Coluna -Por que precisamos de feminismo?
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Entenda o caso do cara que difamou uma mulher e teve que se retratar no Facebook

Micheli Nunes
há 5 meses3.8k visualizações
Entenda o caso do cara que difamou uma mulher e teve que se retratar no Facebook
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Cena de 13 Reasons Why em que Justin mente para os amigos que fez sexo com Hannah

Lázaro Dias teve seu momento de infâmia nos últimos dias nas redes sociais. Ele fez um post público no seu perfil do Facebook, por ordem judicial, no qual se retratava por ter mentido para os amigos dizendo que teve "um relacionamento íntimo" com Izabela Stelzer. Leia abaixo:

Entenda o caso do cara que difamou uma mulher e teve que se retratar no Facebook

O post teve quase 10 mil compartilhamentos e 38 mil reações, de pessoas que estavam achando muito bem-feito para Lázaro. Mas a história é muito mais séria do que parece. Izabela, a vítima de Lázaro, também fez uma publicação em suas redes explicando o ocorrido. Ela conta que nunca esperava que algo assim fosse acontecer em sua vida, mas um dia se deparou com montagens e conversas falsas envolvendo seu nome e sua foto. "Ele inventou que foi no motel comigo, contou para os amigos do meu namorado e o pior ainda mandou para eles print de supostas conversas entre a gente (que nunca existiram, que ele criou). Não o conhecia e ainda não o conheço mas ele entrou na minha vida como um pesadelo. Gerando para mim e para minha família uma dor inexplicável", diz o post.

O que Lázaro fez é muito sério. O tema inclusive apareceu na série 13 Reasons Why, como um dos motivos pelos quais a protagonista comete suicídio. Na trama, Justin (Brandon Flynn) tira uma foto comprometedora de Hannah (Katherine Langford) e faz os colegas pensarem que os dois fizeram sexo. O acontecimento deixa a garota "mal falada" no colégio e desencadeia uma série de acontecimentos que levam ao seu suicídio.

Felizmente, Izabela teve forçar para enfrentar seu assediador, fez uma queixa, procurou um advogado e, em uma audiência de conciliação, conseguiu que ele fosse obrigado a desmentir tudo que  havia inventado de uma forma bem pública. Mas ainda com um final feliz, a história teve uma repercussão totalmente distorcida, com a imprensa tratando Lázaro como um adolescente inconsequente, o clássico "boys will be boys".

Segundo o G1, o que Lázaro fez foi "contar vantagem a amigos", minimizando o que claramente foi um ataque à Izabela, e fazendo parecer que foi um caso de vaidade juvenil para provar masculinidade. Lázaro não só fez montagens implicando que ela teria feito sexo com ele, como espalhou os boatos entre os amigos do namorado dela, numa clara tentativa de difamá-la. Ou seja, não era para "contar vantagem". O objetivo dele era difamá-la.

Entenda o caso do cara que difamou uma mulher e teve que se retratar no Facebook

Já o Estadão chamou Lázaro, que tem 26 anos de idade, de "garoto", disse no título que o ele inventou um "caso amoroso", romantizando o assédio. Além disso, a reportagem usou uma foto genérica de um banco de imagens, com um menino envergonhado, para ilustrar a matéria, colocando Lázaro em posição de vítima.

Entenda o caso do cara que difamou uma mulher e teve que se retratar no Facebook

Está na hora da imprensa parar de passar a mão na cabeça de homens brancos que assediam mulheres. Se fosse um homem negro, ele não teria o "luxo" de ser chamado de "garoto" ou de ter seu crime categorizado como "contar vantagem" sobre "caso amoroso". E eu nem preciso mencionar como a mídia trata mulheres que acusam seus estupradores. 

MELHOREM.

Deixem Su Tonami em paz!

Micheli Nunes
há 5 meses2.6k visualizações
Deixem Su Tonami em paz!
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Você deve se lembrar do caso de assédio sexual do ator José Mayer, quando ele foi denunciado por passar meses intimidando a figurinista Su Tonami, e chegou a agredi-la colocando a mão entre suas pernas, certo? Pois na última semana, Su resolveu que não ia prestar queixa contra José Mayer, o que levou a uma enxurrada de especulações sobre os motivos. Um colunista chegou a sugerir que ela teria um caso com o ator, e esse seria o motivo da desistência. Além de extremamente sexista, o boato não tem sentido, já que foi a própria Su que tornou o caso público. 

Prestar queixas de assédio sexual é uma tarefa hercúlea. O sofrimento de ter sido atacada é revivido centenas de vezes durante todo o processo. A maioria das delegacias não têm pessoas preparadas para receber mulheres vítimas de abuso, e muitas delas encontram delegados grosseiros, que duvidam de todos os detalhes do crime, sugerem que a mulher possa ser a culpada e ainda tentam persuadi-la a desistir da denúncia. Isso quando falamos de homens comuns. Quando um famoso, com muito dinheiro para contratar advogados e boa parte da imprensa e da opinião pública do seu lado, a via-crúcis é ainda pior. 

Isso tudo ainda é aliado ao trauma de revisitar e descrever todo o ocorrido dezenas de vezes, para o delegado, para advogados, para o promotor e para mais uma dezena de pessoas. Além da perspectiva de ter que ir atrás de testemunhas para depor e de continuar envolvida com o caso - e com o abusador - por meses e até anos. Isso já é motivo suficiente para que a maioria das mulheres não denunciem seus abusos. E isso é muito compreensivo.

O ideal seria que nosso sistema acolhesse essas mulheres, aplicasse a lei e trouxesse justiça para elas, mas isso não acontece. E enquanto mulheres que foram abusadas continuarem sendo agredidas de todas as maneiras ao buscarem reparação, ninguém pode obrigá-las a denunciar os seus abusadores. Su escreveu recentemente mais um texto para o blog Agora É Que São Elas com o título "Me deixem deixar de ser vítima - Me deixem voltar a ser eu". E isso é o mínimo que devemos a ela.

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.