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Estupro, assédio e abuso: Uma Thurman sobreviveu aos homens de Hollywood

Micheli Nunes
Autor
Micheli Nunes
Estupro, assédio e abuso: Uma Thurman sobreviveu aos homens de Hollywood

(Imagem: Divulgação)

No mundo pós Harvey Weinstein, começamos aos poucos a enxergar toda a podridão por trás da vida glamurosa de Hollywood, e aprendemos que nem mesmo as atrizes mais fortes e independentes estão livres dos costumes abusivos de homens poderosos. Em uma entrevista divulgada hoje pelo jornal The New York Times, a atriz Uma Thurman contou que foi estuprada por um ator, abusada por Harvey Weinstein e que sofreu com o abuso de autoridade de Quentin Tarantino, que era seu amigo.

Em 18 de outubro do ano passado, alguns dias após a exposição de Weinstein, Thurman foi questionada sobre o tema, já que trabalhou com o produtor em diversos filmes. Com a voz embargada ela respondeu que estava esperando sentir menos raiva para poder dividir sua história. Esse momento chegou. "Eu usei a palavra 'raiva', mas estava com medo de chorar, para dizer a verdade", disse ela à jornalista Maureen Dowd, a quem contou que, aos 16 anos foi estuprada por um ator 20 anos mais velho, cujo nome ela não revelou.

"Eu tentei dizer não, eu chorei, eu fiz tudo o que eu podia. Ele me disse que a porta estava trancada, mas eu não corri para tentar abrir. Quando cheguei em casa, eu lembro de me olhar no espelho e olhar as minhas mão, e fiquei com raiva delas por não estarem sangrentas e machucadas", revelou a atriz. Depois disso, Thurman também sofreu nas mãos de Weinstein, em encontros que foram escalando em agressividade, até o momento em que ele a agarrou à força. "Foi um golpe para mim. Ele me empurrou para baixo e tentou se enfiar em mim". Depois disso, Thurman conta que os agentes de Weinstein arranjaram outro encontro, do qual ela só se lembra das ameaças de que ele destruiria sua carreira, o resto foi apagado de sua mente. Uma amiga de Thurman, que a acolheu depois do encontro, conta que a atriz estava em choque, apenas tremia e não conseguia falar.

Quentin Tarantino

Já ouvimos muitos relatos similares sobre Harvey Weinstein, mas seu amigo próximo, Quentin Tarantino, ainda é pouco questionado sobre sua conivência. "Eu sabia o suficiente para fazer algo e não fiz nada", disse o diretor em uma entrevista ao New York Times, dando um jeito de sair como bom-moço arrependido na história. Thurman disse que contou a Tarantino sobre o ataque: "Ele provavelmente desmereceu o ocorrido, 'oh, pobre Harvey, tentando pegar garotas que ele não pode', ou qualquer coisa assim que ele tenha dito a si mesmo, quem sabe?". Mas Thurman trabalhava com Tarantino, que fazia todos os seus filmes com Weinstein. O clima pesado entre os dois não podia ser ignorado. A atriz cobrou Tarantino, que finalmente confrontou Weinstein. O produtor fez um pedido de desculpas "meia-boca" à Thurman, e tudo voltou ao normal. Quentin continuou trabalhando com Weinstein como se nada tivesse acontecido.

E não foi só nesse aspecto que Tarantino falhou com Thurman e ficou do lado de Weinstein. Durante as gravações de "Kill Bill", o produtor insistiu que a atriz fizesse uma cena, na qual ela precisaria dirigir um carro em uma estrada de terra. A equipe avisou Thurman de que o conversível que ela deveria dirigir estava com problemas mecânicos, e que o banco estava solto. Ela pediu que uma dublê treinada fizesse a cena, mas Tarantino teve um ataque de raiva e insistiu que ela mesma dirigisse, e disse que precisava ser em alta velocidade para que seu cabelo voasse. Thurman acatou a ordem, e acabou sofrendo um acidente sério, machucando a coluna, o pescoço e os joelhos. O vídeo do acidente, que tem imagens fortes, pode ser visto no artigo.

Em outra cena em que a personagem de Thurman é torturada e leva uma cuspida no rosto, Tarantino fez questão de que ele mesmo cuspisse no rosto da atriz. Em outra cena, na qual ela é enforcada com uma corrente, ele segurou a corrente. Esse comportamento questionável, e a despreocupação com o desconforto da atriz mostram que o sexismo em Hollywood vai muito além de assédio e abuso sexual. A dinâmica de poder entre homens e mulheres, principalmente quando eles são diretores e produtores, e elas atrizes, abre espaço para todo tipo de abuso de autoridade.

Quentin Tarantino era amigo de Thurman, mas mesmo dizendo que estava arrependido por colocá-la em risco, ele se recusou a dar a ela uma cópia em vídeo do acidente, temendo que ela processasse a Miramax, empresa de Weinstein. Ele só voltou atrás depois que todo o escândalo se tornou público. "Quanto eles se voltaram contra mim, depois do acidente, eu passei de uma colaboradora criativa para um ferramenta quebrada", contou Thurman. "Harvey me insultou, mas isso não me matou. O que realmente me afetou sobre o acidente foi o golpe baixo. Eu sempre senti uma conexão com o melhor de mim no trabalho de Quentin, e tudo o que eu permiti que acontecesse comigo foi meio que uma briga com um irmão raivoso. Mas pelo menos eu tirava algo disso".