Coluna: Por que precisamos de feminismo?
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O que pensar da palestra de uma mulher ao lado de seu estuprador?

Micheli Nunes
há 7 meses281 visualizações
O que pensar da palestra de uma mulher ao lado de seu estuprador?
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A islandesa Thordis Elva foi o assunto de hoje nas redes sociais por ter decidido fazer um tour pelo mundo dando palestras ao lado de seu estuprador. Não, você não leu errado. Thordis foi estuprada há 19 anos, na Finlândia, quando ela tinha 16 anos, pelo australiano Tom Stranger, que tinha 19, e agora eles participam do TED, uma famosa série de conferências sem fins lucrativos que acontece ao redor do mundo.

"Eu tinha 16 anos e estava apaixonada pela primeira vez na vida. Ir a um baile juntos era uma confirmação do nosso relacionamento, e eu me senti a garota mais sortuda do mundo. (...) Mas meu encanto se transformou em horror quando ele começou a tirar minha roupa e a subir em mim. (...) Fiquei machucada e chorei muito por semanas, mas tudo era muito confuso para mim. Tom era meu namorado, não um monstro. E o estupro ocorreu na minha cama, não em um beco. Quando finalmente entendi que havia sido estuprada, Tom já tinha voltado para a Austrália", conta Thordis na palestra.

É muito fácil sentir repúdio pelo fato de um estuprador subir ao palco ao lado de sua vítima, principalmente em uma sociedade onde homens acusados de estupro - ou de agressão a mulheres, ou até de feminicídio - são tratados como membros nobres da sociedade, com todos os privilégios. Recentemente, Casey Affleck - acusado de assédio e abuso sexual por duas mulheres que trabalharam com ele (crime que foi enterrado em um acordo milionário) - foi premiado com um Oscar. A estatueta lhe foi entregue, ironicamente, por Brie Larson, que já interpretou uma vítima de estupro no filme O Quarto de Jack, e não aplaudiu o ator, em um protesto silencioso.

O que pensar da palestra de uma mulher ao lado de seu estuprador?

Mas nem precisamos ir muito longe. Aqui no Brasil, o goleiro Bruno, que foi condenado pelo assassinado e ocultação de cadáver de sua ex-namorada, saiu da cadeia em uma manobra inacreditável de seus advogados, que conseguiram um habeas corpus para que ele aguarde o julgamento de seu recurso em liberdade, e imediatamente recebeu propostas para jogar em times de futebol ao redor do mundo. É fácil encontrar na internet imagens de pessoas tirando selfie com o assassino. 

Os exemplos são inúmeros. Mel Gibson agrediu sua esposa física e psicologicamente. Johnny Depp bateu na ex-esposa e a deixou com um olho roxo. Ambos foram gravados tendo ataques de raiva com as parceiras. Ambos continuam trabalhando e frequentando premiações glamurosas em Hollywood. Donald Trump se gabou de entrar em vestiários para flagrar mulheres (que trabalhavam para ele) nuas, disse que um homem famoso pode agarrar a mulher pela vagina sem que ela reaja, está sendo acusado por várias mulheres por assédio sexual, e acabou sendo eleito presidente dos Estados Unidos. 

Por isso é difícil engolir um estuprador dando uma palestra, bem vestido, articulado, em cima de um palco, em uma posição de superioridade. Nem mesmo a presença de Thordis, quando ela relata o ocorrido e expressa sua dor, e ele escuta de cabeça baixa, ou a confissão dele, seguida por uma admissão de uma culpa que diz carregar por anos, amenizam o efeito de repúdio. Até entendemos que ele está arrependido, mas não o suficiente. Tom nunca foi formalmente acusado, nunca foi julgado pelo seu crime, nunca foi para a cadeia. Realidade de 97% dos estupradores. Daí a vontade que temos de obter justiça (ou vingança) pela vítima, mesmo que esta tenha aberto mão de denunciá-lo e afirme que conseguiu perdoá-lo.

A verdade é que cada pessoa lida com seu trauma de maneira diferente. Thordis relata que contou cada segundo das duas horas em que foi estuprada. Hábito que carregou para a vida toda, sempre que se via ociosa. Só parou de contar os segundos quando perdoou Tom. "Independentemente dele merecer ou não meu perdão, eu merecia paz. Minha era de vergonha estava acabada", ela explica. E se ela encontrou ali uma forma de seguir sua vida, aceitando que existia uma identidade além da de vítima para si, que direito temos de julgá-la? Não precisamos gostar de Tom, ou perdoá-lo, mas talvez a ideia que Thordis traz, de que ele tem algo a acrescentar no debate sobre estupro, não seja tão absurdo. 

Sororidade nociva e o prejuízo de nunca questionar outras mulheres

Micheli Nunes
há 7 meses216 visualizações


Sororidade, termo muito usado dentro do feminismo online, significa irmandade entre mulheres. Uma espécie de aliança, ou pacto de confiança, que incentiva garotas a se ajudarem mais e a julgarem menos umas às outras. Mas hoje quero falar sobre o que NÃO é sororidade.

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Se você participa ativamente de grupos feministas nas redes sociais, sabe do que eu estou falando. Com a popularidade crescente do feminismo, cada vez mais garotas aderem ao movimento e se juntam a grupos organizados, tanto em escolas e universidades, quanto nas redes sociais. O que é maravilhoso. Mas dentro desses espaços "seguros", vem crescendo uma noção completamente errada e banalizada do que é sororidade. A palavra virou sinônimo de escudo contra qualquer crítica ou opinião diversa.

Sabemos que o feminismo abrange um conjunto enorme de movimentos políticos, sociais, ideologias e filosofias, que frequentemente divergem entre si. Além da ideia básica da busca pela igualdade política, social e econômica de ambos os sexos, praticamente todos os assuntos abordados dentro do feminismo encontram divergências, então é praticamente certo de que se você se envolve com um movimento feminista, vai se deparar com alguém que tem opiniões diferentes de você. E se você é branca e de classe média, certamente vai ser convidada a rever seus privilégios. O que é saudável e necessário.

Mas na hora das críticas logo aparece o famoso grito de "cadê a sororidade, manas?". E a pessoa que criticou corre o risco de sofrer bullying, ser acusada de não ser feminista e até de ser exposta na internet. Além dos problemas óbvios, esse tipo de atitude tende a manter o debate em um nível muito raso.

Vamos estabelecer uma coisa aqui. Feministas não são obrigadas a amar todas as mulheres incondicionalmente. Podemos (e devemos) criticar umas às outras e questionar comportamentos que consideramos errados, desde que façamos isso com respeito e sem apelar pra artimanhas machistas. Quando a sororidade é seletiva e só serve pra se proteger e defender mulheres que pensam igualzinho a você, o termo se esvazia de sentido. 

Ainda somos oprimidas social e politicamente e ainda sofremos todo tipo de violência simplesmente pelo fato de sermos mulheres. O feminismo é fundamental na nossa luta diária contra a opressão, e fornece um espaço onde nossa voz é ouvida e onde somos livres para expor nossas opiniões. Mas isso não significa que sempre estaremos certas apenas por sermos mulheres. Sorrir e incentivar qualquer coisa que uma mulher diga, sem discernimento, é tratá-la como uma criança. E não aceitar que outra pessoa discorde de você é agir como criança. Essa condescendência e infantilização das mulheres, que vem disfarçada de "sororidade", acaba se tornando uma forma de silenciamento.

A noção de sororidade é importantíssima para acabarmos com um dos pilares mais antigos do machismo, a rivalidade entre mulheres, que é imposta de diversas maneiras nas nossas vidas desde que aprendemos a falar. Mas discutir racionalmente não significa necessariamente que você está rivalizando com ninguém. E muito menos significa que você está aderindo ao time do patriarcado. Ouvir críticas e entrar em discussões onde não apenas pessoas iguais a você estão falando é fundamental para o crescimento emocional e intelectual de todas nós. E é importantíssimo colocarmos à prova nossas opiniões, principalmente se queremos praticar um feminismo mais inclusivo.

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.