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20 anos depois de 'Quinto Elemento', Luc Besson ainda não sabe escrever mulheres

Micheli Nunes
há 2 meses9.8k visualizações
20 anos depois de 'Quinto Elemento', Luc Besson ainda não sabe escrever mulheres
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Laureline (Cara Delevingne) e seu traje espacial que vem com SEIOS (imagem/divulgação)

Apesar de brilhante em diversos aspectos, o cineasta francês Luc Besson tem sérias limitações para escrever mulheres. E parece estar piorando. Praticamente todos os seus filmes, como diretor ou roteirista, têm uma "personagem feminina forte" de destaque, mas quase todas parecem vazias e irreais. Sua visão do "misterioso universo feminino" é um amontoado de clichês sexualizados, idealizados e repetitivos, e isso chega ao ápice em Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, em cartaz nos cinemas.

No longa O Quinto Elemento (1997), Leeloo é uma mulher adulta extremamente sexualizada, mas tem "a mente de uma criança". Ela pode ser a "chave do universo", mas é vulnerável, ingênua e completamente dependente dos homens mais velhos que a rodeiam. Mesmo Lucy (2014), cuja protagonista é escrita para ser invencível, tem um arco narrativo que deixa muito a desejar. Ela começa como uma jovem ingênua, que é enganada pelo namorado e acaba consumindo uma droga que libera poderes especiais, daí começa a se transformar em um super humano. Ela nunca chega a ser uma mulher completa ou interessante, morfando de um estereótipo para outro.

Mathilda, de Leon: O Profissional (1994), interpretada por Natalie Portman aos 11 anos, talvez seja a melhor tentativa de Luc escrevendo mulheres, mas é bastante criticada até hoje por seu subtom sexual, tendo inclusive uma cena censurada, em que a garota pede que o matador tire sua virgindade, e diante da negativa insiste que ele divida a cama com ela. Mas Laureline (Cara Delevingne), de Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, é mais rasa que todas elas. E o problema já começa no título do longa, inspirado em um quadrinhos francês chamado Valerian & Laureline. A decisão de tirar o nome da heroína do título foi o primeiro de muitos erros do cineasta. O segundo deles talvez tenha sido introduzir a personagem no filme mostrando sua bunda em um biquini antes mesmo de mostrar seu rosto.

O próprio Luc disse, em uma coletiva para divulgar o filme no Brasil, que a Laureline dos quadrinhos foi seu "primeiro amor", quando ainda era uma criança e não tinha muito o que fazer além de ler quadrinhos e se imaginar casando com a personagem. O que parece plausível, levando em conta que no filme ela é representada como o sonho molhado de um adolescente.

Besson nos contou que gosta que Laureline seja "antiquada", no sentido de querer se casar com um homem e ter filhos, o que não é um problema, ou mesmo antiquado. Muitas mulheres hoje em dia querem isso. O problema de Laureline é não ter uma história própria. Ela é o que as circunstâncias fazem dela. A cada cena ela encarna um clichê diferente, que mesmo com a atuação competente de Cara não deixa de parecer vazio e esquisofrênico. Em alguns momentos é independente, corajosa e determinada, em outros é fútil, insegura e ciumenta. Toda vez que ela mostra um pouco de personalidade isso acontece para impulsionar Valerian (Dane DeHaan) e servir ao arco emocional do colega.

A relação de Laureline com o protagonista é todo um outro vespeiro. Logo na primeira interação dos dois ele dá um golpe na moça, "de brincadeira", deixando-a imobilizada. A garota devolve o ataque, mostrando que não é uma donzela indefesa, mas ele continua tentando demonstrar sua superioridade em momentos aleatórios através de força física. Escrito como um cafajeste dos anos 80, mas sem um décimo do carisma de Han Solo, Valerian insiste em paquerar a colega, mesmo diante de suas negativas, e sem conseguir sequer um encontro decide pedi-la em casamento.

Dane DeHaan é sim parte do problema, em parte por causa de suas limitações, mas é muito mais vítima das circunstâncias do que qualquer outra coisa. O ator, que é jovem e aparenta ser ainda mais jovem, foi um erro grave na escolha de elenco. Escrito como um macho alfa que quer se impor o tempo todo, o personagem TALVEZ fosse salvo se interpretado por um ator mais carismático e com mais autonomia. Isso, aliado ao fato de que ele não tem nenhuma química com Cara, como par romântico ou parceiro, era a receita para o desastre desde o dia um.

A breve participação de Rihanna como Bubble é o ponto alto do filme, principalmente porque seu personagem é muito mais interessante do que os dois protagonistas, o que prova que tempo de tela não é justificativa para roteiros ruins. Mas apesar de sua boa atuação, a personagem da rainha do pop não está livre de críticas. Besson chegou a dizer que escreveu Bubble como uma "Cleópatra do futuro", mas entregou apenas uma escrava sexual que é sacrificada em prol de personagens muito menos carismáticos.

20 anos depois de 'Quinto Elemento', Luc Besson ainda não sabe escrever mulheres

Besson sempre quis adaptar Valerian & Laureline para os cinemas, e O Quinto Elemento tem clara inspiração nos quadrinhos, mas ele disse que não o fez por não ter tecnologia boa o suficiente e também por não estar pronto. Depois dos avanços tecnológicos de Avatar (2008), ele finalmente se convenceu de que era hora, mas aparentemente as ideias que ele teve na adolescência foram todas mantidas para Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, muitas das quais não pertencem a 2017. É triste ver como o diretor fala do longa como se fosse sua obra prima, quando é provavelmente seu pior trabalho. 

Andy Serkis fala sobre Planeta dos Macacos e o que nos torna humanos

Micheli Nunes
há 2 meses1.7k visualizações
Andy Serkis fala sobre Planeta dos Macacos e o que nos torna humanos
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Quando falamos em "humanizar" alguém, seja na vida real ou no cinema, geralmente nos referimos a mostrar um lado benévolo ou emotivo. Porém, se perguntarmos o que nos difere dos animais, as primeiras respostas serão "raciocínio lógico" ou "inteligência". Então, afinal, o que nos torna humanos? É essa pergunta, um tanto filosófica, que Planeta dos Macacos: A Guerra nos apresenta, e segundo Andy Serkis, ator que estrela o filme no papel do macaco Caesar, a resposta é empatia.

"O tema deste filme, e de todos da franquia, é empatia. É sobre viver num mundo de humanos no qual perdemos a habilidade de sermos empáticos com outra cultura, outra sociedade", disse o ator ao Storia Brasil, em uma coletiva de imprensa em São Paulo. Para Serkis, o filme reflete uma realidade sombria: "Nós vivemos em tempos muito perigosos e confusos do ponto de vista ideológico, e a reação humana nesses tempos é se mover na direção de respostas simplistas para conflitos que são complexos". E essa simplicidade geralmente é atrelada ao ódio, à violência e à intolerância.

No longa, que finaliza a nova trilogia do Planeta dos Macacos, os humanos estão sendo dizimados por um vírus que tornou os símios inteligentes. As duas espécies estão em conflito, e os homens recorrem às forças armadas, a princípio para proteção, mas isso logo escala para o genocídio dos macacos, que apenas precisam de um lugar pra morar e viver em paz. E não há como não fazer um paralelo com a situação de refugiados e imigrantes, e com o crescimento da xenofobia em todo o mundo. "Nesses momentos tentamos encontrar saídas simples, emocionais e irracionais, e o mundo está sofrendo com lideranças que agem de maneira simplista", comenta Andy.

Andy Serkis fala sobre Planeta dos Macacos e o que nos torna humanos

Cada personagem tem uma motivação bem construída, o que torna toda a situação complexa. Muitos dos macacos foram torturados por humanos. E os humanos estão morrendo de um vírus que acreditam ser transmitido pelos macacos. Os dois lados tiveram seus extremistas, que usaram de violência desnecessária. Os dois lados precisam preservar seu espaço, e um acordo pacífico não parece possível. O filme chega a apontar uma solução, que atribui aos personagens menos extremistas, mas não finge que isso é facilmente alcançável. Para Andy, esse é o valor da franquia. "Ter alegorias que falam da condição humana é o que nós precisamos agora no mundo. Storytelling é uma das maneiras pelas quais podemos nos salvar", explica o ator.

"O que é mais bonito sobre a metáfora de usar macacos para nos enxergar, é que nada é preto no branco, não existem vilões totais nem heróis completos, todos têm um compasso moral que vai mudando", explica Serkis, que se inspirou em grandes líderes políticos para sua atuação. "Cesar, apesar de ser nobre, ainda tem falhas. Ele precisou matar, o que é contra tudo o que ele acredita, e mesmo que ele seja um líder tentando achar uma solução pacífica para o conflito, ainda está cheio de ódio e raiva pelos humanos, e é aí que ele perde a empatia", acrescenta.

Andy Serkis fala sobre Planeta dos Macacos e o que nos torna humanos

Não por acaso, um dos maiores talentos do diretor Matt Reeves, à frente do filme, é construir narrativas tocantes. O longa quase não presta atenção em humanos, com exceção da garotinha que Maurice "adota", e foca no grupo de símios. Fazer com que o expectador se identifique mais com um macaco do que com um homem é certamente um enorme desafio, e Matt é sem sombra de dúvida bem-sucedido nisso, com um roteiro bem amarrado e corajoso (que assina junto com Mark Bomback), e contando com a atuação impecável de Serkis.

E não é só o novo filme que tenta espelhar os nossos problemas sociais, toda a franquia do Planeta dos Macacos é bastante crítica. "Desde o primeiro longa, de 1968, a franquia sempre foi um comentário social, além de ser entretenimento". Para Serkis, essa é a parte mais importante: "É um palco enorme, uma audiência gigante, e além de estarmos trazendo um ótimo entretenimento, ainda podemos dizer algo que é incrivelmente importante, significativo e emocional, e esperar que isso toque as pessoas de alguma maneira". 

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.