MULHERES

Estupradores devem ser ouvidos no debate sobre o estupro?

Micheli Nunes
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Micheli Nunes

Thordis Elva, a finlandesa que está viajando o mundo dando palestras ao lado de seu estuprador, o australiano Tom Stranger, vem levantando uma enorme polêmica em todo o mundo. Para maior compreensão, leia o texto abaixo. 

Em Londres, na frente do Royal Festival Hall, onde eles se apresentaram, manifestantes carregavam cartazes de repúdio e gritavam: "Temos um estuprador neste prédio". Mas a dura verdade é que essas pessoas estavam erradas. Segundo a OMS, uma em cada quatro mulheres será estuprada durante sua vida. Mas a Organização não tem dados sobre quantos homens são vão estuprar uma mulher durante suas vidas. Se partirmos do pressuposto de que não é apenas um homem que saiu cometendo todos esses crimes, chegaremos a um número bastante alto de homens estupradores. Sendo assim, naquele prédio, onde uma plateia de 2.900 pessoas assistiu à palestra, havia MUITO mais do que apenas um estuprador.

Estupradores devem ser ouvidos no debate sobre o estupro?

Thordis argumenta no vídeo que o "rótulo de vítima" desumaniza as pessoas e diminui o valor delas, mas que o "rótulo de estuprador" também causa danos. "Quando alguém é marcado como estuprador, é mais fácil chama-lo de um monstro desumano. Como vamos entender que é a sociedade humana que produz esse tipo de violência, se nós recusamos reconhecer a humanidade daqueles que a cometem?". Este argumento é muito reverberado em meios feministas, justamente porque a maioria dos estupros é cometida por pessoas que conheciam a vítima. É muito mais fácil conceber a ideia de que quem comete esse tipo de violência é de alguma maneira diferente do "normal", mas isso não reflete a realidade. 

À medida que passarmos a entender que pessoas perfeitamente "normais", sociáveis, simpáticas, cercadas de amigos e familiares que as amam, também cometem estupros, vamos conseguir dar um passo em direção a erradicação desse crime. Thordis conta que não entendeu o ocorrido como estupro porque não se encaixava na visão perpetuada desse tipo de crime. Ele era seu namorado, era carinhoso, bonito, estavam no quarto dela, depois de uma noite encantadora. Quando ela se deu conta do ocorrido, ele já estava longe. Quantas vítimas não passam pelo mesmo processo e sofrem em silêncio, incapazes de legitimar sua dor? E quantos estupradores violentam mulheres mas não acham que fizeram nada errado, porque a vítima era sua namorada?

O desafio principal para desmistificar esse preconceito é justamente a necessidade de humanizar o estuprador, coisa que é impensável na maioria dos círculos que debatem o assunto. Isso porque a ideia de dar um rosto ao criminoso é logo associada à impunidade, ao desrespeito à vítima e ao machismo. Como fazer isso sem parecer que estamos tentando minimizar o crime ou silenciar a vítima? Talvez Thordis tenha encontrado a maneira. Ela usou sua própria história, ao lado do seu estuprador, sem expor nenhuma outra vítima, e deixando bem claro que o que eles fizeram não serve de modelo para ninguém. 

Thordis não pede que mulheres que foram estupradas encontrem seus algozes e tentem uma reconciliação. Seu objetivo é desmistificar a imagem do estuprador e mostrar para as vítimas que existe uma vida completa e feliz após o estupro. E Tom conversa direto com homens que já estupraram, muitos dos quais provavelmente estavam ali, assistindo à palestra. "Eu achava que se tomasse responsabilidade, meu certificado de humanidade ia ser revogado, em vez disso, tive a oportunidade de admitir o que eu fiz, e descobri que isso não possuía inteiramente quem eu sou. Simplificando: algo que você fez, não precisa ser a soma de quem você é. (...) Mas mais importante que tudo isso, é que a culpa foi transferida da Thordis para mim. Muitas mulheres se culpam pela violência que sofreram". 

Há alguns anos participei do Segundo Encontro da Parceria Global Para o Fim da Violência Contra a Mulher (iniciativa da ONG Vital Voices, com patrocínio da Avon), em Brasília. Dos quatro dias de debates e palestras, um deles foi dedicado aos agressores. A princípio, a ideia de dedicar espaço a homens que batiam em mulheres me deu repúdio, mas assistindo aos debates entendi a importância de olhar para os dois lados. Um dos palestrantes, o psicólogo e doutor em saúde coletiva, Marcos Nascimento, explicou que não enxergar os homens é ineficiente: “Percebemos que trabalhar só com as mulheres não tem sido suficiente. Se os homens são o problema, eles precisam ser considerados na busca pela solução”. Tanto que Delegacias da Mulher em todo o país estão equipadas para orientar e encaminhar homens confessos que não cumprirão pena para tratamentos psicológicos.

Estatisticamente, é quase impossível que um homem cumpra longas penas por violência doméstica ou mesmo estupro. A maioria deles continuam convivendo em sociedade, e a maioria deles é reincidente. Uma educação sem machismo é uma solução a longo prazo que ainda nem sabemos como implementar efetivamente em larga escala. O que temos no momento, em termos de ferramenta, é o empoderamento das mulheres, o que é essencial, mas já estabelecemos que as vítimas não são a causa do estupro, então dar a elas a responsabilidade não é efetivo. 

Tom está em uma posição inédita, a de um estuprador que fala sobre assunto abertamente e se mostra arrependido. Querer que ele seja punido não significa querer silenciá-lo, uma coisa não anula a outra. Além do discurso dele nos ajudar a entender as motivações do estuprador e a maneira como ele racionaliza seu crime, o que pode ser muito útil na hora de desenvolver métodos para impedir novos casos, ele tem mais chances de ser ouvido por seus semelhantes. O papel de Tom não é falar no lugar das vítimas, ou ser protagonista do debate, mas alcançar um público que nós não alcançamos.