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Estupradores devem ser ouvidos no debate sobre o estupro?

Micheli Nunes
há 7 meses280 visualizações

Thordis Elva, a finlandesa que está viajando o mundo dando palestras ao lado de seu estuprador, o australiano Tom Stranger, vem levantando uma enorme polêmica em todo o mundo. Para maior compreensão, leia o texto abaixo. 

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Em Londres, na frente do Royal Festival Hall, onde eles se apresentaram, manifestantes carregavam cartazes de repúdio e gritavam: "Temos um estuprador neste prédio". Mas a dura verdade é que essas pessoas estavam erradas. Segundo a OMS, uma em cada quatro mulheres será estuprada durante sua vida. Mas a Organização não tem dados sobre quantos homens são vão estuprar uma mulher durante suas vidas. Se partirmos do pressuposto de que não é apenas um homem que saiu cometendo todos esses crimes, chegaremos a um número bastante alto de homens estupradores. Sendo assim, naquele prédio, onde uma plateia de 2.900 pessoas assistiu à palestra, havia MUITO mais do que apenas um estuprador.

Estupradores devem ser ouvidos no debate sobre o estupro?

Thordis argumenta no vídeo que o "rótulo de vítima" desumaniza as pessoas e diminui o valor delas, mas que o "rótulo de estuprador" também causa danos. "Quando alguém é marcado como estuprador, é mais fácil chama-lo de um monstro desumano. Como vamos entender que é a sociedade humana que produz esse tipo de violência, se nós recusamos reconhecer a humanidade daqueles que a cometem?". Este argumento é muito reverberado em meios feministas, justamente porque a maioria dos estupros é cometida por pessoas que conheciam a vítima. É muito mais fácil conceber a ideia de que quem comete esse tipo de violência é de alguma maneira diferente do "normal", mas isso não reflete a realidade. 

À medida que passarmos a entender que pessoas perfeitamente "normais", sociáveis, simpáticas, cercadas de amigos e familiares que as amam, também cometem estupros, vamos conseguir dar um passo em direção a erradicação desse crime. Thordis conta que não entendeu o ocorrido como estupro porque não se encaixava na visão perpetuada desse tipo de crime. Ele era seu namorado, era carinhoso, bonito, estavam no quarto dela, depois de uma noite encantadora. Quando ela se deu conta do ocorrido, ele já estava longe. Quantas vítimas não passam pelo mesmo processo e sofrem em silêncio, incapazes de legitimar sua dor? E quantos estupradores violentam mulheres mas não acham que fizeram nada errado, porque a vítima era sua namorada?

O desafio principal para desmistificar esse preconceito é justamente a necessidade de humanizar o estuprador, coisa que é impensável na maioria dos círculos que debatem o assunto. Isso porque a ideia de dar um rosto ao criminoso é logo associada à impunidade, ao desrespeito à vítima e ao machismo. Como fazer isso sem parecer que estamos tentando minimizar o crime ou silenciar a vítima? Talvez Thordis tenha encontrado a maneira. Ela usou sua própria história, ao lado do seu estuprador, sem expor nenhuma outra vítima, e deixando bem claro que o que eles fizeram não serve de modelo para ninguém. 

Thordis não pede que mulheres que foram estupradas encontrem seus algozes e tentem uma reconciliação. Seu objetivo é desmistificar a imagem do estuprador e mostrar para as vítimas que existe uma vida completa e feliz após o estupro. E Tom conversa direto com homens que já estupraram, muitos dos quais provavelmente estavam ali, assistindo à palestra. "Eu achava que se tomasse responsabilidade, meu certificado de humanidade ia ser revogado, em vez disso, tive a oportunidade de admitir o que eu fiz, e descobri que isso não possuía inteiramente quem eu sou. Simplificando: algo que você fez, não precisa ser a soma de quem você é. (...) Mas mais importante que tudo isso, é que a culpa foi transferida da Thordis para mim. Muitas mulheres se culpam pela violência que sofreram". 

Há alguns anos participei do Segundo Encontro da Parceria Global Para o Fim da Violência Contra a Mulher (iniciativa da ONG Vital Voices, com patrocínio da Avon), em Brasília. Dos quatro dias de debates e palestras, um deles foi dedicado aos agressores. A princípio, a ideia de dedicar espaço a homens que batiam em mulheres me deu repúdio, mas assistindo aos debates entendi a importância de olhar para os dois lados. Um dos palestrantes, o psicólogo e doutor em saúde coletiva, Marcos Nascimento, explicou que não enxergar os homens é ineficiente: “Percebemos que trabalhar só com as mulheres não tem sido suficiente. Se os homens são o problema, eles precisam ser considerados na busca pela solução”. Tanto que Delegacias da Mulher em todo o país estão equipadas para orientar e encaminhar homens confessos que não cumprirão pena para tratamentos psicológicos.

Estatisticamente, é quase impossível que um homem cumpra longas penas por violência doméstica ou mesmo estupro. A maioria deles continuam convivendo em sociedade, e a maioria deles é reincidente. Uma educação sem machismo é uma solução a longo prazo que ainda nem sabemos como implementar efetivamente em larga escala. O que temos no momento, em termos de ferramenta, é o empoderamento das mulheres, o que é essencial, mas já estabelecemos que as vítimas não são a causa do estupro, então dar a elas a responsabilidade não é efetivo. 

Tom está em uma posição inédita, a de um estuprador que fala sobre assunto abertamente e se mostra arrependido. Querer que ele seja punido não significa querer silenciá-lo, uma coisa não anula a outra. Além do discurso dele nos ajudar a entender as motivações do estuprador e a maneira como ele racionaliza seu crime, o que pode ser muito útil na hora de desenvolver métodos para impedir novos casos, ele tem mais chances de ser ouvido por seus semelhantes. O papel de Tom não é falar no lugar das vítimas, ou ser protagonista do debate, mas alcançar um público que nós não alcançamos.

O que pensar da palestra de uma mulher ao lado de seu estuprador?

Micheli Nunes
há 7 meses276 visualizações
O que pensar da palestra de uma mulher ao lado de seu estuprador?
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A islandesa Thordis Elva foi o assunto de hoje nas redes sociais por ter decidido fazer um tour pelo mundo dando palestras ao lado de seu estuprador. Não, você não leu errado. Thordis foi estuprada há 19 anos, na Finlândia, quando ela tinha 16 anos, pelo australiano Tom Stranger, que tinha 19, e agora eles participam do TED, uma famosa série de conferências sem fins lucrativos que acontece ao redor do mundo.

"Eu tinha 16 anos e estava apaixonada pela primeira vez na vida. Ir a um baile juntos era uma confirmação do nosso relacionamento, e eu me senti a garota mais sortuda do mundo. (...) Mas meu encanto se transformou em horror quando ele começou a tirar minha roupa e a subir em mim. (...) Fiquei machucada e chorei muito por semanas, mas tudo era muito confuso para mim. Tom era meu namorado, não um monstro. E o estupro ocorreu na minha cama, não em um beco. Quando finalmente entendi que havia sido estuprada, Tom já tinha voltado para a Austrália", conta Thordis na palestra.

É muito fácil sentir repúdio pelo fato de um estuprador subir ao palco ao lado de sua vítima, principalmente em uma sociedade onde homens acusados de estupro - ou de agressão a mulheres, ou até de feminicídio - são tratados como membros nobres da sociedade, com todos os privilégios. Recentemente, Casey Affleck - acusado de assédio e abuso sexual por duas mulheres que trabalharam com ele (crime que foi enterrado em um acordo milionário) - foi premiado com um Oscar. A estatueta lhe foi entregue, ironicamente, por Brie Larson, que já interpretou uma vítima de estupro no filme O Quarto de Jack, e não aplaudiu o ator, em um protesto silencioso.

O que pensar da palestra de uma mulher ao lado de seu estuprador?

Mas nem precisamos ir muito longe. Aqui no Brasil, o goleiro Bruno, que foi condenado pelo assassinado e ocultação de cadáver de sua ex-namorada, saiu da cadeia em uma manobra inacreditável de seus advogados, que conseguiram um habeas corpus para que ele aguarde o julgamento de seu recurso em liberdade, e imediatamente recebeu propostas para jogar em times de futebol ao redor do mundo. É fácil encontrar na internet imagens de pessoas tirando selfie com o assassino. 

Os exemplos são inúmeros. Mel Gibson agrediu sua esposa física e psicologicamente. Johnny Depp bateu na ex-esposa e a deixou com um olho roxo. Ambos foram gravados tendo ataques de raiva com as parceiras. Ambos continuam trabalhando e frequentando premiações glamurosas em Hollywood. Donald Trump se gabou de entrar em vestiários para flagrar mulheres (que trabalhavam para ele) nuas, disse que um homem famoso pode agarrar a mulher pela vagina sem que ela reaja, está sendo acusado por várias mulheres por assédio sexual, e acabou sendo eleito presidente dos Estados Unidos. 

Por isso é difícil engolir um estuprador dando uma palestra, bem vestido, articulado, em cima de um palco, em uma posição de superioridade. Nem mesmo a presença de Thordis, quando ela relata o ocorrido e expressa sua dor, e ele escuta de cabeça baixa, ou a confissão dele, seguida por uma admissão de uma culpa que diz carregar por anos, amenizam o efeito de repúdio. Até entendemos que ele está arrependido, mas não o suficiente. Tom nunca foi formalmente acusado, nunca foi julgado pelo seu crime, nunca foi para a cadeia. Realidade de 97% dos estupradores. Daí a vontade que temos de obter justiça (ou vingança) pela vítima, mesmo que esta tenha aberto mão de denunciá-lo e afirme que conseguiu perdoá-lo.

A verdade é que cada pessoa lida com seu trauma de maneira diferente. Thordis relata que contou cada segundo das duas horas em que foi estuprada. Hábito que carregou para a vida toda, sempre que se via ociosa. Só parou de contar os segundos quando perdoou Tom. "Independentemente dele merecer ou não meu perdão, eu merecia paz. Minha era de vergonha estava acabada", ela explica. E se ela encontrou ali uma forma de seguir sua vida, aceitando que existia uma identidade além da de vítima para si, que direito temos de julgá-la? Não precisamos gostar de Tom, ou perdoá-lo, mas talvez a ideia que Thordis traz, de que ele tem algo a acrescentar no debate sobre estupro, não seja tão absurdo. 

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.