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É 2017 e profissionais da comunicação ainda subestimam youtubers

Micheli Nunes
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Micheli Nunes
É 2017 e profissionais da comunicação ainda subestimam youtubers


Um dos assuntos mais batidos entre profissionais da comunicação hoje, especialmente dentro do jornalismo cultural, é a "invasão" dos chamados "youtubers". E a conversa geralmente vem com um enorme preconceito, que passa do "estou velho demais para isso" e inevitavelmente chega ao "os jovens de hoje só consomem porcaria". Mas no seu 12º ano de existência, o YouTube não criou apenas um império bilionário, criou uma salvação para muitos dos modelos decadentes de comunicação.

É verdade que muitas marcas e agências já enxergam esse potencial e trabalham com os youtubers mais populares na divulgação de suas marcas, mas mesmo esses players ainda não parecem enxergar o que é o YouTube. Eles entram nesse universo como turistas, de camisa florida e óculos de sol, querendo falar a língua dos nativos. Não dá pra querer usufruir do alcance do YouTube sem entender e principalmente CONSUMIR o que ele oferece.

O primeiro ponto importante é saber que o YouTube é uma plataforma e enxergá-lo dessa maneira. É uma ferramenta de comunicação, assim como o rádio e a TV, mas com possibilidades infinitamente maiores. Então esse estereótipo de "youtuber" que foi construído com a cultura dos "digital influencers" é apenas a ponta do iceberg. Achar que Youtuber é tudo Kéfera é o mesmo que resumir a história da TV ao Domingão do Faustão.

O que hoje chamamos genericamente de vlog - aquele conteúdo não roteirizado, estilo "oi meninas, essa é a minha vida" - é sim uma parte do conteúdo do Youtube, e o interesse que essas "banalidades" desperta nas pessoas é no mínimo intrigante. Mas o Youtube é INFINITAMENTE MAIOR que isso.

O "conteúdo premium" - séries, reportagens, documentários, curta-metragens, aulas e debates, só pra citar alguns - hoje disponível na plataforma é INESTIMÁVEL. É uma revolução digital de conhecimento que (salvo exceções) estamos tragicamente subestimando. Quem fala inglês e tem internet tem acesso a uma infinidade de conhecimento, intercâmbio cultural e entretenimento que não dava nem pra imaginar há poucos anos. Mas mesmo o conteúdo nacional (e de outros países que falam português) já é riquíssimo. E É GRATUITO!

Por ser uma plataforma democrática - à medida que a pessoa tenha uma câmera, um computador e acesso à internet - o Youtube é o que temos de melhor em representatividade e inclusão. É o que mais se aproxima do ideal de igualdade com que nós sonhamos. Pra quem consome YouTube, a ideia de que a Netflix é "inclusiva" é risível.

Sim, a cultura dos "digital influencers" que cresce no Youtube pode ser extremamente tóxica. Principalmente se levarmos em conta que temos crianças e adolescentes se submetendo a um nível de exposição que ainda não conseguem compreender. É uma coisa com a qual ainda não sabemos lidar como sociedade, mas estamos aprendendo. E sim, você acha muito conteúdo ruim lá dentro, mas esse é o preço da pluralidade. E ninguém é obrigado a ver conteúdo que não agrada, é só procurar algo diferente.

Reduzir "youtuber" a um termo pejorativo é uma enorme injustiça, mas virou norma no meio do jornalismo cultural. Parte disso é rancor porque o jornalismo tradicional, antes tão glamurizado, perdeu o espaço pra um cara que faz vídeo sozinho no quarto. Mas isso também vem de um senso de autoimportância e falta de autocrítica que faz o jornalistão acreditar sem sombra de dúvida que o que ele tem pra dizer é mais relevante. E talvez não seja! Não pra esse público. Não pra esse fim. 

A distribuidora que escolheu dar uma entrevista exclusiva do ator famoso para um youtuber de 20 anos com um milhão de seguidores, e não para o repórter com 15 anos de experiência num jornal que tem tiragem de 50 mil, talvez tenha bons motivos para isso. E talvez seja hora de parar de pensar em você, profissional da imprensa, como um funcionário intelectual e começar a pensar como marca, principalmente porque temos uma mídia tradicional cada vez mais sucateada, e uma plataforma outra que permite ao produtor monetizar o próprio conteúdo. Onde está o seu público hoje e onde ele estará em 10 anos? Onde ele consome conteúdo e que empresas estão pensando nisso?

Hoje eu consumo mais YouTube do que TV e Netflix. E a maior parte do que eu consumo é conhecimento. É lá que eu encontro aulas de espanhol, caligrafia, desenho, culinária, política e... CINEMA. Sim, eu sou especializada em cinema, tenho educação formal, e sempre recorro ao Youtube pra aprender mais. E falo sem pestanejar que lá eu encontro um conteúdo muito mais relevante do que um MONTE de pós-graduações caríssimas e superestimadas.

E só pra deixar um gostinho aqui, vejam esse vídeo (em inglês) da Lindsay Ellis sobre Mel Brooks, o "politicamente incorreto" e o famoso "limite do humor", assunto TÃO DISCUTIDO nos últimos 5 anos. É de longe o melhor conteúdo que eu já encontrei sobre o tema, e de longe uma das melhores análises jornalísticas sobre um perfil que eu já vi.