Coluna: Por que precisamos de feminismo?
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Big Little Lies e a importância da amizade entre as mulheres

Micheli Nunes
há 6 meses1.0k visualizações

Hoje eu sou feminista e tenho um monte de mulheres maravilhosas na minha vida, mas na adolescência eu quase não tinha amigas. Eu repetia sem questionar aquele velho clichê do "sou diferente das outras, não tenho amigas mulheres, prefiro a companhia de homens", e me sentia SUPER especial. Parte disso era porque na minha mente eu era única mulher que não gostava de "coisas de mulherzinha", tudo porque eu não usava salto alto e curtia uns rocks, a clássica DIFERENTONA. E parte porque eu realmente não fazia muitas amizades e era mais fácil achar uma resposta que me tornasse "interessante". Só fui descobrir a força e a importância da amizade feminina depois de adulta. E é por isso que séries como Big Little Lies são importantíssimas.

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Big Little Lies e a importância da amizade entre as mulheres

A trama, inspirada em um livro com o mesmo título, fala de um assassinado que acontece em um bairro de classe alta em Monterey, na California. Não sabemos quem morreu ou quem é o assassino, mas ao mesmo tempo em que acompanhamos a investigação policial, a história que culminou no crime vai sendo revelada em flashbacks. As personagens principais são mulheres, que por causa de um problema com seus filhos na escola, acabam divididas em dois grupos que se odeiam. Os depoimentos à polícia são cheios de machismo, com as testemunhas dizendo que mulheres são histéricas e falsas, mas à medida que a história evolui e vamos conhecendo as personagens, percebemos que não é bem assim. 

Apesar de todo o brilhantismo da trama e das atuações impecáveis (com destaque pra Nicole Kidman), o que mais me conquistou em Big Little Lies foi a sutileza como ela evidencia que a famosa "rivalidade entre mulheres" é uma falácia. Sem grandes discursos feministas, a trama consegue passar mensagens poderosíssimas no modo "incógnito". A série mostra que temas como estupro, violência doméstica e dilemas na criação dos filhos são mais fáceis de superar quando contamos com a ajuda de outras mulheres. Algumas cenas de cumplicidade e amizade entre as personagens são de arrepiar. 

Como quem não quer nada, Big Little Lies se tornou um enorme respiro no meio de uma cultura que quer que a gente acredite que somos inimigas naturais. E essa crença não é imposta por acaso. Mulheres desunidas são menos fortes. Se nos odiarmos, não vamos compartilhar experiências, desejos e sofrimentos. Se competirmos entre nós, não teremos ninguém pra dividir a barra de ser mulher em um mundo machista. Se não confiarmos umas nas outras, não vamos verbalizar o sexismo que encontramos todos os dias com uma pessoa que passa pelo menos. É só dar olhar ao redor que vamos encontrar um monte de mulheres sinceras procurando amizades verdadeiras. Vamos nos dar essa chance. <3

#EuViviUmRelacionamentoAbusivo

Micheli Nunes
há 6 meses2.4k visualizações
#EuViviUmRelacionamentoAbusivo
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Eu, assim como MUITAS, MUITAS, MUITAS mulheres da minha timeline, vivi um relacionamento abusivo. Ele era um pouco mais velho, inteligente, engraçado, descolado, se dizia feminista, me mostrava bandas e filmes, me elogiava, fazia com que eu me sentisse especial. Começou a flertar comigo enquanto ainda tinha namorada, mas não me contou nada. Um dia disse que terminou com ela. Eu acreditei. Desenvolvemos um relacionamento que ele nunca chamou de namoro, mas cobrava de mim uma "conduta" de namorada.

Ele nunca me bateu, mas me controlava em praticamente todos os aspectos, tudo com chantagem emocional. Se eu era "boa", ele era um amor, se eu "saísse da linha", ele era outra pessoa completamente diferente. Ele vigiava meu orkut e se visse algum depoimento ou scrap de outro homem, ficava dias sem falar comigo. Do nada. Um dia era extremamente afetuoso, no outro desaparecia. Não ligava, não respondia e-mail, não atendia o telefone, não via sms, não ficava online no msn. Quando um colega de classe tentou me beijar, ele ficou meses sem falar comigo. 

Depois de um tempo ele reaparecia, mas era frio. Mal falava comigo. Era grosso. Se eu questionava ele se fazia de desentendido, dizia que eu estava "inventando coisas". O famoso gaslighting. Quando se cansava da minha insistência, ele dizia: "se você não sabe o que você fez, não sou eu que vou dizer". E daí eu apagava todos os scraps, deletava amigos homens do orkut, mudava minha foto. Pedia desculpas por tudo, tentava justificar qualquer coisa. Ele mal reagia. 

Quando achava que eu já havia sido castigada o suficiente, ele voltava a ser fofo. Dizia que a internet era cheia de homens mais velhos que não prestavam, que se preocupava comigo. Dizia que teve "uma experiência horrível com a ex-namorada louca" e por isso era "cauteloso". Dizia que me amava "mais que tudo no mundo", que tinha feito uma playlist pensando em mim. Me mandava oito, nove, dez e-mails por dia, me dava presentes, escrevia cartas enormes. Dizia que eu era diferente das outras meninas, que eu era especial, que íamos envelhecer juntos.

Ele nunca saía comigo em público, preferia ficar em casa. Estava sempre cansado demais pra ir ao cinema. Quando eu não quis fazer sexo, ele insistiu, me puxou pelo braço, me prendeu com o peso do corpo dele. Insistiu. Insistiu. Insistiu. Eu odiei, mas fingi que gostei. Um dia desconfiei que ele ainda estava namorando a suposta ex. Questionei. "De onde veio toda essa cobrança? Estamos casados e eu não sabia?". Eu virei a louca, que não deixava ele em paz, que mandava mensagens demais, que atrapalhava o trabalho dele. 

Depois que eu terminei, fiquei completamente destruída. Levei mais de um ano pra enxergar os abusos. Eu? Feminista, independente, corajosa, de temperamento forte e sem filtros na língua? Eu jamais ficaria num relacionamento abusivo por seis anos. A verdade foi difícil de engolir. Levei mais uns três anos pra jogar tudo que ele tinha me dado fora. E-mails, cartas, desenhos, mensagens. Foi um exorcismo. Ainda sinto agonia quando vejo alguém com a silhueta dele na rua, ou com o mesmo nome. Nunca mais fui a mesma. Mas nunca mais nenhum homem abusou de mim.

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.