Coluna -Por que precisamos de feminismo?
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Homem feminista ou pró-feminismo?

Micheli Nunes
há 6 meses41.5k visualizações
Homem feminista ou pró-feminismo?
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Dentro dos movimentos feministas existem divergências sobre o papel dos homens nas lutas das mulheres. É praticamente consenso que homens podem e devem apoiar a causa feminista, mas algumas correntes acreditam que homens não têm o direito de se autodenominarem feministas, preferindo o termo "pró-feminismo", enquanto outras incentivam que homens se identifiquem como tal. Ambos lados têm bons argumentos.

Feminismo é a noção de que homens e mulheres devem ter os mesmos direitos sociais, políticos e econômico. É um movimento que fala de igualdade e equidade, o que faz com que algumas pessoas torçam o nariz quando alguém diz que é um movimento somente para mulheres. Porém, dizer que se busca igualdade social não implica que precisamos garantir que 50% do espaço que conquistamos seja preenchido pelos homens, simplesmente porque os homens já gozam de privilégios em todos os outros espaços e movimentos sociais. 

Homens têm diversos privilégios que mulheres não encontram, mesmo dentro do feminismo. É comum, principalmente nas redes sociais, que um homem ganhe muito mais espaço e notoriedade quando fala de um problema sobre o qual mulheres vêm falando há anos, sem serem ouvidas. É importante que dentro do feminismo as mulheres sejam ouvidas, porque por mais que homens sejam aliados, eles nunca saberão o que é ser uma mulher no mundo machista. É importante também criar ambientes seguros para mulheres, que, por motivos de violências de gênero, não se sintam confortáveis com outros homens.

Para algumas feministas, um homem dizer que é pró-feminismo mostra que ele têm a consciência de que aquele lugar não é o dele, e que ele precisa dar um passo atrás para dar a oportunidade para que as mulheres recebam a atenção. É fundamental que mulheres, e não homens, sejam as porta-vozes do feminismo, por uma questão de coerência, representatividade e empoderamento, ou todo o discurso se perde. 

Porém, as mulheres que defendem que homens podem ser feministas argumentam que tudo isso é possível sem que eles precisem se prender ao termo "pró-feminismo". Outro argumento importante é que homens podem fazer uso do seu privilégio na sociedade para levar a mensagem de igualdade onde, por causa do machismo, mulheres ainda não conseguem ser ouvidas. Levando em conta que a palavra "feminista" carrega um enorme estigma, ter homens influentes assumindo essa identidade tem um impacto poderosíssimo nesse aspecto.

No fim das contas, a discussão sobre a terminologia é secundária à discussão do papel prático dos homens no movimento. Não adianta se dizer feminista ou pró-feminismo e se sentir no direito de falar por cima de outras mulheres. Ou achar que feminismo é um assunto para se falar apenas quando rodeado de mulheres e nunca para outros homens. Se o homem quer ser um aliado, deve aproveitar de seu privilégio para combater o machismo no seu ambiente. Ações como repreender piadas machistas, corrigir quando amigos usam termos sexistas, ouvir quando mulheres fazem reclamações e denúncias e acreditar nelas são um bom começo para provar que você é, de fato, um aliado.

Acusação 'falsa' de estupro pode virar crime hediondo!

Micheli Nunes
há 6 meses1.3k visualizações
Acusação 'falsa' de estupro pode virar crime hediondo!
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Uma sugestão legislativa que propõe que "acusações falsas de estupro" se tornem crime hediondo está aberta para a opinião pública neste momento na página do Senado. A votação está apertada, mas no momento o "sim" está vencendo. Se aprovada, a sugestão vai receber o parecer de uma série de comissões e pode virar um projeto de lei, que a partir daí seria votado em plenário e dependendo da tramitação pode virar de fato lei. Então ainda existe um longo caminho pela frente até que isso seja realmente palpável, mas já temos sérios motivos para preocupação.

A ideia de que essa lei seria necessária sugere que falsas acusações de estupro acontecem o tempo inteiro, e isso é a opinião de 20 mil pessoas - já que é preciso este número de votos para que uma pauta vire uma Sugestão. Mas é uma falácia. A verdade é que, segundo diversos estudos no mundo todo, falsas acusações de estupro são raras. Estima-se que apenas 2-8% dos casos são "infundados", ou seja, não apresentaram provas o suficiente, o que não significa exatamente que sejam falsos. E a prevalência de falsas acusações nesses casos não é maior do que a de qualquer outro crime. Ou seja, não é especialmente relevante.

No Brasil, o Código Penal já pune a denúncia caluniosa de qualquer crime com pena de até oito anos de reclusão (Lei 2.848/1940). A Sugestão solicita que a pena máxima suba para 10 anos quando a acusação falsa envolver o crime de estupro, com o argumento de que os homens que são vítimas da falsa acusação têm suas vidas destruídas, podendo perder o emprego, ser linchados e presos injustamente. Mas  estatisticamente isso também não é verdade. 

Segundo a ONG americana Rainn (Rede Nacional de Assistência a Vítimas de Estupro), apenas 31% dos estupros são reportados e só 5% dos acusados serão de fatos levados para a delegacia para depoimento. E apenas 0.6% dos estupradores de fato vão cumprir pena. É aterrador.

Acusação 'falsa' de estupro pode virar crime hediondo!

Pode-se alegar que mesmo que não vá para a cadeia, o homem que foi acusado pode ter a vida destruída. A verdade é o oposto. Temos uma série de exemplos de homens que foram acusados de assédio sexual ou estupro e estão filmes e fortes sem em suas vidas e carreiras. Casey Affleck foi acusado de assédio duas vezes e ganhou o Oscar no ano passado. Donald Trump também recebeu diversas acusações e até foi pego em uma gravação afirmando que poderia fazer o que quiser com mulheres por ser famoso, inclusive agarrá-las pela vagina. Ele foi eleito presidente dos Estados Unidos.

A vida das mulheres que acusam, no entanto, é quase sempre prejudicada. São ameaçadas, chamadas de loucas, interesseiras, vadias, mentirosas. O passado delas é escrutinado. As pessoas tentam encontrar qualquer motivo para duvidar delas ou, no melhor dos cenários, colocar a culpa nelas. A mulher do Victor, da dupla Victor e Leo, o acusou de agressão e foi ameaçada até retirar a queixa. A violência foi comprovado pela polícia através de imagens de segurança, mas ela continua sendo xingada nas redes sociais e segue reclusa, fugindo da imprensa, enquanto ele responde em liberdade, continua ativo nas redes sociais e teve o privilégio de dizer que escolheu ser afastado do The Voice Kids para "preservar sua imagem".

As coisas de fato estão mudando aos poucos. Alguns acusados chegam a perder alguns privilégios. O jornalista Bill O'Reilly foi acusado de assédio sexual por diversas mulheres nos últimos anos e a Fox, depois de pagar milhões em acordos, o afastou de seu programa diário apenas ontem. José Mayer foi desconsiderado para a próxima novela depois de ter admitido que assediou uma figurinista. Nenhum deles, no entanto, está na cadeia. Imagine os que não apresentam provas o suficiente ou não têm relevância na mídia.

Um agravante é que a maior parte dos estupros não deixa provas consistentes. Mesmo com evidências de violência ou DNA de fluidos corporais, o acusador pode alegar que o sexo, apesar de violento, foi consensual. No fim acaba sendo uma questão de "a palavra dele contra a dela". E já sabemos quem a sociedade vai defender. É por isso que a maioria dos casos não é nem reportado à polícia. Imagina se uma lei que torna acusações "falsas" em crime hediondo é aprovada. O número de denúncias poderia cair drasticamente, e mulheres que sofreram estupro ficariam ainda mais sozinhas, em um sistema que, mesmo do jeito que está, já as deixa na mão.

Se você também não concorda com isso, por favor, entre na página do Senado e vote CONTRA:

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.