Coluna: Por que precisamos de feminismo?
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Emma Watson expõe o mito do 'pós-feminismo'

Micheli Nunes
há 7 meses602 visualizações

Na campanha de divulgação de A Bela e a Fera, Emma Watson deu uma entrevista para o Buzzfeed, em uma ação para incentivar a adoção de gatinhos. Entre as perguntas, a atriz e ativista tocou em um assunto importante, o mito da "sociedade pós-feminista" e como isso afeta a autoestima das mulheres.

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Emma Watson expõe o mito do 'pós-feminismo'

Nós pensamos que vivemos em uma sociedade pós feminista

Emma Watson expõe o mito do 'pós-feminismo'

E não vivemos

Emma Watson expõe o mito do 'pós-feminismo'

Que podemos votar, que está tudo bem

Emma Watson expõe o mito do 'pós-feminismo'

Então não precisaríamos mais de feminismo

Emma Watson expõe o mito do 'pós-feminismo'

E eu acho que isso é incrivelmente desconcertante

Emma Watson expõe o mito do 'pós-feminismo'

Porque daí, quando jovens mulheres encontram o mundo

Emma Watson expõe o mito do 'pós-feminismo'

E se dão conta - "Ué, por que eu não recebo o mesmo salário que os homens?"

Emma Watson expõe o mito do 'pós-feminismo'

"Por que sou tratada de maneira diferente?"

Emma Watson expõe o mito do 'pós-feminismo'

E elas começam a se culpar, porque elas não entendem

Emma Watson expõe o mito do 'pós-feminismo'

Que são parte de um padrão histórico

É um conceito muito simples do qual muitas pessoas não se dão conta. Dizer que não precisamos de feminismo é uma mentira, porque o machismo se manifesta em toda parte, principalmente no mercado de trabalho e nos relacionamentos. E quando você diz a uma mulher que machismo não existe, e ela é prejudicada por um sistema machista, ela tende a achar que é culpa dela. 

Mesmo que o feminismo de Emma Watson não seja a prova de críticas - e não é - é essencial ter uma pessoa com tamanha visibilidade aproveitando sua posição para trazer esses assuntos à tona. É justamente ouvindo as palavras da atriz, que muitas meninas terão o primeiro contato com o feminismo e poderão começar a se fortalecer para enfrentar uma sociedade que faz de tudo para prejudicá-las.

A ditadura da magreza destruiu nossa relação com a comida

Micheli Nunes
há 7 meses351 visualizações
A ditadura da magreza destruiu nossa relação com a comida
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O mundo não foi feito para pessoas gordas e isso é explícito de diversas maneiras. Cadeiras, roleta do ônibus, roupas, poltronas de cinema, poltronas de avião e até elevadores, tudo isso é feito tendo em mente uma pessoa que pesa em média 70kg. Na TV, no cinema, na publicidade, pessoas gordas são gravemente sub-representadas, e quando aparecem geralmente são o motivo da piada. Mas talvez uma das consequências mais sutis e discretas que essa gordofobia institucionalizada nos trouxe é uma relação doentia com a comida. E não só para a pessoas gordas.

Desde criança aprendemos que existem comidas boas e ruins, e que as comidas ruins são boas e as boas são ruins. Entendeu? Não é fácil mesmo. Nos dizem que aquilo que é gostoso faz mal, e o que faz bem tem gosto ruim, mas temos que comer. Isso é estabelecido muito cedo na vida, especialmente para mulheres. Nos ensinam a contar calorias, fazer substituições, cortar grupos alimentares inteiros, fazer jejum intermitente, comer de três em três horas, consumir gorduras boas, não consumir gordura nenhuma, não jantar, jantar sim, comer só coisas integrais, não comer glúten, tomar iogurte, não comer derivados de leite, levar snacks pro trabalho, comer castanhas (mas só três), anotar tudo o que comemos, colocar num app, light, diet, zero calorias, zero açúcar... SOCORRO!

A ditadura da magreza destruiu nossa relação com a comida

Fiz a minha primeira dieta aos 8 anos. Passei os próximos 20 lidando com distúrbios alimentares intermitentes e um constante estado de "estou de dieta" ou "estou quebrando a dieta". Todas - eu repito, TODAS - as mulheres que eu conheço passaram pelo menos um terço da vida preocupadas com isso. E muitas delas ainda estão preocupadas com isso. É muito frequente ver mulheres se desculpando por comer. "Nossa, que gordice, né?". "Eu tô estressada, mereço esse chocolate". "Vou comer essa sobremesa, mas vou passar o resto da semana só na salada". Uma comida é a vilã, a outra a redentora. Uma é o pecado, a outra o perdão. Uma te seduz, a outra te redime.

Isso é traço de uma relação extremamente doentia com a comida. Em vez de celebrarmos o que alimenta o nosso corpo e nos mantém vivos, nós embarcamos em um jogo psicológico. Por livre e espontânea vontade, nós nos prendemos a um regime ditatorial, que nos mantém com medo, ansiosas e preocupadas. Isso ocupa nossa mente, nos mantém submissas, estraga nossos instintos e não nos permite ouvir nosso corpo. Não sabemos mais se estamos com fome, com sede, ansiosas, excitadas, deprimidas, com desejo... e deveríamos saber! Deveria ser instintivo! 

A ditadura da magreza destruiu nossa relação com a comida

É uma lavagem cerebral que nos mantém reféns de um mercado multimilionário de dietas, tratamentos estéticos e produtos nichados, desenhados para nos escravizar num circulo vicioso de falhas. Preferimos comer uma  barra de cereal com gosto de serragem e tristeza, que custa o seu peso em ouro e tem mais calorias que um bombom, do que comer um bombom e aproveitar. E provavelmente a insatisfação vai nos levar a comer o bombom eventualmente, e mergulhar na culpa e na autopiedade.

Não estou dizendo que precisamos chutar o balde e comer sem critério. Estou dizendo que perdemos a capacidade de perceber nossos limites. Estamos nos empanturrando com biscoitos industrializados sem açúcar, saladas hermeticamente fechadas e com gosto de nada, frutas cristalizadas que custam nove vezes mais do que deveriam. E estamos controlando isso com aplicativos, caderninhos, notas do cárcere. E isso tudo só nos deixa ainda mais ansiosos.

Que tal cultivarmos uma relação mais saudável com a comida? Menos coisas sem gosto "para gente magra", menos dietas absurdas, menos horários marcados no alarme, menos apps. Vamos comer comida de verdade, fresca, barata, feita por um ser humano. Vamos comer quando tivermos fome, e parar quando a fome acabar. Vamos comer o que gostamos, aprender a apreciar o sabor dos alimentos. Vamos aprender a ouvir o nosso corpo e não demonizar grupos alimentícios inteiros. Vamos comer um fastfood ou chocolate quando der vontade sem achar que somos um fracasso e sem fazer trocas absurdas e injustas, que incluem períodos de fome e desnutrição. 

Chega de entrar em batalhas perdidas E isso não tem nada a ver com dieta ou emagrecimento. Tem a ver com libertação.

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.