Coluna -Por que precisamos de feminismo?
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Coluna -Por que precisamos de feminismo?
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Coluna -Por que precisamos de feminismo?
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

Girlboss - Por que odiamos Sophia?

Micheli Nunes
há 5 meses2.0k visualizações
Girlboss - Por que odiamos Sophia?
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Apesar da popularidade, os comentários sobre a série Girlboss, que estreou na Netflix no dia 21, não têm sido positivos. Não que a série não seja boa - é boa - mas por causa da personagem principal, Sophia. Um breve resumo é que ninguém gosta de Sophia. Mimada, privilegiada, arrogante, grossa, egoísta e babaca são alguns dos adjetivos direcionados a elas nas redes sociais. Mas se nós somos capazes de aturar esse comportamento em vários personagens, então o que torna Sophia especialmente odiável?

Quando se trata de personagens intragáveis, podemos dividir em duas categorias. Aqueles que amamos odiar (por exemplo, Joffrey de Game of Thrones) e os que são como Sophia, personagens pelos quais deveríamos torcer, mas que aparentemente não despertam simpatia o suficiente para que a gente goste deles. Quando isso acontece com a protagonista da série, especialmente nessa magnitude, algo está errado. No caso de Girl Boss, podemos listar três fatores que influenciaram o desgosto. 

Privilégio

Sophia é uma garota branca, heterossexual, magra, bonita e com um pai que tem dinheiro. Ela quer independência, por isso enfrenta dificuldades financeiras, mas se quiser pode sempre voltar a morar na casa confortável do pai. Ou se esforçar no trabalho (ela tem um emprego). Ela mora em um apartamento fofo e todos os seus problemas são de classe média. A série também sofre com falta de diversidade, que fica ainda mais gritante quando levamos em consideração que a trama se passa em São Francisco, uma cidade conhecida por sua comunidade LGBT. Os dois únicos personagens gays - um amigo de Sophia e um vizinho, interpretado por RuPaul - aparecem pouquíssimo, são descartáveis e estereotipados, com quase nenhuma influência na trama, e parecem ter saído de uma série dos anos 90, pré Will and Grace.

E em época de diversidade crescente nas produções de TV, especialmente na Netflix, com séries como The Get Down, Chewing Gum, Orange is The New Black e Unbreakable, uma personagem nesses padrões precisa ser muito carismática para conquistar o público, o que é o caso de Crazy Ex-Girlfriend, por exemplo. Criada para agradar os "millennials", Sophia absorve praticamente todos os estereótipos atribuídos a essa geração. E mesmo sendo inspirada em uma história real de uma mulher empoderada (e polêmica), que construiu sozinha um império, os percalços de Sophia não parecem desafiadores o suficiente para gerar empatia. 

Ela é egoísta, não trabalha direito, age como se fosse dona do mundo e não respeita as regras. Como se apenas isso fosse gerar identificação com a realidade do público alvo, o que passa longe de ser verdade. Sophia é privilegiada, naturalmente talentosa, e seus desafios não parecem afetá-la de maneira significativa, pelo menos na primeira metade da temporada. E esse é um problema estrutural da série, o que nos leva ao segundo ponto.

Falha de desenvolvimento de personagem

Um bom personagem precisa de duas caracteristicas básicas: falhas e propósito. É isso que dá a ele humanidade. E quando as fraquezas o impedem de alcançar seus objetivos, e a superação dessas fraquezas o leva ao sucesso, temos um bom arco de personagem. Mas para que a audiência se identifique com ele, o personagem precisa também de uma personalidade genuína, o que no caso de Sophia demora muito a aparecer. Apesar de sua humanidade e de seu sonho, apenas no quinto episódio Sophia vislumbra alguma consequência para suas ações muito questionáveis dos primeiros três episódios. Mesmo em tempos de maratonas, é um longo período para testar a resiliência do espectador.

John Truby, famoso roteirista, professor e consultor em mais de 1.800 filmes em Hollywood, argumenta que muitos criadores erram ao enfatizar somente a transformação pessoal dos seus personagens ignorando o impacto moral das ações deles em personagens secundários. Essas falhas são relativamente comuns desde que a moda dos anti-heróis, marcada por House e Dexter, se estabeleceu. É muito fácil pesar a mão ao criar um personagem questionável e torná-lo irritante. Mas por que temos uma tolerância maior com a maioria dos anti-heróis e perdemos a paciência tão fácil com Sophia?

Machismo

Nós aturamos, e até adoramos, personagens babacas e chatíssimos como Ted Mosby (How I Met Your Mother), Ross Geller (FRIENDS), Danny Castellano (Mindy Project) e dezenas de outros homens que deveriam ser os caras legais das suas respectivas séries. Isso sem contar os personagens que foram criados para serem antiéticos e até criminosos, como Don Draper e Walter White. Porém, para que uma personagem feminina seja odiada, é preciso muito pouco. Lori, de The Walking Dead, e Skyler, de Breaking Bad, foram execradas pelos fãs a ponto de terem suas participações diminuídas e até cortadas das séries. As atrizes, inclusive, receberam ameaças de morte e de estupro na vida real. E ambas personagens foram criadas apenas para serem mulheres fortes que se vêem em situações adversas, e não vilãs.

Quando uma personagem feminina demonstra qualquer característica que não seja de abnegação e generosidade, ela quase que irremediavelmente vira uma egoísta. É super ok para personagens masculinos pisarem em outras pessoas para alcançarem seus objetivos, mas uma mulher deixar de sacrificar a própria individualidade por um objetivo é questionável. E quando se trata de uma mãe, não se espera nada menos dela do que sofrimento e gratidão. Ambição, liderança e empreendedorismo ainda são características que só se traduzem positivamente no universo masculino, e Sophia sofre com isso. Ela não fez nada que Don Draper não faria, mas ele será sempre o publicitário charmoso e sedutor, enquanto ela é uma patricinha mimada insuportável. O nome disso é machismo.

Carta de Marcos é mais um ato de violência contra Emilly

Micheli Nunes
há 6 meses192.5k visualizações
Carta de Marcos é mais um ato de violência contra Emilly
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Marcos Harter, que agrediu a namorada (física e psicologicamente) dentro do Big Brother Brasil e foi indiciado por lesão corporal,  resolveu publicar uma carta aberta para a Emilly no Facebook, que ele dá a entender que é uma despedida, mas na verdade é um poço de vanglória, manipulação, ameaça, chantagem emocional, exposição e cinismo. Com mais de 130 mil reações e quase 40 mil compartilhamentos até agora (menos de 24 horas desde a publicação), a carta nada mais é que mais uma forma que intimidação e violência contra Emilly, que já ouviu gritos, foi encurralada, sofreu beliscões, uma torção no braço e teve sua cabeça  batida no chão repetidas vezes pelo ex-BBB.

Carta de Marcos é mais um ato de violência contra Emilly

"Nunca subestime a habilidade de um homem de fazer você sentir culpa pelos erros dele", Rihanna

O texto é uma narrativa de como o brother conheceu e se apaixonou por Emilly, mas a história vai ficando cada vez mais sombria até terminar com ameaças e jogos psicológicos que só podem ter sido criados por um manipulador frio e inescrupuloso. Ele começa quase poético, mencionando uma série de coisas fofas que Marcos fazia para Emilly, na clara tentativa de se posicionar como o bom moço e ganhar a simpatia do público. "Dei-lhe flores todos os dias, até que a produção pediu para eu não arrancar mais as flores do jardim", diz ele em um trecho. Em outro ele menciona que eles provaram pro país inteiro que "o amor verdadeiro existia".

Marcos chega ao ponto de dizer que não entrou no programa com o objetivo de ganhar dinheiro, mas com uma missão misteriosa, que ele afirma ter descoberto quando passou a conhecer a garota: "Não precisei de muitos dias na casa para entender a minha missão ali. Sensibilizei-me com a sua história e determinei-me a fazer o possível e o impossível para conduzi-la até a grande final", conta, abnegado. 

 O tom começa a mudar quando Marcos passa a se fazer de vítima. "Essa é uma grande demonstração do quanto eu gostava de você e você não percebia.", afirma ele, que passa a descrever defeitos nela: "Os problemas que muitos apontavam em você, Emilly, eu também via. Atitudes de egoísmo, soberba, deslumbramento não passavam despercebidas por mim". 

Ele diz também que o carinho que sentia por ela não "tirou a capacidade de discernir entre o certo e o errado", é quando impõe a sua posição de superioridade, que ele reforça em outros momentos, como quando afirma que ela ainda é "jovem", e fala que se sentia pai dela. É uma maneira clássica de um homem abusivo estabelecer que ele é mais experiente e inteligente, e por consequência a mulher só pode estar errada. Essa hierarquia vai se intensificando, misturada ao cinismo de Marcos, e culmina com chantagem emocional, que ele disfarça de "conselhos".

A culpabilização se intensifica quando ele rotula Emilly de ambiciosa, e sugere que todo o conflito aconteceu porque ela tinha medo que ele ganhasse no lugar dela: "Ao ouvir minha torcida gritar 'É campeão!', você passou a me ver como alguém que eu nunca tinha sido para você: um adversário". Nessa frase extremamente calculada, Marcos consegue ao mesmo tempo colocar a culpa de todas as agressões em Emilly sem ao menos mencionar que a agrediu. Mais tarde, ele quase toca no assunto, quando diz que não contou pra ninguém que ela o chutou e jogou uma bola no rosto dele, ignorando completamente o fato de que ele já a havia machucado diversas vezes e tem o dobro do tamanho dela, e insinua que a Globo ofereceu a ele a opção de denunciá-la por agressão, que ele teria negado.

E é aí que a carta abandona os meandros e fica abertamente abusiva. Marcos começa a insinuar que Emilly o denunciou para a produção longe das câmeras, no confessionário, fato que a própria Rede Globo negou, e diz que ele chegou a gritar, trancado dentro do confessionário, para que ela retirasse as queixas. Na narrativa dele, ela o via como adversário e teria "inventado" as agressões - que por sinal estão registradas em vídeo - apenas para que ele fosse eliminado e ela pudesse ganhar. "Considero essa uma das cenas mais tristes do programa: você acabava de acusar injustamente a pessoa que você dizia que tanto adorava", escreve ele, cínico. E a culpabilização da vítima se mistura em manipulação emocional: "Só não imagina a dimensão da sua ganância.", e "Deus viu sim o que você fez, e, aos poucos, as pessoas vão ver também".

"Saber perdoar é para poucos. Diria que você tem sorte em eu ser um deles", conta ele. E com o histórico, só podemos imaginar o que ele faria se não tivesse esse mágico talento de perdoar. "Mas você realmente não precisa pedir perdão para mim, mas talvez tenha que pedir a todas as pessoas que acreditaram no amor que você dizia sentir por mim", continua a manipulação, que culmina com o golpe mais baixo de todos, quando Marcos menciona a mãe de Emilly, que morreu no começo do ano: "Tem outra pessoa, pela qual você tanto chorou durante o programa, que viu tudo que você fez lá do céu, e para essa eu creio que você também deveria pedir perdão".

É praticamente um roteiro sociopata de manipulação da vítima. Um passo-a-passo didático de terror psicológico. Mesmo com provas de que ele foi violento e abusivo, ele insiste em ignorar tudo o que fez. Age como se Emilly tivesse cometido erros imperdoáveis, Cria todo um conto de fadas para reforçar que é um cara bonzinho e usa isso para vilanizar ainda mais a mulher. Do lado de fora, só podemos esperar que Emilly tenha uma forte rede de apoio para que não seja tão prejudicada pelas palavras desse abusador. 

Estamos com você Emilly. Mexeu com uma, mexeu com todas.

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.