Coluna -Por que precisamos de feminismo?
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O que feminismo tem a ver com os peitos da Emma?

Micheli Nunes
há 7 meses128 visualizações

Emma Watson, a Hermione de Harry Potter, além de atriz é uma ativista feminista. Em 2014, foi nomeada Embaixadora da Boa Vontade pela ONU Mulheres e lançou a campanha HeForShe, um movimento que pede a participação dos homens na luta pela igualdade de gênero. Paralelamente, Emma continua com sua carreira no cinema e na última semana deu uma entrevista para a revista Vanity Fair, para o lançamento do filme A Bela e a Fera, junto com um ensaio fotográfico lindo: 

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O que feminismo tem a ver com os peitos da Emma?

Só que, por causa da foto acima, a parcela conservadora e antifeminista da internet se achou no direito de revogar o feminismo de Emma simplesmente por ter mostrado uma parte dos seios.

O que feminismo tem a ver com os peitos da Emma?

OK. Respira. Vamos por partes.

Primeiramente, não é porque uma mulher decide mostrar os seios que ela merece menos respeito de ninguém. Nós ainda somos extremamente conservadores em relação à nudez, e mais ainda quando é uma nudez feminina que não foi feita para o consumo masculino. Mulher pelada é muito bem-vinda quando é produzida por homens especialmente para homens. A partir do momento em que uma mulher toma para si o controle e escolhe como e quando ela quer mostrar seu corpo, as pessoas acham que ela não merece mais respeito.

Há alguns anos, Demi Lovato e Jennifer Lawrence tiveram fotos nuas pessoais roubadas e publicadas contra a vontade delas. Mas além de serem vítimas de um crime, elas se tornaram alvo de críticas e xingamentos por terem tirados fotos nuas dentro de suas casas. Se elas tivessem posado para revistas masculinas, ou feito uma cena de sexo em um filme ou clipe, tudo estaria ótimo, mas como a nudez foi nos termos delas, de repente ficou vulgar demais. 

Na época, inclusive, usaram uma frase falsa de Emma, que sempre foi vista como uma "mocinha comportada", como "lição" para as colegas.  

O que feminismo tem a ver com os peitos da Emma?

*Respira, conta até 10*

Em segundo lugar, feminismo não é um livro de regras que mulheres precisam seguir para ter direitos assegurados, muito pelo contrário. Feminismo é um conjunto de movimentos e ideologias que tem como objetivo básico a igualdade política, social e cultural de gêneros. O feminismo defende o direito das mulheres fazerem suas escolhas, inclusive sobre o próprio corpo. Emma tem todo o direito de lutar por isso e ao mesmo tempo decidir que quer fazer um ensaio fotográfico mostrando os seios. Não existe nenhum motivo para achar que uma coisa invalida a outra.

Mas é tão simples assim?

Emma já foi muito criticada por praticar um feminismo branco, muito focado em homens e que não inclui todas mulheres. Acontece que é bem mais fácil promover a liberdade de mostrar o corpo quando você está dentro dos padrões de beleza estabelecidos pela nossa cultura. Sim, a atriz foi criticada pela foto, mas se ela não fosse branca, cisgênero e magra, as críticas seriam proporcionais? Ela teria o mesmo espaço na revista? Certamente não. 

Hoje, uma atriz negra, trans e gorda jamais estrelaria um filme da Disney como uma princesa, e consequentemente não figuraria na capa da Vanity Fair. É essencial sempre fazer esses questionamentos quando falamos de feminismo. De um jeito ou de outro, a maioria de nós desfruta de algum privilégio. Algumas, como a Emma, desfrutam de MUITOS privilégios e podem cair na armadilha de excluir muita gente do seu ativismo. Ouvir o outro e enxergar o mundo com outras perspectivas é essencial. E um bom exercício para começar é ler isso aqui:

Como saber a diferença entre assédio, cantada ou elogio?

Micheli Nunes
há 8 meses123 visualizações
Como saber a diferença entre assédio, cantada ou elogio?
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Pra muita gente, principalmente homens, a definição de assédio é confusa. Muitos pensam que nós, feministas, achamos que toda cantada ou elogio é um assédio, o que não é verdade. Mas a definição também não é simples para nós. A maioria das feministas deixa o veredito para a vítima. Se a pessoa se sentiu assediada, então foi assédio. E é essencial que o relato da vítima seja levado a sério e sempre em primeiro lugar, mas o problema é que muitas vezes a própria pessoa não sabe classificar o que aconteceu, não quer acreditar que foi assediada, ou não se sente confortável em fazer essa afirmação. Além disso, deixar o veredito para cada indivíduo torna a coisa muito arbitrária e difícil de ser explicada e ensinada. E já que a educação é essencial para um mundo sem machismo no futuro, vamos tentar definir o que é um assédio?
Mesmo a nossa legislação, que prevê assédio sexual como crime, não esclarece muita coisa. A Lei n. 10.224, de 15 de maio de 2001, artigo 216-A do Código Penal, criminaliza o assédio sexual especificamente nas relações de trabalho e de hierarquia. Para a lei, assédio é “constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função”, com pena de detenção de um a dois anos para o assediador. 

Tá, mas como definir esse constrangimento e determinar o que é assédio? A resposta é intuitiva. Assédio é uma questão de consentimento e reciprocidade. A "cantada" e o "elogio" viram um assédio quando são unilaterais, agressivas ou insistentes, ou seja, quando uma pessoa desrespeita a vontade e o conforto da outra, ou quando a outra é impedida de demonstrar sua vontade por medo de retaliação, violência ou constrangimento.

Um elogio é um discurso em louvor de alguém, ou seja é um enaltecimento para glorificar uma pessoa. Um elogio sempre tem boa intenção, nunca pretende constranger ou intimidar, mas mesmo se a intenção for positiva, elogios inapropriados, com referências à aparência física ou conotação sexual, ou mesmo em situações fora da intimidade são assédio

Já a cantada é uma conversa sedutora, visando a conquista. Assim como o elogio, a cantada pode ser respeitosa e bem-sucedida, se a pessoa respeitar a outra e não invadir o espaço dela. Se a cantada é em público e/ou tem palavras de conotação sexual, ela pode constranger a pessoa ou fazer com que ela tema por sua segurança, e isso é assédio.

Existem casos mais fáceis de determinar. Quando existe uma relação de poder prévia, o consentimento não existe, então a investida é sempre um assédio. Por exemplo, quando um chefe usa da posição dele para investir sexualmente em uma empregada (ou um empregado), que não pode dizer "não" por medo de perder o emprego. Ou quando uma pessoa importante ou famosa dá uma oportunidade para outra e se vê no direito de objetificá-la, enquanto ela teme perder aquela oportunidade se reclamar. Ou mesmo quando uma mulher está em um local público e um homem assovia ou grita pra ela na rua, fazendo com que ela sinta exposta, constrangida e com medo de sofrer uma agressão física caso reaja.

Na nossa sociedade machista e homofóbica, homens são ensinados que precisam ser agressivos sexualmente e mostrar virilidade para provarem sua heterossexualidade. Muitas vezes eles não se importam se estão incomodando as mulheres, insistem em continuar investindo mesmo quando elas demonstram que não gostaram, ou até mesmo se sentem na liberdade de tocá-las sem o consentimento delas. Isso tudo é assédio sexual.

Nós, mulheres, vivemos sempre sob essa ameaça, e muitas vezes não reclamamos mesmo quando não gostamos de uma situação, simplesmente porque ninguém nos ensinou a reagir. Sabe aquela sensação de paralização, quando você não consegue agir, ou sorri de nervosismo? Isso acontece porque aprendemos que precisamos aceitar caladas, pois as poucas que falam contra o assédio são vilanizadas, chamadas de exageradas e atacadas publicamente. 

É muito importante mudar essa dinâmica para que as mulheres tenham liberdade para impor seus limites e reclamar quando não gostaram de uma situação.

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.