Coluna -Por que precisamos de feminismo?
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Chutar uma mulher grávida caída não é legítima defesa, Victor

Micheli Nunes
há 6 meses5.9k visualizações
Chutar uma mulher grávida caída não é legítima defesa, Victor
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A história da agressão de Victor, da dupla Victor e Leo, à sua esposa grávida tem todos os ingredientes clássicos de machismo e misoginia. Tudo começou em 24 de fevereiro, quando Poliana Chaves denunciou Victor à polícia por agressão. Ela disse que foi jogada no chão por Victor e que recebeu vários chutes dele. Além disso, o boletim de ocorrência consta que ela foi impedida por um segurança e pela irmã do cantor de sair da casa após as agressões, e só conseguiu escapar depois que uma vizinha ouviu os gritos e a ajudou. Ainda na delegacia, Poliana continuava recebendo mensagens de ameaça da irmã de Victor.

O cantor negou tudo, e dois dias depois, em sua conta no instagram, Poliana publicou um texto muito estranho dizendo que não houve agressão, que Victor estava penas tentando contê-la, e que nunca pensou que houve um crime. O que é extremamente suspeito, visto que ela foi à delegacia fazer uma denúncia disse que estava sendo ameaçada. Na mesma noite, o Fantástico colocou no ar uma reportagem, na qual o cantor se defendia do ocorrido. No vídeo Poliana só aparece de costas e não fala nada, por pedido de Victor. Tudo cheirava a acobertamento, e o povo não perdeu tempo em achincalhar Poliana, chamando a moça de interesseira pra baixo. 

E tudo teria ficado por isso mesmo se a polícia não tivesse continuado as investigações e achado as imagens de segurança do prédio onde o casal mora, nas quais é possível ver Victor chutando Poliana, que estava caída no chão. E se você acha que depois disso o cantor pediu desculpas, se enganou, ele disse que FARIA TUDO DE NOVO

Chutar uma mulher grávida caída não é legítima defesa, Victor

O pronunciamento que Victor publicou em um vídeo é completamente absurdo. "Eu fui indiciado legalmente por vias de fato. Contravenção, ou seja, eu não machuquei ninguém. O que eu pratiquei foi um ato de desespero para conter uma pessoa que estava completamente fora de si de pegar uma criança de 1 ano. E pela minha filha o que eu fiz, eu faria de novo".

Agora expliquem em que situação um homem chutaria uma mulher grávida, muito menor que ele, que estava caída no chão, e afirma que fez isso em legítima defesa. no caso, da criança? Que tipo de ameaça uma mulher, que deve pesar menos de 60kg, apresenta em um apartamento cheio de gente, na frente de um homem muito mais forte?

E como se não bastasse, o irmão e dupla de Victor, Léo, ainda fez comentários completamente absurdos sobre o ocorrido, colocando a culpa em Poliana, dizendo que o ocorrido foi oportunismo e sugerindo que  apenas mulheres que ele chama de "limpas", "verdadeiras" e que "honram o seu papel", merecem que se lutem por seus direitos. 

Todos esses detalhes são extremamente comuns em caso de violência doméstica. Agressão física, mentira, ameaça e culpabilização da vítima. E é revoltante, mas as chances de Victor realmente pagar pelo que fez são extremamente remotas. Ele foi indiciado por "vias de fato", e a pena pode ir de 15 a 30 dias, ou uma multa a ser definida. Enquanto isso Poliana continua vivendo com ele, com uma filha de um ano, grávida e sob ameaça. 

Não foi bem isso que a Juliana Paes falou sobre feminismo

Micheli Nunes
há 6 meses4.2k visualizações
Não foi bem isso que a Juliana Paes falou sobre feminismo
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Desde que o feminismo começou a ganhar o palco mainstream, a mídia tem um fetiche insaciável de questionar mulheres famosas sobre o feminismo. E não contentes em exigir delas um posicionamento sobre um assunto divisivo e complexo, eles geralmente tiram do contexto a parte mais controversa da resposta e colocam no título. Isso quando não inventam uma opinião que elas não deram. E isso aconteceu com a Juliana Paes no último sábado. 

A atriz, que vai interpretar Bibi, uma "primeira-dama do crime" na sua próxima novela, falava com a Veja - uma revista conservadora - sobre o poder da personagem feminina. Um prato cheio para engatar no assunto "polêmico". Não sabemos que tipo de perguntas a reportagem da Veja fez à Juliana, mas a atriz disse que "existe uma linha do feminismo com a qual não concordo muito", e seguiu tecendo alguns comentários sobre o movimento. Mas em nenhum comento Juliana usou nenhuma variação palavra "excesso", quem fez isso foi a reportagem da Veja. E o que a mídia fez?

Não foi bem isso que a Juliana Paes falou sobre feminismo

Colocaram "excessos do feminismo" dentro das aspas da atriz, no título, fazendo com que parecesse que ela disse a frase. E isso veio de veículos que são considerados sérios, como o F5, da Folha, e o HuffingtonPost. O uso da palavra "excesso", quando "equívoco" serviria perfeitamente bem para o mesmo propósito, é ainda mais sintomático, porque é um substantivo muito usado para criticar mulheres, que são cronicamente acusadas de serem "exageradas" e "histéricas".

A coisa virou um telefone sem fio tão grande que já tinha sites com menor credibilidade afirmando que Juliana Paes disse que não era feminista, quando ela disse exatamente o oposto na entrevista para a Veja: "Sou uma feminista de saia, sutiã, salto alto e batom vermelho".  E como a maioria das pessoas lê apenas os títulos e a internet é cheia de debates acalorados e rasos - às vezes até dentro dos movimentos feministas - a coisa pegou fogo.  E o fato da atriz ser porta-voz da ONU Mulheres no Brasil só acalorou os ânimos. Mas pouca gente de fato discutiu o que foi dito na entrevista, focando o debate apenas no fato de mulheres famosas ainda falarem publicamente contra o feminismo. 

Apesar da fala de Juliana ter equívocos, que vamos discutir abaixo, ela não criticou "excessos do feminismo". Juliana disse que existe uma linha do feminismo com a qual ela não concorda muito, o que é perfeitamente aceitável. O feminismo tem diversas linhas, algumas mais liberais, outras mais radicais, que inclusive discordam completamente sobre assuntos como prostituição, transexualidade e exposição da sexualidade feminina. Se você se envolve com os movimentos feministas a ponto de discutir esses temas, fatalmente  vai discordar de uma linha ou de outra. 

O problema é que Juliana claramente não se aprofundou nesses assuntos, o que ela própria entrega em uma entrevista mais recente ao UOL, na qual disse ser uma feminista liberal: "Li uma coisa esclarecedora que não tem nem a ver com a minha entrevista em si, mas é um termo que se chama equidade. Me considero uma feminista liberal, mas quando você fala de igualdade o termo apropriado é equidade, porque acho que a igualdade não existe e viva as diferenças." 

Equidade é o equilíbrio de direitos de forma justa, que respeita as diferenças entre as partes de modo a nivelar uma relação desigual. É um termo muito usado no feminismo, e se Juliana só ouviu falar dele agora, significa que não esteve muito a par do movimento. Ela diz que "a ponderação foi muito mais comportamental do que filosófica", o que explica muito. Juliana entende que homens não são iguais às mulheres dentro da nossa cultura e não vê isso como uma coisa negativa. Foi uma dedução empírica, sem embasamento algum, que gerou algumas noções erradas.

Mas vamos aos verdadeiros problemas nas falas da atriz:

"A sensibilidade, o lúdico, o caminho da ponderação, o afeto nas relações de trabalho — tudo que faz parte do universo feminino e matriarcal deve ser respeitado"
Juliana Paes - Veja

Essa frase supõe que sensibilidade, ludicismo, ponderação e afeto são características inerentemente femininas, o que não é verdade, e supõe também que o feminismo rejeita essas características, o que também é falso. E por mais que existam correntes feministas que divergem entre si, não existe nenhuma linha feminista que desrespeite o conceito de maternidade ou do universo feminino.

“Não quero queimar sutiãs. Gosto de sutiãs! Não quero quebrar saltos de sapato em busca de liberdade"
Juliana Paes - Veja 

Por mais que "queimar sutiãs" tenha se tornado um símbolo feminista, isso aconteceu por um mal-entendido. Foi uma confusão da imprensa americana que misturou dois protestos em 1968, o de jovens do movimento estudantil queimando carteirinhas de estudante, com o de feministas que protestavam contra o Miss América, expondo peças que as modelos eram obrigadas a usar, entre elas meia-calça, salto alto e... sutiãs, onde nada foi queimado. 

"Gosto de me enfeitar, e nós, mulheres, não fazemos isso para o macho. Fazemos porque dá prazer cuidar de si e cuidar do outro. Sou uma feminista de saia, sutiã, salto alto e batom vermelho.”
Juliana Paes - Veja

Mesmo que algumas linhas do feminismo problematizem o uso de salto alto, maquiagem e outras convenções do universo de beleza - como depilação e cirurgias plásticas - classificando isso tudo como uma imposição cultural machista, e não uma verdadeira escolha, nenhuma feminista quer impor regras do que outra mulher pode ou não fazer com o próprio corpo. 

Juliana não é especial por ser feminista de saia, sutiã, salto algo e batom vermelho. A maioria das feministas, mesmo entre as radicais, também usa uma ou outra dessas coisas eventualmente. Mas a necessidade de validar seu feminismo, misturada a uma certa ignorância propagada pelo ativismo que se baseia exclusivamente em memes, prints e lacração, cria esse tipo de engano com uma enorme frequência. É muito comum, mesmo em mulheres que se dizem feministas, a propagação de ideias erradas sobre a causa. E quando isso acontece, é muito mais construtivo dialogar do que expor e apontar o dedo.

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.