Coluna: Por que precisamos de feminismo?
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Não foi bem isso que a Juliana Paes falou sobre feminismo

Micheli Nunes
há 7 meses4.2k visualizações
Não foi bem isso que a Juliana Paes falou sobre feminismo
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Desde que o feminismo começou a ganhar o palco mainstream, a mídia tem um fetiche insaciável de questionar mulheres famosas sobre o feminismo. E não contentes em exigir delas um posicionamento sobre um assunto divisivo e complexo, eles geralmente tiram do contexto a parte mais controversa da resposta e colocam no título. Isso quando não inventam uma opinião que elas não deram. E isso aconteceu com a Juliana Paes no último sábado. 

A atriz, que vai interpretar Bibi, uma "primeira-dama do crime" na sua próxima novela, falava com a Veja - uma revista conservadora - sobre o poder da personagem feminina. Um prato cheio para engatar no assunto "polêmico". Não sabemos que tipo de perguntas a reportagem da Veja fez à Juliana, mas a atriz disse que "existe uma linha do feminismo com a qual não concordo muito", e seguiu tecendo alguns comentários sobre o movimento. Mas em nenhum comento Juliana usou nenhuma variação palavra "excesso", quem fez isso foi a reportagem da Veja. E o que a mídia fez?

Não foi bem isso que a Juliana Paes falou sobre feminismo

Colocaram "excessos do feminismo" dentro das aspas da atriz, no título, fazendo com que parecesse que ela disse a frase. E isso veio de veículos que são considerados sérios, como o F5, da Folha, e o HuffingtonPost. O uso da palavra "excesso", quando "equívoco" serviria perfeitamente bem para o mesmo propósito, é ainda mais sintomático, porque é um substantivo muito usado para criticar mulheres, que são cronicamente acusadas de serem "exageradas" e "histéricas".

A coisa virou um telefone sem fio tão grande que já tinha sites com menor credibilidade afirmando que Juliana Paes disse que não era feminista, quando ela disse exatamente o oposto na entrevista para a Veja: "Sou uma feminista de saia, sutiã, salto alto e batom vermelho".  E como a maioria das pessoas lê apenas os títulos e a internet é cheia de debates acalorados e rasos - às vezes até dentro dos movimentos feministas - a coisa pegou fogo.  E o fato da atriz ser porta-voz da ONU Mulheres no Brasil só acalorou os ânimos. Mas pouca gente de fato discutiu o que foi dito na entrevista, focando o debate apenas no fato de mulheres famosas ainda falarem publicamente contra o feminismo. 

Apesar da fala de Juliana ter equívocos, que vamos discutir abaixo, ela não criticou "excessos do feminismo". Juliana disse que existe uma linha do feminismo com a qual ela não concorda muito, o que é perfeitamente aceitável. O feminismo tem diversas linhas, algumas mais liberais, outras mais radicais, que inclusive discordam completamente sobre assuntos como prostituição, transexualidade e exposição da sexualidade feminina. Se você se envolve com os movimentos feministas a ponto de discutir esses temas, fatalmente  vai discordar de uma linha ou de outra. 

O problema é que Juliana claramente não se aprofundou nesses assuntos, o que ela própria entrega em uma entrevista mais recente ao UOL, na qual disse ser uma feminista liberal: "Li uma coisa esclarecedora que não tem nem a ver com a minha entrevista em si, mas é um termo que se chama equidade. Me considero uma feminista liberal, mas quando você fala de igualdade o termo apropriado é equidade, porque acho que a igualdade não existe e viva as diferenças." 

Equidade é o equilíbrio de direitos de forma justa, que respeita as diferenças entre as partes de modo a nivelar uma relação desigual. É um termo muito usado no feminismo, e se Juliana só ouviu falar dele agora, significa que não esteve muito a par do movimento. Ela diz que "a ponderação foi muito mais comportamental do que filosófica", o que explica muito. Juliana entende que homens não são iguais às mulheres dentro da nossa cultura e não vê isso como uma coisa negativa. Foi uma dedução empírica, sem embasamento algum, que gerou algumas noções erradas.

Mas vamos aos verdadeiros problemas nas falas da atriz:

"A sensibilidade, o lúdico, o caminho da ponderação, o afeto nas relações de trabalho — tudo que faz parte do universo feminino e matriarcal deve ser respeitado"
Juliana Paes - Veja

Essa frase supõe que sensibilidade, ludicismo, ponderação e afeto são características inerentemente femininas, o que não é verdade, e supõe também que o feminismo rejeita essas características, o que também é falso. E por mais que existam correntes feministas que divergem entre si, não existe nenhuma linha feminista que desrespeite o conceito de maternidade ou do universo feminino.

“Não quero queimar sutiãs. Gosto de sutiãs! Não quero quebrar saltos de sapato em busca de liberdade"
Juliana Paes - Veja 

Por mais que "queimar sutiãs" tenha se tornado um símbolo feminista, isso aconteceu por um mal-entendido. Foi uma confusão da imprensa americana que misturou dois protestos em 1968, o de jovens do movimento estudantil queimando carteirinhas de estudante, com o de feministas que protestavam contra o Miss América, expondo peças que as modelos eram obrigadas a usar, entre elas meia-calça, salto alto e... sutiãs, onde nada foi queimado. 

"Gosto de me enfeitar, e nós, mulheres, não fazemos isso para o macho. Fazemos porque dá prazer cuidar de si e cuidar do outro. Sou uma feminista de saia, sutiã, salto alto e batom vermelho.”
Juliana Paes - Veja

Mesmo que algumas linhas do feminismo problematizem o uso de salto alto, maquiagem e outras convenções do universo de beleza - como depilação e cirurgias plásticas - classificando isso tudo como uma imposição cultural machista, e não uma verdadeira escolha, nenhuma feminista quer impor regras do que outra mulher pode ou não fazer com o próprio corpo. 

Juliana não é especial por ser feminista de saia, sutiã, salto algo e batom vermelho. A maioria das feministas, mesmo entre as radicais, também usa uma ou outra dessas coisas eventualmente. Mas a necessidade de validar seu feminismo, misturada a uma certa ignorância propagada pelo ativismo que se baseia exclusivamente em memes, prints e lacração, cria esse tipo de engano com uma enorme frequência. É muito comum, mesmo em mulheres que se dizem feministas, a propagação de ideias erradas sobre a causa. E quando isso acontece, é muito mais construtivo dialogar do que expor e apontar o dedo.

Emma Watson expõe o mito do 'pós-feminismo'

Micheli Nunes
há 7 meses603 visualizações

Na campanha de divulgação de A Bela e a Fera, Emma Watson deu uma entrevista para o Buzzfeed, em uma ação para incentivar a adoção de gatinhos. Entre as perguntas, a atriz e ativista tocou em um assunto importante, o mito da "sociedade pós-feminista" e como isso afeta a autoestima das mulheres.

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Emma Watson expõe o mito do 'pós-feminismo'

Nós pensamos que vivemos em uma sociedade pós feminista

Emma Watson expõe o mito do 'pós-feminismo'

E não vivemos

Emma Watson expõe o mito do 'pós-feminismo'

Que podemos votar, que está tudo bem

Emma Watson expõe o mito do 'pós-feminismo'

Então não precisaríamos mais de feminismo

Emma Watson expõe o mito do 'pós-feminismo'

E eu acho que isso é incrivelmente desconcertante

Emma Watson expõe o mito do 'pós-feminismo'

Porque daí, quando jovens mulheres encontram o mundo

Emma Watson expõe o mito do 'pós-feminismo'

E se dão conta - "Ué, por que eu não recebo o mesmo salário que os homens?"

Emma Watson expõe o mito do 'pós-feminismo'

"Por que sou tratada de maneira diferente?"

Emma Watson expõe o mito do 'pós-feminismo'

E elas começam a se culpar, porque elas não entendem

Emma Watson expõe o mito do 'pós-feminismo'

Que são parte de um padrão histórico

É um conceito muito simples do qual muitas pessoas não se dão conta. Dizer que não precisamos de feminismo é uma mentira, porque o machismo se manifesta em toda parte, principalmente no mercado de trabalho e nos relacionamentos. E quando você diz a uma mulher que machismo não existe, e ela é prejudicada por um sistema machista, ela tende a achar que é culpa dela. 

Mesmo que o feminismo de Emma Watson não seja a prova de críticas - e não é - é essencial ter uma pessoa com tamanha visibilidade aproveitando sua posição para trazer esses assuntos à tona. É justamente ouvindo as palavras da atriz, que muitas meninas terão o primeiro contato com o feminismo e poderão começar a se fortalecer para enfrentar uma sociedade que faz de tudo para prejudicá-las.

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.