orgulhosa de quem eu sou. E voc6e disse que eu estava acabada... bem... você estava errado e o melhor ainda está por vir! Porque eu consigo sozinha. Eu não preciso de você, encontrei uma força que eu nunca tive. Eu fui despedaçada e fui queimada, mas quando eu terminar, eles não vão nem saber o seu nome". E o ponto mais tocante do vídeo é no minuto 4:20, quando Kesha solta a voz em um desabafo dolorido e sincero, como quem expurga seus demônios. De arrepiar.

ENTENDA O CASO

Kesha assinou com Dr Luke quando tinha 18 anos, e mesmo antes de todo o escândalo vir à tona, já tinha dado a entender que ele controlava todos os passos de sua carreira, negando a ela o controle criativo da própria carreira. Em janeiro de 2014, Kesha foi internada em uma clínica de reabilitação para tratar de distúrbios alimentares. Em declarações públicas, amigos e familiares culparam o produtor pelos problemas psicológicos dela. Segundo eles, Luke fazia criticas pesadas sobre a aparência de Kesha constantemente, exigindo que ela emagrecesse. Com sua auto-estima abalada, a cantora desenvolveu bulimia e anorexia.

Em outubro do mesmo ano, Kesha entrou com um processo para terminar o contrato com o produtor, que Kesha revelou ter abusado sexualmente dela desde os 18 anos, além de ter praticado abuso psicológico e assédio moral. Por causa dos contratos absurdos da indústria musical americana, Luke detinha todos os direitos sobre a carreira da cantora, inclusive sobre sua voz. Ou seja, sem ele Kesha não poderia lançar novas músicas ou mesmo se apresentar em público.

Em fevereiro de 2016, depois de meses em litígio, a Suprema Corte de Nova York deu a vitória para o produtor. Apesar da acusação de abuso sexual, o juiz responsável pelo caso considerou que a quebra de contrato era infundada e sem embasamento. Kesha só conseguiu o direito de trabalhar com outro produtor dentro do selo de Luke a Kemosabe Records. Ou seja, ainda mantendo o contrato e dando uma enorme porcentagem do lucro para ele. E pior, se Kesha se recusasse a gravar novas músicas, poderia ter que pagar uma multa enorme para Luke. 

Depois de anos 'amordaçada', Kesha lança um single de arrepiar

A cena da cantora soluçando no tribunal, enquanto um juiz a prendia fatalmente ao seu abusador, viralizou nas redes sociais. Fãs indignados foram em defesa da cantora com a campanha #FreeKesha, que subiu para os trending topics. Famosas como Lily Allen, Adele, Halsey, Kelly Clarkson, Ariana Grande, Kerli, JoJo, Lorde, Iggy Azalea, Demi Lovato e Lady Gaga demosntraram seu apoio à Kesha. Taylor Swift doou 250 mil dólares para ajudar Kesha durante o processo, já que os bens da cantora estavam congelados.

Depois das manifestações de cantoras famosas, a gravadora Sony anunciou a demissão de Luke e o desligamento da Kemosabe, que além de Kesha não tem quase nenhum outro nome relevante. Mas a Sony afirmou que não tinha poder para interferir no contrato dele com a cantora. Kesha poderia gravar com outros produtores dentro da Sony, mas somente com o aval e aprovação de Luke. Em agosto de 2016, de acordo com tablóides americanos, Luke teria proposto que liberaria Kesha do contrato se ela se desculpasse publicamente pelas acusações de estupro. Kesha se negou a pedir desculpas, mas retirou as queixas de abuso sexual, alegando que todo o processo estava sendo muito pesado, e que ela queria apenas se sentir feliz de novo.

No Coachella de 2016, Kesha performou em público pela primeira vez desde a abertura do processo, cantando a música True Colors, junto com o cantor Zedd. No mesmo ano, Kesha cantou It Ain't Me Babe, de Bob Dylan, no Billboard Music Award. Com uma turnê montada com covers e versões alteradas de suas músicas, Kesha entrou em turnê em 2016, ainda sem poder cantar canções originais ou as que lançou anteriormente. A cantora declarou que teria escrito dúzias de músicas e enviado para a aprovação da gravadora de Luke.

Ontem, Kesha publicou um vídeo anunciando que Praying seria lançada hoje, junto com o clipe, que já conta com meio milhão de visualizações em apenas algumas horas. O álbum Rainbow foi anunciado para o dia 11 de agosto e terá 14 faixas. O lançamento será pela RCA Records, selo da Sony, junto com a Kemosabe, a gravadora de Dr Luke. Ou seja, mesmo sendo uma mensagem direta para ele, o produtor ainda vai lucrar com o álbum.

Veja o clipe aqui:

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.