Coluna: Por que precisamos de feminismo?
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SBT é processado por constranger mulheres

Micheli Nunes
há 24 dias184.9k visualizações
SBT é processado por constranger mulheres
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Imagem: Reprodução SBT

O Ministério Público do Trabalho (MPT) entrou com uma ação civil pública contra o SBT e pediu uma multa de R$ 10 milhões por danos morais coletivos, por conta de dois casos em que veicularam a humilhação de mulheres na TV. O mais recente foi o caso de Maísa Silva, em que Silvio a constrangeu em um programa o vivo. O segundo caso aconteceu em 2016, quando o apresentador Ratinho chutou violentamente uma caixa onde estava a assistente de palco Milene Uehara. 

No caso de Maísa, o próprio dono da emissora foi o agressor. No Programa do Silvio Santos, exibido junho deste ano, Silvo sugeriu que a atriz "namorasse" Dudu Camargo e insistiu que ela o beijasse na boca, o que ela se negou a fazer e criticou ferozmente. Maísa, que é uma adolescente de 15 anos, se manteve firme em não atender aos caprichos do octogenário e chegou a ser criticada por parte do público. Duas semanas depois  Silvio convidou novamente a atriz, que tem contrato com a emissora, e a colocou em uma nova situação de constrangimento, chamando Dudu Camargo ao palco. Maísa abandonou o estúdio aos prantos. Na época, colunistas afirmaram que uma produtora tentou proteger a adolescente e acabou sendo demitida.  

Segundo o documento emitido pelo MPT, Maisa "sofreu grave constrangimento diante da violação de sua privacidade, intimidade e honra, caracterizando lesão aos direitos da personalidade, mediante abuso do poder hierárquico e discriminação do gênero feminino pela forma de tratamento dispensada às profissionais". A ação pede uma "providência da empresa para que ajuste sua conduta e não mais permita, tolere ou submeta seus empregados a situações vexatórias, constrangedoras, ou qualquer conduta que implique desrespeito à pessoa humana, à vida privada, à honra, à intimidade e à imagem ou qualquer violência ou discriminação contra a mulher ou outro fator injusto de discriminação, garantindo-lhes tratamento respeitoso e digno."

No caso de Milene, o MPT argumenta no documento que Ratinho "desferiu forte chute numa caixa de papelão em que se encontrava Milene, atingindo a altura de sua nuca. A trabalhadora deu um grito e caiu sentada no chão, visivelmente assustada e possivelmente machucada. Em seguida, ela se retirou do palco constrangida sob sons de risos e chacotas, e o apresentador afirmou em tom debochado que ela era uma funcionária rebelde e providências seriam tomadas: ela iria 'pra rua'. O episódio mostrou a funcionária sofrendo agressão física, humilhação e lesão aos direitos da personalidade, mediante abuso do poder hierárquico e discriminação do gênero feminino pela forma de tratamento dispensada às profissionais". 

SBT é processado por constranger mulheres

Além das claras violações dos direitos dos trabalhadores, como uma emissora de sinal aberto que goza de concessão pública, o SBT tem diversas obrigações sociais e deveria dar um melhor exemplo de como funcionárias deveriam ser tratadas. A emissora não é a única no Brasil a demonstrar comportamentos misóginos, mas esses dois casos são tão emblemáticos que não podem ser ignorados pelos órgãos públicos: houve agressão física em um deles e constrangimento sexual de uma adolescente no outro. Que isso sirva de lição. 

Aconteceu mais um abuso sexual em reality show e nós não aguentamos mais

Micheli Nunes
há um mês967.9k visualizações
Aconteceu mais um abuso sexual em reality show e nós não aguentamos mais
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Imagem: Reprodução Record

Vendo as imagens transmitidas por pay-per-view não há o que discutir: a TV Record, que exibe o reality show "A Fazenda",  permitiu que uma das participantes fosse abusada sexualmente por um colega diante das câmeras. Monique, que estava embriagada e já havia vomitado, foi colocada na cama por outra participante e estava visivelmente alterada. Dinei, ex-jogador de futebol, deitou-se na cama ao lado da moça, segurou o pescoço dela com um braço, encostou o corpo no dela e ficou se esfregando e passando a mão em seu corpo. Monique disse "não" e tentou desajeitadamente afastar as mãos do participante algumas vezes, mas ele continuou tocando seu corpo sem permissão. O nome disso é estupro, e até onde a gente saiba, é um crime. 

Toda a cena foi transmitida pelo pay-per-view, mas não chegou a ir parar na edição do programa, que ignorou completamente o ocorrido. Porém, não há como esconder ou diminuir o que aconteceu. Vídeos do abuso estão sendo compartilhados em todas as redes sociais, e no dia seguinte Dinei chegou a discutir com Monique e dar um tapa nas nádegas da moça: "Foi por pouco. Na próxima vez, te meto mais cerveja e embebedo você", disse ele.

Monique já havia participado do "Big Brother Brasil", na Globo, e também sofreu abuso na ocasião. Desacordada após uma festa, ela estava deitada na cama quando o modelo Daniel Echaniz começa a tocá-la e aparentemente chega a praticar relações sexuais com seu corpo inerte. Tudo também está registrado em vídeo. Na época, a Globo demorou para se manifestar, mas acabou expulsando o participante, que foi inocentado na justiça. 

Independentemente de quem seja a vítima, do que ela tenha feito ou de como ela se relaciona com o abusador após o ocorrido, é um completo absurdo que coisas assim aconteçam diante de câmeras, na frente de dezenas de pessoas. Se um participante de reality show agride fisicamente o outro ou ameaça fazê-lo, ele é imediatamente expulso, mas homens têm o total aval da produção para tirar vantagem do corpo das participantes mulheres como se não fosse nada de mais. E isso só é discutido e considerado depois que o público revoltado pede uma atitude.

Se assim, com vídeo provando tudo, não acontece nada com os abusadores, não é de se espantar que na vida privada tantas mulheres sejam vítimas de estupro e todo tipo de violência e abuso. A impunidade é quase certa, e a vítima precisa passar pelo inferno para conseguir o mínimo de atenção da justiça. 

A Record deveria ter compreendido o que estava acontecendo na hora, e impedido que Dinei continuasse tocando o corpo de Monique enquanto ela estava incapacitada de dar seu consentimento. A produção deveria ter interferido, do mesmo modo que faria se um participante tivesse dado um soco na cara de outro, ou puxado uma faca. Dinei deveria ter sido expulso imediatamente e uma denúncia deveria ter sido feita junto à polícia.

Nada disso aconteceu. E pior, a Record ainda não se pronunciou sobre o ocorrido e continua ignorando a revolta das pessoas nas redes sociais. Dinei continua na casa, dizendo que deixaria Monique bêbada novamente se pudesse. "Foi pouco", ele disse. Se isso foi pouco, o que acontecerá da próxima vez?  

Enquanto grandes emissoras de TV continuarem permitindo que coisas assim aconteçam, a mensagem que passamos é que os corpos das mulheres são públicos, disponíveis para o usufruto dos homens. Já chega! Alguém precisa interferir. A Record é uma rede de televisão que usufrui de concessão pública. Esse tipo de conteúdo é tóxico e criminoso. Não aguentamos mais.

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.