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Doctor Who finalmente tem uma DOUTORA, mas o que isso significa?

Micheli Nunes
há 3 meses5.6k visualizações
Doctor Who finalmente tem uma DOUTORA, mas o que isso significa?
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A BBC anunciou que a 13ª regeneração do Doutor será, pela primeira vez na história, uma mulher. Precisamente a atriz Jodie Whittaker, que talvez seja mais conhecida pelo episódio "The Entire History of You", de Black Mirror (aquele em que todo mundo grava tudo em um chip atrás da orelha). Mas mesmo em 2017, o anúncio veio com um volume considerável de controvérsia. O que isso significa para a mais longeva série de ficção científica da TV? Vamos analisar essas e outras questões do fandom sobre a escolha inédita.

'PODE ISSO ARNALDO?'

PODE! Regeneração em diferentes gêneros É CANON em Doctor Who! Ou seja, faz parte da história "canonizada", oficial. Isso sempre foi especulado pelos fãs, desde a década de 60, e com a retomada da série, diversas evidências apontam para isso. Quando o doutor de David Tennant regenera para o de Matt Smith, o personagem brevemente acha que é uma mulher por causa do cabelo longo. No episódio Hell Bent, da nona temporada, o Doutor atira em um general de Gallifrey, que então se regenera em uma mulher (a atriz T'nia Miller). Então a resposta é SIM, dentro da série isso sempre foi possível, e não, não foi inventado de uma hora para a outra.

'É A PRIMEIRA MESMO?'

Sim e não! Oficialmente, dentro do canon da série, é a primeira vez que uma mulher se junta ao panteão de doutores. Mas em uma comédia produzida pela BBC em 1999, chamada Doctor Who: The Curse of Fatal Death, o doutor, interpretado por ninguém menos que Mr Bean (Rowan Atkinson), regenera na forma feminina, interpretada pela atriz Joanna Lumley. Não está dentro da timeline oficial da série, mas é um especial da BBC. O episódio, no entanto, é sempre lembrado principalmente pelas piadinhas sexistas do roteiro.

'MAS TRADICIONALMENTE O DOUTOR É HOMEM!'

E DAÍ? Isso não significa NADA, especialmente numa série conhecida por ser inovadora e ousada. O próprio conceito regeneração já é uma quebra de paradigma. E por mais que Doctor Who seja inovadora em vários aspectos, a dinâmica de um herói centenário com uma sidekick jovem e atraente é atrasada e baseada em arquétipos sexistas. O primeiro doutor, um velho sábio e professoral, ensinava sobre o universo para sua neta, uma jovem ingênua e atrevida. Depois, com a chegada de doutores mais jovens e atraentes, a dinâmica entre o protagonista e sua companion foi mudando para um relacionamento mais romântico, e talvez ainda mais problemático. Afinal, o que um faz um alien com centenas de anos se atrair por uma jovem humana com menos de 20? Alguns argumentam que essa tensão sexual contribuía para a trama, mas a boa parte do fandom sempre desaprovou esses romances. O doutor de Capaldi quebrou essa corrente, para o alívio dos fãs, mas o personagem principal ainda era um homem, assim como todos os showrunners e a maioria dos roteiristas.

'UMA MULHER NO PAPEL PRINCIPAL VAI MUDAR ALGUMA COISA?'

SIM! Representatividade importa! Especialistas e pesquisas afirmam que o apagamento e a relegação de certos grupos na mídia diminui a autoestima e aumenta níveis de depressão desses grupos. Em contrapartida, quando se coloca mulheres e pessoas não brancas em papéis que são tradicionalmente de homens brancos, passa-se a poderosa mensagem de que essas pessoas são relevantes, e que podem ser donas da narrativa. Além disso, para uma série que tem 35 temporadas e um filme, ter uma protagonista que altera TODA  dinâmica da narrativa é empolgante e abre novos caminhos. E essa infinidade de possibilidades é a marca registrada de Doctor Who.

E é bom lembrar que a maior parte do fandom de Doctor Who é composta por mulheres, de todas as idades. A maioria delas cresceu querendo ser o Doutor, mas acreditando que seu lugar é como companion. Não que as companions não sejam INCRÍVEIS, mas faz toda a diferença ser a dona da história.

'MAS O PÚBLICO VAI REJEITAR ESSA DOUTORA!'

Sempre que um protagonista querido deixa a série e um ator novo é anunciado a reação da maior parte do fandom é de luto e rejeição. Isso aconteceu quando Christopher Eccleston deu lugar a David Tennant, quando Tennant deu lugar a Matt Smith, e quando Smith deu lugar a Peter Capaldi. É inevitável! E Capaldi foi provavelmente o mais odiado de todos, justamente por quebrar a linhagem de doutores jovens e atraentes. PORÉM, a BBC sabe o que faz quando se trata de casting. Em poucos episódios os novos Doutores são sempre abraçados pelos fãs. Tudo o que é preciso é uma BOA HISTÓRIA.

'ISSO É SÓ PRA AGRADAR FEMINISTAS'

Ok, tecnicamente é "culpa das feministas"mas não pelos motivos que as pessoas que estão reclamando pensam. O movimento feminista mudou a sociedade de várias maneiras, desde o direito ao voto até uma maior presença feminina em todas as instâncias sociais, inclusive dentro do fandom de Doctor Who, que é majoritariamente femininoIsso faz com que seja cada vez mais difícil justificar o fato de que o protagonista seja sempre um homem. Simplesmente não existe um bom motivo pra isso, especialmente em ficção científica! Por que é possível aceitar que um saleiro gigante com um desentupidor de pia como arma seja a raça mais perigosa do universo, e ao mesmo tempo é TÃO DIFÍCIL aceitar que uma mulher possa salvar o mundo?

'TÁ MAS EU SOU MULHER E QUERO TER O DOUTOR COMO CRUSH!'

Falando por experiência própria, não tem NADA de errado em ter crush numa mulher. Especialmente se ela for a Doutora. Mas entendo que ter um cara bonitão pra admirar é sempre 10/10, só que esse cara não precisa ser o protagonista! Companions atraentes sempre estiveram por aí, e os homens heterossexuais nunca reclamaram que elas não eram as personagens principais. É só botar um companion gatinho ou voltar com o Capitão Jack Harkness que os seus problemas acabaram!

'OK, OK! MAS EU NÃO QUERO QUE O DOUTOR SEJA MULHER!'

Aí já é um problema seu, né, meu anjo?

Não vale reclamar do novo Flash se gostou da nova Tia May

Micheli Nunes
há 3 meses20.1k visualizações
Não vale reclamar do novo Flash se gostou da nova Tia May
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Mudar personagens de quadrinhos, seja nas próprias revistas ou em adaptações para o cinema, costuma ser um negócio POLÊMICO. E se a mudança envolve um pouco de modernidade e inclusão, com personagens não brancos e/ou não heterossexuais, o vespeiro nerd fica ainda mais atiçado. Porque, sejamos sinceros, boa parte do universo nerd é composto por conservadores (pra não dizer pior). Então nós ficamos DESAPONTADOS, PORÉM NÃO SURPRESOS quando o ator latino Tony Revolori, que interpreta o valentão Flash Thompson no filme 'Homem-Aranha de Volta Ao Lar', começou a ser atacado na internet com comentários super racistas, chegando ao ponto de receber ameaças de morte!

Não vale reclamar do novo Flash se gostou da nova Tia May

Flash Thompson no filme 'O Espetacular Homem Aranha' e nos quadrinhos

Nos quadrinhos e nas duas primeiras adaptações que a Sony fez para o cabeça-de-teia, o Flash é um cara BRANCO. E aparentemente ninguém que não seja branco e fortão tem direito de interpretar o personagem. O fato de que a mudança ficou super interessante, e que o estereótipo do valentão loiro, capitão do time de futebol, já é um clichê supersaturado no cinema, não parece importar para uma parte dos fãs. Mas o mais intrigante é que essa revolta toda não aconteceu com a escalação de Marisa Tomei como Tia May.

Não vale reclamar do novo Flash se gostou da nova Tia May

Nas HQs, Tia May foi criada como uma senhorinha idosa, que cuida de Peter depois da morte de seus pais. Nas adaptações para o cinema ela começou assim, com a escalação de Rosemary Harris, na época com 74 anos, para o papel em 2002. No próximo reboot, de 2014, foi Sally Field a escolhida para interpretar a personagem, aos 65 anos. Agora a Sony decidiu rejuvenecer ainda mais a Tia May com Marisa Tomey, que tem 52 anos mas parece ter menos de 40.

E TUDO BEM! Faz todo sentido, porque, diferentemente de 1962, quando a personagem foi criada, o estereótipo da senhorinha frágil, de cabelos brancos e roupas de freira, praticamente não existe mais hoje em dia! Nem como arquétipo de avó e muito menos como de tia. Mas o que definitivamente NÃO VALE, é criticar Tony Revolori como Flash, argumentando que o personagem deve ser loiro por fidelidade às HQs, e achar que TUDO BEM a Tia May ser jovem e atraente. O nome disso é outra coisa!

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.