PRAZER

Criaram um iluminador vaginal e nós falhamos como sociedade

Micheli Nunes
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Micheli Nunes
Criaram um iluminador vaginal e nós falhamos como sociedade

A marca dinamarquesa The Perfect V conseguiu aparecer em jornais, revistas e sites de todo o mundo na última semana com um lançamento um tanto polêmico. Com o objetivo de fazerem as mulheres alcançarem a "vagina perfeita", eles criaram uma linha de produtos vaginais que fogem bastante do tradicional sabonete íntimo. Além de um esfoliante (socorro) para a região íntima, eles têm um serum rejuvenescedor, um condicionador, um spray revitalizante, um tonificante e um ILUMINADOR VAGINAL.

Isso mesmo! Sabe aquele produto de maquiagem que se passa nas maçãs do rosto e no nariz para dar uma finalizada no look? Pois é o mesmo princípio, só que na vulva. O site do produto promete dar uma "beleza extra" à região, "iluminando e apagando as imperfeições". Além do completo absurdo de criar a necessidade de maquiar uma vagina, o produto pode ser extremamente perigoso. Médicos recomendam que a vulva, que é muito delicada, seja lavada com bastante água e, no máximo, um sabonete neutro sem perfume. Enfiar produtos desconhecidos e potencialmente abrasivos nos órgãos genitais pode irritar a pele, causar alergias, e infecções, matando as bactérias "do bem" e criando um ambiente próprio para a proliferação das bactérias "do mal".

Padrões cada vez mais inalcançáveis

Se o problema fosse apenas uma marca dinamarquesa criando um produto absurdo, seria fácil de resolver, mas não é bem assim. Os padrões inalcançáveis de beleza feminina já chegaram faz tempo à região íntima, fenômeno que é associado ao acesso fácil à pornografia online. Cada vez mais adolescentes recorrem a cirurgiões plásticos para mudar a aparência da vulva antes mesmo de terem relações sexuais, e o Brasil é líder no procedimento. E tudo fica ainda mais triste se levarmos em conta os riscos dessa cirurgia, que corta fora centenas de terminações nervosas, pode comprometer a circulação sanguínea da região e diminuir muito o prazer sexual de garotas que ainda não chegaram aos 20 anos. Isso em uma cultura que permite que apenas 22% das mulheres brasileiras hoje chegam ao orgasmo.

Criaram um iluminador vaginal e nós falhamos como sociedade

Segundo dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica, somente em 2016, 25 mil brasileiras fizeram a cirurgia, que só é indicada em raríssimos casos de hipertrofia, nos quais a mulher sofre de dores, dificuldades para andar e assaduras. E elas fizeram isso simplesmente porque não sabem como é a aparência de uma vagina normal. A ideia de inadequação aparece quando elas passam a ver atrizes pornô com vaginas consideradas "delicadas", com lábios minúsculos e irrealisticamente simétricos, quando na realidade as vaginas têm formas extremamente diversas.