Cultura POP
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Cultura POP
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Cultura POP
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

Edgar Wright conquista o mundo com 'Em Ritmo de Fuga'

Micheli Nunes
há 3 meses2.4k visualizações
Edgar Wright conquista o mundo com 'Em Ritmo de Fuga'
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

O jovem diretor britânico Edgar Wright é um daqueles cineastas autorais que não são super famosos, mas têm fãs totalmente fiéis. Edgar conquistou esse fandom em 2003, com o filme Todo Mundo Quase Morto (2004), dando o pontapé na excelente Trilogia de Sangue e Sorvete, que tem ainda Chumbo Grosso (2007), e Heróis de Ressaca (2013). Mas é Em Ritmo de Fuga (Baby Driver) que derruba as fronteiras consagra a popularidade do diretor no mercado mainstream, tudo por causa da magia da música (e de uma excepcional edição). 

Com um estilo de comédia totalmente baseado em diálogos inteligentes, ironia e nonsense, Wright sempre encontrou na língua uma barreira. Boa parte de suas piadas não traduzem bem para outros idiomas, o que em certo nível conteve sua popularidade entre pessoas que falam inglês. "Em Ritmo de Fuga tem menos diálogo do que todos os meus filmes anteriores, e isso foi pensado. Uma das coisas que eu tinha em mente quando escrevia o roteiro foi que os meus filmes não vão tão bem em territórios que não são de língua inglesa, porque eles são muito verbais", explicou o diretor na coletiva para divulgar o longa no Brasil. Por aqui, seus filmes anteriores nunca foram exibidos em tantas salas. "Claro, o filme ainda tem bastante diálogo, mas tem longas cenas que funcionam como um filme mudo. O resultado é que está passando em mais países do que qualquer outro dos meus longas".

Edgar Wright conquista o mundo com 'Em Ritmo de Fuga'

Talvez Scott Pilgrim Contra o Mundo (2010) tenha sido o filme mais popular de Wright, mas Em Ritmo de Fuga está em outra categoria. Apesar de ser feito propositalmente para alcançar uma audiência maior, o filme não emburrece para ampliar o alcance, pelo contrário. É o trabalho mais sofisticado de Wright em termos de edição, ritmo, tom e storytelling. "Um dos motivos pelos quais acho que o filme está indo bem é porque as pessoas se conectam com esse jovem casal. As pessoas reconhecem algo deles dentro do personagem", palpita Wright. E é de fato a simplicidade da história que abre espaço para uma quantidade enorme de informação que é passada através da fotografia e da música, sem que isso fique cansativo, um erro comum de blockbusters.

O filme conta a história de Baby (Ansel Elgort), um jovem que trabalha como piloto de fuga para quitar uma dívida. Por causa de um problema no ouvido, Baby constantemente ouve um zumbido, que ele precisa abafar com música, e isso permite que a incessante trilha sonora conte a maior parte da história. "As pessoas usam música como escape, e é sobre isso que o filme fala. Sobre a nossa relação com a música e como ela pode mudar o tom da sua vida e transformar o que acontece ao seu redor. E como acontece de vez em quando, quando a música que estamos ouvindo nos fones entra em sincronia com aquele momento da nossa vida", explica precisamente o diretor.

E a música é mais que uma ferramenta narrativa, é parte fundamental da estrutura do filme. Wright selecionou a trilha antes mesmo de começar a escrever o roteiro. Aqui ela dita o tom e guia as emoções do espectador muito mais do que em filmes como Guardiões da Galáxia, por exemplo. Em Baby Driver, os personagens falam, andam respiram e dançam no ritmo da música, e até nas cenas de tiroteio as batidas são sincronizadas com os tiros. Fotografia, luz e edição dançam a trilha sonora (que, por sinal, está disponível no Spotify), e as letras não apenas narram indiretamente a história, como aparecem, literalmente, escritas no cenário. 

Em Ritmo de Fuga já virou o queridinho da crítica no mundo inteiro, e já até recebeu o título de "filme do ano" em um certo consenso. Wright, que é apaixonado pela comédia, tem poucas chances de levar um Oscar, que ainda privilegia dramas mais pesados ou longas cheios de autorreferências, mas certamente vai garantir algumas indicações. E se não levar as estatuetas de melhor edição e edição de som, pode carimbar que é marmelada.

Conheça Isabela Moner, a melhor parte de 'Transformers: O Último Cavaleiro'

Micheli Nunes
há 3 meses4.1k visualizações
Conheça Isabela Moner, a melhor parte de 'Transformers: O Último Cavaleiro'
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Transformers nunca foi uma franquia favorável às suas personagens femininas, e isso está 100% na conta de Michael Bay. O diretor frequentemente glorifica a misoginia e objetifica as mulheres em seus filmes. Bay usa atrizes como enfeite, demora as lentes nos seus corpos e reforça ideias negativas sobre o papel da mulher na sociedade. Raramente as personagens femininas têm alguma influência na trama de seus filmes, e quando têm são vilãs estereotipadas. E mesmo isso sendo incessantemente criticado em seu trabalho, o diretor parece passar incólume pela onda de representação que vem ocorrendo em Hollywood. 

De Megan Fox (2007), passando Rosie Huntington-Whiteley (2011), até Nicola Peltz (2014), as "mocinhas" da saga Transformers parecem ter saído das fantasias de um adolescente dos anos 80. E justamente por isso a presença de Isabela Moner nos trailers deu a entender que Bay estava indo numa direção um pouco diferente. A atriz, que no filme tem 14 anos, aparece como uma mistura de X-23 (Logan) e 13 (Stranger Things): uma garotinha cabulosa que sabe muito bem se virar sozinha. 

Conheça Isabela Moner, a melhor parte de 'Transformers: O Último Cavaleiro'

Isabela veio ao Brasil divulgar o filme junto com Michael Bay, e participou de uma coletiva de imprensa onde, compreensivelmente, ficaria em segundo plano, afinal, este é seu primeiro papel no cinema, enquanto o diretor é um dos grandes nomes de Hollywood. Porém, mesmo quando poucas perguntas eram dirigidas a ela, Bay constantemente a interrompia, respondia por ela e a corrigia. "Conta pra eles do primeiro dia de filmagens", pedia ele. "Essa aqui nunca cala a boca", ria. E o desconforto ia crescendo. "Os outros atores gostariam de estar aqui, mas estão gravando outros filmes, essa aqui está desempregada", disse o diretor, apontando Isabela com o queixo, ao que a garota de 16 anos respondeu: "Eu estou na faculdade". 

Não é segredo que Michael Bay tem uma personalidade difícil. Atores, e principalmente atrizes, que trabalharam com o diretor apontaram que ele faz exigências absurdas, é grosseiro, grita no set e demanda que tudo seja feito milimetricamente como ele quer. Megan Fox, que estrelou os dois primeiros Transformers, comparou Bay a Hitler, e disse que era um pesadelo trabalhar com ele. E Bay, em resposta, disse que os atores que reclamam dele deveriam "ficar felizes por terem um emprego". Então é de se imaginar que a dificuldade que a jovem encarou na coletiva seja só uma amostra do que enfrentou no set. Mas se estava abalada, Isabela não deixou transparecer. Com uma postura profissional, ela delimitou suas fronteiras e o diretor, de maneira comedida.

Filha de uma peruana e um americano, Isabela debutou na Broadway no musical Evita, e mais tarde co-estrelou a série 100 Things to Do Before High School, no canal infantil Nickelodeon, em 2014. Em janeiro deste ao foi aceita na universidade, com apenas 15 anos, um feito admirável, principalmente para uma garota que trabalha e estuda desde que sua idade tinha apenas um dígito. 

Talvez por ser mulher, talvez por ser latina, Isabela sabe que com a fama vem uma responsabilidade específica. "Eu não prestava atenção na cor da pele das pessoas quando via filmes, mas dentro da industria você vê as manipulações que pessoas fazem, e de repente eu não era mais ingênua. Percebi que existe muito poder na sua etnia. Você precisa ser responsável e precisa ser um modelo", contou a atriz.

No caso de Transformers: O Último Cavaleiro, a personagem nem foi escrita para ser latina, esse foi um toque de Isabela. "Michael (Bay) me viu falando espanhol e achou que seria engraçado adicionar isso ao filme", conta ela. Bay tem um histórico controverso com a representatividade racial na telona. Ao mesmo tempo em que brigou com deus e o mundo para colocar dois protagonistas negros num filme de ação - "Os Bad Boys" (2003) -, o que era um feito inédito, ele sempre inclui estereótipos raciais ofensivos em seus filmes.

O cuidado de Isabela em escolher seus papeis parece vir junto com a consciência de que, eventualmente, será objetificada: "Querendo ou não, quando uma criança vê seu ídolo ela quer ser igual, seja ao personagem ou à pessoa na vida real, então eu preciso ser responsável. Não quero fazer nenhuma cena com nudez num futuro próximo, vou evitar isso enquanto puder", disse a atriz, que frequentemente posta mensagens feministas em sua conta do Instagram.

Figured I'd be gutsy and finally post this...

A post shared by Isabela 🌹 (@isabelamoner) on

Infelizmente, a personagem de Isabela não tem tanta importância na trama. Assim como os outros filmes da saga, Transformes: O Último Cavaleiro é longo, exaustivo e tem um roteiro confuso, com muitas partes sobrando e algumas faltando. Ela aparece no primeiro ato, some, e retorna no final do terceiro sem muita explicação. O papel de "protagonista" feminina fica com a atriz britânica Laura Haddock, interesse romântico de Mark Wahlberg. Laura é Vivian, uma doutora em história que praticamente não tem função no longa. 

Sobre estrelar nos próximos filmes da saga, Isabela disse que gostaria muito, porém, mais que isso, gostaria de ver uma mudança de direcionamento na franquia: "Mesmo que não seja eu, queria ver uma protagonista mulher em Transformers, mas uma protagonista protagonista mesmo!"

Nós também, Isabela! E de preferência com outro diretor.

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.