Coluna: Por que precisamos de feminismo?
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O ponto cego de Washington Olivetto

Micheli Nunes
há 3 meses16.1k visualizações
O ponto cego de Washington Olivetto
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A infame entrevista de Washington Olivetto para a BBC é um claro exemplo de um ponto cego em uma mente brilhante. Apesar das dezenas de prêmios e da genialidade, o cérebro de Olivetto não tem as ferramentas para se colocar no lugar de uma mulher e enxergá-la num contexto de igualdade. Aos 65 anos, o publicitário desenvolveu seu modelo de mundo numa época em que os papéis de gênero eram muito mais conservadores, e por mais que ele admita a mudança, não consegue enxergá-la como uma evolução, apenas como uma performance passageira. Para ele, esses papéis de gênero estão gravados em pedra, e observar como sua mente funciona ajuda e entender por que o mercado publicitário ainda é tão conservador.

Partindo de um raciocínio muito acertado, o de que campanhas devem ser oportunas, e não oportunistas, Olivetto desanda ao tentar dar exemplos do que ele considerou "empoderador" em seu trabalho. "Quando fiz o Garoto Bombril, em 1978, tinha detectado que as mulheres estavam cansadas de serem tratadas como idiotas pela propaganda dos produtos de limpeza, e que a presença de um homem seria surpreendente. Se ele fosse doce e delicado, melhor ainda", diz Olivetto, que nesse ponto parece interpretar empoderamento como um homem falando suavemente com uma mulher.

Que o Garoto Bombril foi um enorme sucesso, isso é indiscutível, mas o racional que Olivetto explica na entrevista vai de encontro ao que colocou em prática na campanha. Ele começa com a premissa de que mulheres não querem ser tratadas como idiotas, mas coloca um homem falando com elas como quem fala com uma criança. E se ainda hoje a ideia de que a limpeza da casa, e por consequência a compra dos produtos de limpeza, são tarefas "da mulher", não dá para cobrar outro posicionamento dos anos 70. Mas em 2017 citar esse exemplo como empoderamento é simplesmente incompreensível.

O ponto cego de Washington Olivetto

Outro case absurdo que Olivetto lembra como campanha empoderadora é a Valisere Primeiro Sutiã, de 1987, que também ganhou prêmios no mundo todo, mas que além de não trazer nenhum empoderamento, envelheceu extremamente mal. As fotos da campanha mostram uma menina pré-pubescente de lingerie, abraçada a uma boneca, o que hoje seria impensável, mas o vídeo é ainda mais perturbador, com a clara sexualização de uma menina que deve ter entre 12 e 14 anos.

A narrativa começa com a atriz observando, invejosa, outras adolescentes seminuas. Ela também aparece com as costas nuas e acariciando os seios sobre o sutiã. No fim do vídeo, em seu uniforme escolar, com o sutiã visível por baixo da camiseta, a garota é assediada na rua por um ator mais velho. Ela chega a esconder o peito com seu caderno, mas depois sorri, satisfeita. A ideia que a campanha passa é que o desejo da menina de ter um sutiã surge da vontade de se tornar sexualmente viável para os homens. É claramente uma convenção social, que ela fica devendo ao se comparar com as amigas, e passa um subtexto pedófilo que deixa tudo muito difícil de assistir hoje.

Assim como no caso do Bombril, a época em que isso foi concebido é um atenuante. Porém, vender a campanha como empoderadora não cola nem no contexto da época, muito menos hoje. Não é empoderadora a ideia de invejar outras mulheres ou desejar o assédio masculino. Não é empoderador um homem adulto falando com mulheres com voz de criança. Empoderamento é dar às mulheres informações, incentivos e ferramentas para que elas possam abrir seus próprios caminhos rumo à equidade. Tudo que Olivetto faz nessas campanhas é reforçar ideias opressoras (e perigosas) de gênero.

Mas é quando abandona as pretensões de empoderamento que Olivetto mostra como realmente enxerga uma mulher, com a infeliz piada do Porsche, que ele acredita ser uma campanha que conquistaria os homens e não desagradaria as mulheres. Ele diz que não é um conceito ultrapassado, apenas uma questão de "target". Para ele, é só colocar o vídeo nos cinemas, onde só  homens veriam. "Nas revistas femininas você faz o anúncio do Porsche conversível, com uma linda mulher de cabelos esvoaçantes e o título 'um homem realmente interessante te dá de presente um secador de cabelos como esse'", explica o publicitário. 

Além de toda a problemática em relacionar o homem ao poder de compra e a mulher à vaidade, a descarada comparação de uma mulher a um objeto é um conceito totalmente oposto ao empoderamento feminino. E é tão clichê que já foi executada até na ficção. Na série Mad Men, Don Draper apresenta uma campanha que compara um Jaguar a uma mulher atraente, e faz isso de maneira muito menos grosseira que Olivetto, mas não deixa de ser extremamente machista. E a série, que se passa na década de 60, não falha em apontar esse sexismo em uma montagem estarrecedora de Joan precisando fazer sexo com um executivo em troca da aprovação da campanha, enquanto Don faz o pitching. 

Hoje, com comerciais que de fato entendem o significado de empoderamento feminino, como a "Fight Like a Girl", da Always, e marcas revendo suas falhas passadas, como a Skol, ganhando prêmios e reconhecimento mundial, fica claro que o domínio do mundo publicitário por homens brancos conservadores como Olivetto está caminhando para o precipício. Em tempos de redes sociais, quem pensa que "o papel do consumidor é consumir" soa como uma criança birrenta, gritando com os dedos nos ouvidos. Olivetto não tem salvação, mas isso não é um problema grave, porque seu lugar não é no futuro.

Anita Sarkeesian e a misoginia online no level HARD

Micheli Nunes
há 3 meses7.7k visualizações
Anita Sarkeesian e a misoginia online no level HARD
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Se você é uma mulher na internet, especialmente se fala abertamente sobre feminismo , já deve ter sofrido ataques machistas e misóginos. Infelizmente é uma coisa comum. Porém, o nível de misoginia com o qual Anita Sarkeesian convive diariamente não tem precedentes. De difamação pública a ameaças de estupro e morte (dirigida a elas e a pessoas relacionadas a ela), Anita já experimentou de tudo. Porém, nas últimas semanas, ela tem recebido outro tipo de ataque. Depois de um episódio tenso na Vidcon, Anita está sendo acusada de assédio, ironicamente, por um de seus mais antigos assediadores. 

Anita é uma jornalista canadense especializada em cultura e criadora do site Feminist Frequency, que tinha o objetivo de tornar o feminismo acessível às novas gerações com um recorte de cultura pop. Do site surgiu o canal no YouTube e Anita ficou famosa, rodando os EUA e o Canada, dando palestras em eventos e universidades. Mas quanto mais espaço Anita conquistava, mais haters ganhava de brinde, e quando começou a falar especificamente de videogames em seus vídeos, começou a enfrentar o que há de pior no machismo dentro da cultura nerd.

Assim que Anita lançou a série de vídeos Tropes vs Women in Videogames, que arrecadou mais de 150 mil dólares online, alguns fóruns começaram uma campanha de assédio contra ela, que envolvia ataques em redes sociais com ameaças de estupro e morte. Eles se juntavam em grandes grupos e reportavam seu canal do Youtube, derrubavam seu site, vandalizavam sua página na Wikipédia, e chegaram a hackear seu e-mail e a tornar públicas informações como seu endereço pessoal e documentos. Também foi lançado um game que permitia ao jogador "bater" no rosto de Anita até ela ficar deformada, enquanto soltava gemidos.

Anita Sarkeesian e a misoginia online no level HARD

Mas não são só anônimos que atacam Anita. O YouTube é lotado de vídeos de pessoas que discordam dela, todos com milhares de visualizações e likes. E muitos deles não se acanham em desmerecer o trabalho de Anita por ela ser mulher, criticando sua aparência física e afirmando que ela está apenas em busca de fama. Na verdade, muitos youtubers ampliaram, e muito, sua base de fãs apenas criticando Anita e outros "social justice warriors" (SWJs), construindo uma carreira baseada em alimentar trolls.

Em 2014, um movimento batizado de "Gamergate" começou a reunir a comunidade dos gamers para, em teoria, pedir mais "isenção" da imprensa na cobertura de games. Segundo alguns de seus membros, a imprensa estava sendo "manipulada" por pessoas como Anita, e isso estaria prejudicando o mercado dos jogos. Só na prática não era bem assim. E a coisa escalou de uma maneira tão absurda, que uma ameaça de bomba obrigou a Universidade Estadual de Utah a cancelar uma palestra de Anita. Outros eventos dos quais ela participaria também receberam ameaças de bombas e de tiroteios em massa, e Anita precisou se afastar de sua casa e andar escoltada por policiais por meses sempre que aparecia em público.

Com esse histórico, este ano a VidCon - evento que reune youtubers e produtores de conteúdo do mundo todo - convidou Anita para participar de um painel chamado "Women Online", em junho. A ideia era discutir sobre o espaço das mulheres na internet e as agressões verbais que elas sofrem, mas quando Anita entrou no palco, um youtuber chamado Carl Benjamin, conhecido online como Sargon of Akkad, estava na primeira fila, junto com um grupo de homens autointitulados de "shitlords", cuja missão é "combater os SJWs". Juntos, eles lotaram as três primeiras filas, de braços cruzados, apontando câmeras para a jornalista.

Anita Sarkeesian e a misoginia online no level HARD


Sargon é um dos youtubers que conseguiu uma legião de fãs atacando Anita online, tuitando ódio contra minorias e fazendo vídeos agressivos contra SJWs. E eu estou falando de todo tipo de baixaria e absurdos, como dizer que Islamismo é um câncer e que o feminismo é fascista, fazer comentários sexuais inapropriados sobre mulheres e chamar Anita de "vadia burra". Hoje ele ganha 5 mil dólares por mês pelo Patreon, patrocinado por seus "fãs", para produzir esse tipo de material.

Falando muito diretamente, a presença de Sargon e se seus amigos no painel tem um nome: intimidação. Seu objetivo ali era mostrar que aquele não era um espaço seguro para ela. Foi o equivalente humano a mijar no chão para demarcar território. E levando em conta que Anita recebe ameaças de espancamento, estupro e morte diariamente, aquelas duas filas de homens poderiam significar que a integridade física dela estava em risco. 

Mas Anita não se intimidou. Entrou, sentou e começou a participar do painel. E quando a moderadora perguntou "por que ainda precisamos falar de assédio contra mulheres?", Anita respondeu: "Porque um dos meus maiores assediadores está sentado na primeira fila", afirmou ela, recebendo palmas. "Se você olhar meu nome no google vai aparecer cabeças-de-merda como esse cara, que faz vídeos idiotas, dizendo a mesma coisa de novo e de novo", continuou ela, que dirigiu-se em seguida a Sargon: "Eu odeio lhe dar atenção, porque você é um lixo humano".

Mas é claro que não demorou para que o comentário de Anita fosse usado contra ela. Defensores de Sargon argumentaram que, ao chamá-lo de lixo humano, Anita estaria "humilhando" e "assediando" o youtuber. E como seu ganha-pão é a publicidade que consegue desses embates, Carl imediatamente mudou seu nome no Twitter para "Human Garbage" e passou a reclamar que era uma vítima, pedindo "empatia". No mesmo dia ele publicou um vídeo no qual reclama que Anita não aceita "debater" com ele, e que sua presença no painel, junto com suas dezenas de seguidores, era para dar "uma chance" para o debate.

Anita Sarkeesian e a misoginia online no level HARD


Com esse contexto, afirmar que as palavras de Anita seriam assédio é no mínimo desonestidade intelectual. Uma frase, largamente atribuída a Malcolm X, se encaixa perfeitamente à situação: não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor. Há anos Anita atura as palavras misóginas de Carl contra ela, e os ataques incessantes de seus seguidores. Dizer que a atitude dela é condenável é gaslighting, uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas e seletivamente omitidas para favorecer o abusador, com a intenção de fazer a vítima, ou as pessoas ao redor, duvidarem da sua percepção e sanidade dela.

E isso pode não ter funcionado com Anita, mas é uma tática surpreendentemente eficiente. Ninguém quer ser a próxima Anita. Ninguém quer viver recebendo ondas de ódio por todos os lados, todos os dias junto com ameaças de morte e estupro. O atenuante é que o trabalho dela tem rendido frutos, novos games com mais inclusão e personagens femininas bem construídas, como Overwatch, estão ganhando o mercado, e empresas, como a Intel, estão investindo pesado em diversidade. A conversa está evoluindo, e os haters logo serão só barulho ao fundo.

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.