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Entenda o que é 'Queerbaiting' e o problema da falsa representatividade

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Entenda o que é 'Queerbaiting' e o problema da falsa representatividade

Imagem: Divulgação

Mais uma vez a franquia "Animais Fantásticos", do universo de Harry Potter, foi envolvida em polêmica. O diretor David Yates disse, em uma entrevista para a revista Entertainment Weekly, que a homossexualidade de Alvo Dumbledore, revelada há mais de 10 anos por JK Rowling, não será mencionada diretamente no próximo filme da saga. "Não será explícito. Mas eu acho que os fãs já estão cientes disso. Ele tinha uma relação muito intensa com Grindelwald quando eles eram jovens. Eles se apaixonaram pelas ideias um do outro, pela ideologia um do outro e um pelo outro", completou o o diretor, confirmando o que temíamos. Dumbledore deve ser mais um caso de queerbaiting.

O termo vem das palavras em inglês “queer” (usada para se referir a uma pessoa LGBTQ) e “bait” (“isca”). Queerbaiting é uma estratégia muito usada principalmente em séries de TV – mas também em filmes, livros, HQs, animações e etc – para passar a impressão de que são mídias inclusivas, e assim atrair o público LGBT, mas sem mostrar personagens abertamente LGBT na trama. Dessa maneira, além de "agradar" a um público sedento por representatividade, a produção não afasta a audiência conservadora e não cria polêmicas. Por algum tempo essa estratégia funcionou, mas tem sido cada vez mais criticada, porque além de ludibriar o público LGBT e tirar vantagem de sua audiência, o queerbaiting rouba um espaço precioso e dá uma falsa ilusão de representatividade.

Entre as obras mais reconhecidas pelo uso de queerbaiting estão a série "Sherlock" e "House", ambas inspiradas, em menor e maior grau, pela obra de Arthur Conan Doyle. O relacionamento de Sherlock e Watson, e de House e Wilson, é diversas vezes repleto de insinuações homoafetivas, que vão muito além de uma amizade platônica, mas que nunca chegam a ser concretizadas. A série "Supernatural" também aparece entre as mais citadas, com o clima crescente entre Dean e Castiel, que têm uma relação no mínimo ambígua na trama, o que chegou a virar motivo de piada entre os atores fora de cena.

Em 2007, JK Rowling disse que Dumbledore era gay em um encontro com fãs, em Nova York, tirando o personagem do armário "off screen", ou seja, fora dos livros/filmes. A revelação, feita três meses depois do lançamento do último livro, foi muito bem recebida por uma grande parcela de fãs LGBT da saga, e ao mesmo tempo gerou pouca polêmica com o público conservador, pois não foi "oficializada" dentro do material que ela vendia. A sexualidade do personagem também nunca foi abordada nos filmes. Com o passar dos anos, e o aumento de voz e representatividade LGBT, essa escolha da escritora tem sido cada vez mais criticada, junto com uma cobrança crescente de que emendas sejam feitas nas novas produções do universo de Harry Potter.

A fala do diretor, além de confirmar um grande temor do público, veio cheia de problemas. Começando pelo termo "explícito", que carrega uma conotação pesada e negativa, e nunca seria usado para descrever um relacionamento heterossexual. Dizer que "os fãs já estão cientes" também contribui com a cultura de relegar pessoas LGBTs para um "gueto" simbólico. É um tipo falso de aceitação, que diz que o gay pode existir, mas somente dentro de uma série de regras que nunca se aplicam a heterossexuais. O famoso "pode ser gay, mas não pode dar bandeira".

Enquanto outros casais do universo - como Rony e Hermione, Harry e Gina, e mais recentemente, Newt e Tina, e Queenie e Jacob - têm total permissão de existir "explicitamente", mesmo que isso não tenha quase nenhuma influência na trama, o amor de Dumbledore por Grindelwald, que moldou toda a existência dos dois e foi o estopim do segundo maior conflito bruxo dentro do universo criado por JK, não vai ser mostrado abertamente. E nem estamos falando de cenas de beijo ou afeto, apenas da confirmação canônica de um plot importantíssimo.

Em 2016, JK deu uma entrevista sobre o tema, provocando os fãs sobre como seria a representatividade de Dumbledore em "Animais Fantásticos". “Eu fico bem confortável com relação a essa questão. Gostaria de falar sobre esse assunto porque, obviamente, é uma história em cinco partes, há muito o que se descobrir sobre isso. Vocês verão Dumbledore como um homem mais jovem, um tanto perturbado. Veremos ele naquele período de formação em sua vida. E sobre sua sexualidade, fiquem ligados“, disse a autora em uma coletiva de imprensa. Agora, após as declarações de Yates, os fãs estão cobrando um posicionamento mais firme através do Twitter, e JK não tem ficado feliz com essa pressão.

"Sofrer abuso sobre uma entrevista que não me envolvia, sobre um roteiro que eu escrevi, mas que nenhuma das pessoas raivosas leu, e que é só uma parte de uma série de cinco filmes, é obviamente muito divertido, mas sabe o que é mais divertido?", tuitou a escritora, junto com um gif de um homem apertando o botão de "MUDO" em um controle remoto. Ou seja, JK ainda mantém a aura de mistério, tirando o corpo fora e ganhando tempo até sabe-se lá qual filme da saga. Mas enrolar não faz sentido, já que o próximo filme está focado justamente no período em que Dumbledore começa a confrontar seus sentimentos por Grindelwald e sua responsabilidade de ajudar a detê-lo. Se não for agora, quando será?