Coluna: Por que precisamos de feminismo?
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Brazilian Crime Story: Farah Jorge Farah teve o fim cinematográfico que queria

Micheli Nunes
há um mês533.7k visualizações
Brazilian Crime Story: Farah Jorge Farah teve o fim cinematográfico que queria
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Imagem: Suamy Beydoun

Luz baixa, música fúnebre e um corpo ensanguentado na cama. Foi este cenário que os policiais encontraram ao arrombar a casa do ex-médico Farah Jorge Farah para executar a ordem de prisão pelo crime cometido em 2003. Farah estava vestido com roupas femininas, e segundo o relato do delegado Osvaldo Nico Gonçalves, tinha colocado "seios".

Por ter um nome atípico e pelo absurdo de seu crime, Farah ficou famoso em 2003 quando descobriram que ele havia dopado, matado, arrancado a pele e esquartejado a ex-namorada. Na época ele se internou em uma clínica psiquiatra e confessou o crime. Ficou algumas semanas preso, mas conseguiu responder em liberdade com o argumento ridículo de que havia sido legítima defesa.

Brazilian Crime Story: Farah Jorge Farah teve o fim cinematográfico que queria

Ele foi condenado em 2008 mas conseguiu um habeas corpus. No total foram nada menos que 14 anos "respondendo em liberdade". Farah foi impedido de exercer a medicina (o que é o mínimo esperado) e decidiu estudar gerontologia na USP e direito na UNIP. Não deve existir nenhum outro exemplo melhor de privilégio de homem branco do que este: matou a mulher e foi à faculdade. 

Em uma entrevista ao G1, em 2010, reclamou que estava solitário. "Tem gente que nunca conversa comigo, não vai com a minha cara e não admite que eu faça faculdade", disse na ocasião. "Infelizmente as pessoas sobem em um pedestal". ELE MATOU E ESQUARTEJOU A NAMORADA. Não é como se sofresse bullying por ser feio.

Quase uma década e meia depois do crime, Farah finalmente foi condenado à prisão, mas decidiu que não era o que ele queria. Planejou o suicídio como quem escreve um roteiro ruim de uma peça de teatro amador. Vestiu roupas de mulher, colocou seios de mentira, ligou uma música fúnebre e cortou uma veia na perna. Um fim bizarro para uma vida bizarra.

Em tempos de "cura gay", é importante lembrar que colocar roupas femininas não significa que Farah fosse gay ou trans. O que sabemos de verdade é que Farah era um homem perturbado, que matou a ex-namorada de maneira hedionda e nunca cumpriu pena por isso. 

O caso do ônibus é apenas UM em um oceano de violência contra mulheres

Micheli Nunes
há 2 meses158.0k visualizações
O caso do ônibus é apenas UM em um oceano de violência contra mulheres
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Imagem: Manki Kim

O crime do assediador em série, que ejaculou no pescoço de uma mulher em um ônibus na Avenida Paulista, é um daqueles casos que comovem multidões online. E com razão. Especialmente porque o criminoso foi solto, mesmo tendo quinze passagens pela polícia por ataques semelhantes, e porque ele vitimou outra mulher dois dias depois. 

Esse clamor por justiça é completamente legítimo, mas é também oportuno. É muito mais fácil se indignar e simpatizar com uma vítima que "atente" ao que a sociedade machista espera de uma vítima de estupro. Sim, temos padrão de aceitação até para vítimas de estupro.

A moça que foi atacada no ônibus é desconhecida, estava em um local cheio de gente, durante o dia, indo para o trabalho e usava um casaco. Isso tudo deveria ser completamente irrelevante, mas tem um papel fundamental na maneira como as pessoas reagiram a ela. Especialmente se comparada à maneira como reagiram ao caso de Clara Averbuck, a escritora que foi estuprada por um motorista de Uber.

Clara é uma escritora renomada, conhecida nas redes sociais, é feminista e fala contra a cultura do estupro. E Clara estava embriagada no momento do estupro. Por conta dessas circunstâncias, seu relato foi mil vezes mais criticado, desprezado e até virou piada. Que fique muito claro que nada do que Clara é ou faz é digno de culpa ou vergonha. Pelo contrário. Ela uma mulher forte, bem-sucedida, um ótimo exemplo para outras mulheres. E o fato de estar embriagada não dá direito a nenhum homem de violar seu corpo. Mas não é assim que muita gente pensa.

Segundo o DataFolha, um terço dos brasileiros culpa as mulheres por estupros sofridos, e 40% das pessoas acreditam que mulheres "que se dão o respeito" não são estupradas. No Brasil, uma mulher é estuprada a cada 11 minutos, segundo registros oficiais. São quase 50 mil estupros por ano. 

O que une as duas histórias é a impunidade. No caso de Clara a escolha de não ir à delegacia foi um dos pontos mais criticados nas redes sociais. Claramente por pessoas que nunca viram como uma vítima de estupro é tratada nessas circunstâncias. Era a palavra de Clara contra a do agressor, e ela, que não tem provas do ataque, poderia inclusive ser processada pelo homem que a estuprou.

Mas mesmo no caso da moça que foi atacada no ônibus, cujo agressor foi detido em flagrante e levado pela polícia para a delegacia, não houve prisão. Ele foi solto porque o juiz considerou que não houve estupro, já que o agressor não "obrigou" a vítima a participar do ato libidinoso. Como se ela tivesse tido alguma escolha em levar porra no pescoço.

Parece óbvio, mas não é: nós, mulheres, não merecemos ser estupradas. Precisamos reafirmar isso para todos, o tempo todo. Para os agressores, que fazem cinco vítimas por hora no Brasil, e para as pessoas que acham que a culpa é da vítima. Não estamos seguras no ônibus, no Uber, a pé. Não estamos seguras da porta de casa para fora, e tampouco da porta para dentro, já que a maior parte dos estupros acontece em casa, entre pessoas conhecidas. 

Ser mulher é um estado de insegurança.

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.