Coluna -Por que precisamos de feminismo?
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Carta de Marcos é mais um ato de violência contra Emilly

Micheli Nunes
há 6 meses192.5k visualizações
Carta de Marcos é mais um ato de violência contra Emilly
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Marcos Harter, que agrediu a namorada (física e psicologicamente) dentro do Big Brother Brasil e foi indiciado por lesão corporal,  resolveu publicar uma carta aberta para a Emilly no Facebook, que ele dá a entender que é uma despedida, mas na verdade é um poço de vanglória, manipulação, ameaça, chantagem emocional, exposição e cinismo. Com mais de 130 mil reações e quase 40 mil compartilhamentos até agora (menos de 24 horas desde a publicação), a carta nada mais é que mais uma forma que intimidação e violência contra Emilly, que já ouviu gritos, foi encurralada, sofreu beliscões, uma torção no braço e teve sua cabeça  batida no chão repetidas vezes pelo ex-BBB.

Carta de Marcos é mais um ato de violência contra Emilly

"Nunca subestime a habilidade de um homem de fazer você sentir culpa pelos erros dele", Rihanna

O texto é uma narrativa de como o brother conheceu e se apaixonou por Emilly, mas a história vai ficando cada vez mais sombria até terminar com ameaças e jogos psicológicos que só podem ter sido criados por um manipulador frio e inescrupuloso. Ele começa quase poético, mencionando uma série de coisas fofas que Marcos fazia para Emilly, na clara tentativa de se posicionar como o bom moço e ganhar a simpatia do público. "Dei-lhe flores todos os dias, até que a produção pediu para eu não arrancar mais as flores do jardim", diz ele em um trecho. Em outro ele menciona que eles provaram pro país inteiro que "o amor verdadeiro existia".

Marcos chega ao ponto de dizer que não entrou no programa com o objetivo de ganhar dinheiro, mas com uma missão misteriosa, que ele afirma ter descoberto quando passou a conhecer a garota: "Não precisei de muitos dias na casa para entender a minha missão ali. Sensibilizei-me com a sua história e determinei-me a fazer o possível e o impossível para conduzi-la até a grande final", conta, abnegado. 

 O tom começa a mudar quando Marcos passa a se fazer de vítima. "Essa é uma grande demonstração do quanto eu gostava de você e você não percebia.", afirma ele, que passa a descrever defeitos nela: "Os problemas que muitos apontavam em você, Emilly, eu também via. Atitudes de egoísmo, soberba, deslumbramento não passavam despercebidas por mim". 

Ele diz também que o carinho que sentia por ela não "tirou a capacidade de discernir entre o certo e o errado", é quando impõe a sua posição de superioridade, que ele reforça em outros momentos, como quando afirma que ela ainda é "jovem", e fala que se sentia pai dela. É uma maneira clássica de um homem abusivo estabelecer que ele é mais experiente e inteligente, e por consequência a mulher só pode estar errada. Essa hierarquia vai se intensificando, misturada ao cinismo de Marcos, e culmina com chantagem emocional, que ele disfarça de "conselhos".

A culpabilização se intensifica quando ele rotula Emilly de ambiciosa, e sugere que todo o conflito aconteceu porque ela tinha medo que ele ganhasse no lugar dela: "Ao ouvir minha torcida gritar 'É campeão!', você passou a me ver como alguém que eu nunca tinha sido para você: um adversário". Nessa frase extremamente calculada, Marcos consegue ao mesmo tempo colocar a culpa de todas as agressões em Emilly sem ao menos mencionar que a agrediu. Mais tarde, ele quase toca no assunto, quando diz que não contou pra ninguém que ela o chutou e jogou uma bola no rosto dele, ignorando completamente o fato de que ele já a havia machucado diversas vezes e tem o dobro do tamanho dela, e insinua que a Globo ofereceu a ele a opção de denunciá-la por agressão, que ele teria negado.

E é aí que a carta abandona os meandros e fica abertamente abusiva. Marcos começa a insinuar que Emilly o denunciou para a produção longe das câmeras, no confessionário, fato que a própria Rede Globo negou, e diz que ele chegou a gritar, trancado dentro do confessionário, para que ela retirasse as queixas. Na narrativa dele, ela o via como adversário e teria "inventado" as agressões - que por sinal estão registradas em vídeo - apenas para que ele fosse eliminado e ela pudesse ganhar. "Considero essa uma das cenas mais tristes do programa: você acabava de acusar injustamente a pessoa que você dizia que tanto adorava", escreve ele, cínico. E a culpabilização da vítima se mistura em manipulação emocional: "Só não imagina a dimensão da sua ganância.", e "Deus viu sim o que você fez, e, aos poucos, as pessoas vão ver também".

"Saber perdoar é para poucos. Diria que você tem sorte em eu ser um deles", conta ele. E com o histórico, só podemos imaginar o que ele faria se não tivesse esse mágico talento de perdoar. "Mas você realmente não precisa pedir perdão para mim, mas talvez tenha que pedir a todas as pessoas que acreditaram no amor que você dizia sentir por mim", continua a manipulação, que culmina com o golpe mais baixo de todos, quando Marcos menciona a mãe de Emilly, que morreu no começo do ano: "Tem outra pessoa, pela qual você tanto chorou durante o programa, que viu tudo que você fez lá do céu, e para essa eu creio que você também deveria pedir perdão".

É praticamente um roteiro sociopata de manipulação da vítima. Um passo-a-passo didático de terror psicológico. Mesmo com provas de que ele foi violento e abusivo, ele insiste em ignorar tudo o que fez. Age como se Emilly tivesse cometido erros imperdoáveis, Cria todo um conto de fadas para reforçar que é um cara bonzinho e usa isso para vilanizar ainda mais a mulher. Do lado de fora, só podemos esperar que Emilly tenha uma forte rede de apoio para que não seja tão prejudicada pelas palavras desse abusador. 

Estamos com você Emilly. Mexeu com uma, mexeu com todas.

Homem feminista ou pró-feminismo?

Micheli Nunes
há 6 meses41.5k visualizações
Homem feminista ou pró-feminismo?
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Dentro dos movimentos feministas existem divergências sobre o papel dos homens nas lutas das mulheres. É praticamente consenso que homens podem e devem apoiar a causa feminista, mas algumas correntes acreditam que homens não têm o direito de se autodenominarem feministas, preferindo o termo "pró-feminismo", enquanto outras incentivam que homens se identifiquem como tal. Ambos lados têm bons argumentos.

Feminismo é a noção de que homens e mulheres devem ter os mesmos direitos sociais, políticos e econômico. É um movimento que fala de igualdade e equidade, o que faz com que algumas pessoas torçam o nariz quando alguém diz que é um movimento somente para mulheres. Porém, dizer que se busca igualdade social não implica que precisamos garantir que 50% do espaço que conquistamos seja preenchido pelos homens, simplesmente porque os homens já gozam de privilégios em todos os outros espaços e movimentos sociais. 

Homens têm diversos privilégios que mulheres não encontram, mesmo dentro do feminismo. É comum, principalmente nas redes sociais, que um homem ganhe muito mais espaço e notoriedade quando fala de um problema sobre o qual mulheres vêm falando há anos, sem serem ouvidas. É importante que dentro do feminismo as mulheres sejam ouvidas, porque por mais que homens sejam aliados, eles nunca saberão o que é ser uma mulher no mundo machista. É importante também criar ambientes seguros para mulheres, que, por motivos de violências de gênero, não se sintam confortáveis com outros homens.

Para algumas feministas, um homem dizer que é pró-feminismo mostra que ele têm a consciência de que aquele lugar não é o dele, e que ele precisa dar um passo atrás para dar a oportunidade para que as mulheres recebam a atenção. É fundamental que mulheres, e não homens, sejam as porta-vozes do feminismo, por uma questão de coerência, representatividade e empoderamento, ou todo o discurso se perde. 

Porém, as mulheres que defendem que homens podem ser feministas argumentam que tudo isso é possível sem que eles precisem se prender ao termo "pró-feminismo". Outro argumento importante é que homens podem fazer uso do seu privilégio na sociedade para levar a mensagem de igualdade onde, por causa do machismo, mulheres ainda não conseguem ser ouvidas. Levando em conta que a palavra "feminista" carrega um enorme estigma, ter homens influentes assumindo essa identidade tem um impacto poderosíssimo nesse aspecto.

No fim das contas, a discussão sobre a terminologia é secundária à discussão do papel prático dos homens no movimento. Não adianta se dizer feminista ou pró-feminismo e se sentir no direito de falar por cima de outras mulheres. Ou achar que feminismo é um assunto para se falar apenas quando rodeado de mulheres e nunca para outros homens. Se o homem quer ser um aliado, deve aproveitar de seu privilégio para combater o machismo no seu ambiente. Ações como repreender piadas machistas, corrigir quando amigos usam termos sexistas, ouvir quando mulheres fazem reclamações e denúncias e acreditar nelas são um bom começo para provar que você é, de fato, um aliado.

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.