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Não, a Emily não é "trouxa"

Micheli Nunes
há 6 meses1.8k visualizações
Não, a Emily não é "trouxa"
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Vivian e Ieda consolam Emily após Marcos ser expulso do programa

O caso de relacionamento abusivo no Big Brother Brasil escalou para agressões físicas e culminou ontem com a expulsão de Marcos da casa. O participante foi filmado em diversas ocasiões agredindo física e psicologicamente sua namorada, Emily, e depois de muita pressão do público e de investigação criminal, a Globo cedeu e o tirou da competição. 

Quando sua eliminação foi anunciada, Emily chorou bastante, demonstrou culpa, disse que estava acertando as coisas com ele e que não queria que aquilo acontecesse. Ela foi consolada pelas duas outras finalistas do programa, que asseguraram que ela não tinha culpa nenhuma. A reação na internet foi dividida. Muita gente aprovou a eliminação, mas a hashtag #ForçaMarcos acabou nos TTs do Twitter. Uma enorme corrente de pessoas também criticou a participante, dizendo que ela "se deixou" ser abusada, chamando-a de "tonta" e "trouxa".

Além de uma tremenda falta de empatia, esse tipo de comentário mostra que as pessoas não entendem o conceito de relacionamento abusivo. Nossa sociedade tende sempre a responsabilizar as mulheres por todas as pessoas ao seu redor e a culpá-las pelas violências que elas sofrem. No caso do programa, é possível ver na internet vários vídeos em que Marcos tenta controlar a namorada. Ele exige dela certos comportamentos, a encurrala, a agride verbalmente, a segura pelo braço, a belisca. Ele chegou, inclusive a prendê-la em um mata-leão e, em uma cena chocante, a jogá-la no chão e a bater a cabeça dela contra o piso. Então por que ela ainda continua com ele e chega até a defendê-lo? 

A resposta não é simples. O abuso muitas vezes vem atrelado a dependência financeira, e por isso muitas mulheres não abandonam os parceiros violentos, mas em muitos casos a mulher é financeiramente independente, e mesmo assim não consegue sair da situação de agressão. Tudo isso faz parte da dinâmica imposta pelo abusador. Parte do abuso é justamente estabelecer uma hierarquia e dilapidar a autoestima da mulher, fazendo com que ela se sinta presa a ele.

Em relacionamentos abusivos, a vítima é levada a acreditar que o abusador está com a razão quando a critica e a controla. Ela acha que está errada e é inferior, e pensa que ficaria sozinha se saísse da relação. E quando a agressão se torna física, ela pode até entender que não merecia aquilo e temer por sua vida, mas a violência é quase sempre seguida por um pedido de desculpas e uma "fase romântica", em que a relação parece perfeita. Até a próxima violência acontecer.  

Não, a Emily não é "trouxa"

O abusador não xinga e bate o tempo todo. Ele é gentil, romântico, engraçado, protetor e inteligente na maior parte do tempo. Os sentimentos acabam se misturando e nem sempre é fácil distinguí-los. A mulher o ama, se preocupa com ele, sente culpa e tem medo dele. Quando Emily fala "eu não queria que ele saísse", ela demonstra a preocupação, mas também o medo. O que ele faria se pensasse que foi responsabilidade dela? Se debaixo de 200 câmeras ele a agredia fisicamente, imagina lá fora, sem ninguém olhando.

Quando a mulher se vê presa nesse ciclo, é muito difícil admitir que ela é vítima de violência, porque o rótulo vem com um estigma e com muita vergonha. Vítimas são vistas como "trouxas", "mulheres de malandro". E às vezes as pessoas até justificam as ações do abusador. Por causa disso, muitas mulheres aceitam uma outra narrativa para tentar explicar o abuso. "Ele estourou, mas não é assim". "Ele não queria me machucar". "Eu também bati, eu provoquei, é recíproco". "Ele é uma pessoa boa". Porque nessas circunstâncias é mais fácil explicar por que ela ainda está ali.

Não é fácil reagir ao abuso. Se é no começo, a mulher corre o risco de ser chamada de exagerada, de desleal, de louca. Ela duvida de si, ela dá a ele o benefício da dúvida. Depois que a coisa escala, a questão passa a ser "por que não reagi antes? agora é tarde". Então antes de chamar a Emily de trouxa, vamos exercitar a empatia. Aquela situação é extremamente comum em diversos relacionamentos. É só olhar a hashtag #EuViviUmRelacionamentoAbusivo nas redes sociais. Poderia ser você. 

Vamos analisar as respostas de José Mayer?

Micheli Nunes
há 6 meses4.4k visualizações
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José Mayer foi denunciado por assédio sexual, por uma figurinista da Globo. No blog #Agoraéquesãoelas, da Folha, Su Tonani narra vários episódios perturbadores em que o ator a constrangeu e intimidou verbalmente, que foram escalando até culminarem com ele literalmente enfiando a mão no meio das pernas dela, no maior estilo Trump "grab them by the pussy". 

Depois disso, o ator se manifestou duas vezes. Na primeira, em um comunicado à Folha, ele meio que negou o ocorrido, mas não diretamente, e deu uma explicação um tanto metalinguística que não faz sentido nenhum. E com toda a minha experiência em PR e minha expertise em criticar pedidos de desculpas meia-boca de homens públicos machistas, não resisti e decidi destrinchar tudo o que Mayer declarou.

Respeito muito as mulheres, meus companheiros e o meu ambiente de trabalho e peço a todos que não misturem ficção com realidade - Já começa com a condescendência, insinuando que a acusadora estaria confundindo realidade com ficção. O clássico "ela que é louca". 

As palavras e atitudes que me atribuíram são próprias do machismo e da misoginia do personagem Tião Bezerra, não são minhas! - Reparem que em nenhum momento ele de fato diz que não cometeu o assédio. E ele apenas se refere às palavras, não fazendo nenhuma referência à acusação de ter tocado Su. O ator também fala que as atitudes não são dele, mas do personagem. O que isso significa? Aconteceu ou não aconteceu? Ele é ator do Método e permanece no personagem também nos bastidores? Essa é a pior desculpa desde aquela antiga comunidade do Orkut chamada "Não fui eu, foi o meu Eu Lírico"

Nesses 49 anos trabalhando como ator sempre busquei e encontrei respeito e confiança em todos que trabalham comigo" - De novo, o que diabos significa isso?  "Buscar e encontrar respeito e confiança" quer dizer o que? 

Vamos analisar as respostas de José Mayer?

Daí, depois de uma mobilização enorme de mulheres dentro da Globo, Mayer soltou sua segunda resposta, agora um pedido de desculpas, onde ainda não admite o que fez. Respirem fundo que este é mais longo.

Eu errei. Errei no que fiz, no que falei, e no que pensava. - Tá, mas o que você fez? Está admitindo o que, exatamente? Assediou verbalmente? Intimidou? Enfiou a mão no meio das pernas?

A atitude correta é pedir desculpas. Mas isso só não basta. É preciso um reconhecimento público que faço agora. - É preciso também responder na justiça, afinal assédio sexual é crime, tipificado em lei e com pena de prisão.

Mesmo não tendo tido a intenção de ofender, agredir ou desrespeitar, admito que minhas brincadeiras de cunho machista ultrapassaram os limites do respeito com que devo tratar minhas colegas. Sou responsável pelo que faço. - Em que planeta uma pessoa fala “fico olhando a sua bundinha e imaginando seu peitinho” e “você nunca vai dar para mim?” sem a intenção de ofender ou desrespeitar? Onde uma pessoa enfia a mão na genitália da outra sem consentimento e não tem intenção de agredir? Como você tem a pachorra de chamar essas coisas de BRINCADEIRAS? E demorou até quase os 70 anos pra você perceber que é responsável pelo que faz?

Tenho amigas, tenho mulher e filha, e asseguro que de forma alguma tenho a intenção de tratar qualquer mulher com desrespeito; não me sinto superior a ninguém, não sou. - "Tenho mulher e filha" é o novo "até tenho amigos negros". Ter mulheres ao seu redor não significa que você as respeita. A maioria dos assédios acontece em casa, então seu argumento é inválido.   

Tristemente, sou sim fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas. Não podem. Não são. - E aqui chegamos à justificativa. Porque não basta dizer que errou, tem que explicar por que errou. E por mais que sua geração seja realmente muito machista, a maioria dos caras da sua idade não sai por aí agarrando mulheres pela vagina. Mais um argumento inválido. E esse ato falho e chamar o que fez de brincadeira, e logo depois dizer que abuso não pode ser disfarçado de brincadeira mostra que quem escreveu o texto não estava muito atendo.

Aprendi nos últimos dias o que levei 60 anos sem aprender. O mundo mudou. E isso é bom. Eu preciso e quero mudar junto com ele. Este é o meu exercício. Este é o meu compromisso. Isso é o que eu aprendi. - Precisou uma enorme exposição pública para perceber que era errado? Porque não é a primeira acusação. Além da própria Su, que diz que vem fazendo denúncias há meses, Camila Pitanga e Letícia Sabatella também falaram publicamente que já reclamaram do ator. Agora só porque o público ficou sabendo a lição foi aprendida? E esse "o mundo mudou e isso é bom" chega é risível. Bom pra nós, mulheres, né? porque pra quem tá acostumado a assediar impunemente não tá lá muito satisfeito.

A única coisa que posso pedir a Susllen, às minhas colegas e a toda a sociedade é o entendimento deste meu movimento de mudança. - Você não tem direito de pedir que Susllen e as outras mulheres agredidas acreditem que você mudou. Isso precisa ser feito com atitudes, e a primeira dela seria assumir o que você fez com palavras, e não com um pedido de desculpas genérico.

Espero que este meu reconhecimento público sirva para alertar a tantas pessoas da mesma geração que eu, aos que pensavam da mesma forma que eu, aos que agiam da mesma forma que eu, que os leve a refletir e os incentive também a mudar. - Todas nós esperamos, Mayer. E se eles não vão parar por simples DECÊNCIA, que parem por temerem a exposição.

Eu estou vivendo a dolorosa necessidade desta mudança. Dolorosa, mas necessária. O que posso assegurar é que o José Mayer, homem, ator, pai, filho, marido, colega que surge hoje é, sem dúvida, muito melhor. - Tirando seus bróders, ninguém está com pena da sua dor, então nos poupe. E ninguém compra esse papo de "ontem eu neguei tudo, mas hoje entendi e evoluí como ser humano". Sorry, not sorry.

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.