Coluna -Por que precisamos de feminismo?
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O carro 'BRUTALMENTE LINDO' e a masculinidade de cristal na publicidade

Micheli Nunes
há 4 meses7.5k visualizações
O carro 'BRUTALMENTE LINDO' e a masculinidade de cristal na publicidade
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O reforço exagerado da masculinidade heterossexual em campanhas publicitárias de produtos aleatórios vem chamando a atenção há algum tempo. E a propaganda para o novo Fiat Toro resumiu tudo isso perfeitamente com seu impagável slogan: "brutalmente lindo". 

A peça, que vai ao ar incessantemente em canais esportivos na TV, define o carro como bruto e lindo, além de usar palavras como robustez, tecnologia e força. Tudo isso para deixar claro que é um carro DE MACHO. Porque tudo bem dizer que o carro é lindo, mas antes é melhor reforçar a masculinidade. Vai que as pessoas pensam que o carro é para mulheres ou para gays, não é mesmo?

O fenômeno não é exatamente novo. Em 2013 a Dove lançou o shampoo Dove Men Care e a campanha tinha um tom irônico, tirando um sarro de homens que morrem de medo de parecerem menos masculinos e, ao mesmo tempo, vendendo pra eles um produto cheio de reforços de masculinidade. Apensar de terem uma fórmula similar e o exato mesmo propósito, o shampoo Dove para homens é cinza e tem um "+" antes da palavra care. Tudo para que os consumidores se sintam seguros de que não vão virar mulheres lavando o cabelo.

Nos últimos anos essa linha de raciocínio tem dominado a publicidade voltada para homens, principalmente para produtos de higiene e beleza. A recente campanha da boticário para sua "linha men" também escolheu um caminho mais irônico - mas nem tanto - com o slogan "para o você que existe no ogro". A peça é estrelada por homens barbados, musculosos, fazendo cara de mau e praticando atividades vistas como masculinas, como cortar lenha, lutar boxe e acender um palito de fósforo na barba (?). Tudo para vender perfume, loção para barba e desodorantes.

Isso acontece porque os homens simplesmente não compram produtos associados à feminilidade. Desde que a publicidade descobriu que o truque de separar os produtos considerados neutros por gênero aumenta - e muito - as vendas, as marcas também repararam que

é mais fácil fazer com que mulheres comprem um produto masculino do que convencer homens a fazerem a troca

. A Dove, quando lançou shampoo e condicionador em frascos cinzas rotulados com FOR MEN, aumentou suas vendas em milhões no mundo inteiro. 

Mas essa repulsa pelo feminino vem sempre acompanhada com uma certa fascinação. Fenômenos como a "metrossexualidade" e mais recentemente a "lumbersexualidade", só provam que os homens, no fundo, querem se render à vaidade, mas não suportam a ideia de parecerem menos masculinos. Isso é fruto de uma cultura de masculinidade tóxica, que impõe um modelo tão ridículo do que é "ser homem", que qualquer insinuação pode colocar tudo em risco. Afinal, seu carro pode até ser bonito, contanto que também seja BRUTO. 

O relacionamento entre a Mulher Maravilha e Steve Trevor é revolucionário

Micheli Nunes
há 4 meses26.7k visualizações
O relacionamento entre a Mulher Maravilha e Steve Trevor é revolucionário
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O TEXTO CONTÉM SPOILERS DO FILME MULHER MARAVILHA

Como a primeira adaptação cinematográfica da heroína e o primeiro filme de super-heróis feito por uma diretora, Mulher Maravilha já é um sucesso em diversos níveis, mas algumas pessoas levantaram críticas sobre o roteiro que fariam o filme não ser "tão feminista assim". Porém, o filme não tinha como objetivo ser um manifesto ideal do feminismo. Esperar isso dele só porque mulheres estão no centro é injusto, principalmente porque ninguém julga filmes feitos e protagonizados por homens nos mesmos patamares. É só mais uma cobrança para as mulheres.

Muitas pessoas se incomodaram com o fato da personagem se envolver "com o primeiro cara que ela encontrou" e com a influência que ele tem na narrativa dela. Não enxerguei essa problemática, mas também não culpo quem ficou na defensiva, porque foram anos de uma PÉSSIMA representatividade de relacionamentos no cinema, na cultura pop e principalmente em adaptações de quadrinhos. E sempre que uma protagonista forte é colocada com um par romântico, ficamos de sobrancelhas arqueadas. Mas eu vou além. Não apenas discordo que haja um problema nesse aspecto do filme, como considero o relacionamento de Diana Prince com Steve Trevor revolucionário. 

Em longas com protagonistas masculinos, principalmente de ação e aventura, mulheres que são interesse romântico estão ali como recurso narrativo para os protagonistas. Elas praticamente nunca têm um arco, representam só a perspectiva emocional e são constantemente postas em perigo para estimular o heroísmo do personagem principal. E isso não é o que acontece em Mulher Maravilha. Steve tem seu próprio desenvolvimento e um arco completo. Ele é importante na narrativa da protagonista, mas tem um propósito outro e não existe apenas em função dela. Ou seja, Mulher Maravilha não inverteu a fórmula, ela subverteu a fórmula.

Diferentemente do que a primeira impressão sugere, Diana não se jogou nos braços do primeiro homem que ela viu. Quando conhece Steven, ela é amigável e curiosa e enxerga nele a possibilidade de ajuda, mas não demonstra nenhum interesse que passe disso. Eles fazem um acordo, são parceiros e o relacionamento deles é baseado apenas nisso até quase o fim do segundo ato.  O romance só aparece quando eles dançam na neve, e isso é resolvido ali mesmo, sem drama ou enrolação.

Eles dançam, se beijam e passam a noite juntos em uma tomada que é dominada por ela. É o quarto de Diana, a fotografia prioriza ela. Ela o seduz, ela está segura, ela está pegando ele, e não o oposto. Aliás, isso é recorrente no longa. A dinâmica dos dois é firmada na segurança dela e na insegurança dele - "sou acima da média", repete Steve o tempo todo. E a cena se resume a um beijo, com a insinuação de que eles fizeram sexo, mas sem a necessidade de longas tomadas pelo corpo semi-nu dos dois. E depois disso, o relacionamento deles continua exatamente o mesmo, de respeito e trabalho em equipe, sem drama ou inseguranças.

Steven respeita Diana de cara. Na sequência de ação na praia, o impulso dele é protegê-la, mas logo ele enxerga que está diante de mulheres que sabem se virar muito bem e não questiona isso em nenhum outro momento. A cena do escudo, quando Diana os ajuda a retomar a vila ocupada pelos alemães, é a prova disso. Ele viu Antíope realizando o golpe na batalha e recria as circunstâncias para que Diana reproduza o movimento. Ali, ele literalmente serve de suporte, impulsionando a Mulher Maravilha para alcançar seu potencial. Quando ele tenta dissuadí-la de fazer algo é por questões estratégicas, porque ele tem muito mais conhecimento sobre aquela guerra e dos seres humanos do que ela, e sempre faz isso com diálogo.

Mas além de tudo isso, o ápice do relacionamento dos dois é quando Diana mata o general alemão, acreditando tratar-se de Ares, e ao perceber que a guerra não acaba, mergulha em uma profunda decepção com os humanos. É aí que Steve, que apoiou a missão de Diana mesmo não acreditando 100% na teoria de que a guerra era culpa de Ares, precisa inspirá-la. Ele reconhece que é humano e falho, e que não merece que Diana lute com ele e por ele, mas argumenta que não é o que merecemos, mas o que você acredita que importa. Ele reconhece nela a salvação e entende que precisa dela, mas quando ela não cede, ele segue sozinho, respeitando a decisão dela. 

Eu tive que rever o filme para realmente confirmar isso, mas o casal tem apenas dois momentos de romance: quando eles se beijam e quando Steven se despede dela, prestes a se sacrificar. São momentos tão breves, que se fossem cortados não fariam tanta diferença na  trama. Mas a impressão de que Steve define a história Diana ficou impregnada porque em um voice over, a personagem diz que o amor dele a inspirou. O problema é que as pessoa interpretaram isso como o amor romântico dele por ela, quando claramente não é o caso. O que inspirou Diana foi a capacidade de Steve de enxergar que o ser humano é falho, mas colocar a sua crença em um mundo melhor em primeiro lugar, e entregar sua vida para salvar a vida de outros. Foi esse o amor que inspirou a heroína. E isso é muito digno.

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.