MULHERES

#EuViviUmRelacionamentoAbusivo

Micheli Nunes
Author
Micheli Nunes
#EuViviUmRelacionamentoAbusivo

Eu, assim como MUITAS, MUITAS, MUITAS mulheres da minha timeline, vivi um relacionamento abusivo. Ele era um pouco mais velho, inteligente, engraçado, descolado, se dizia feminista, me mostrava bandas e filmes, me elogiava, fazia com que eu me sentisse especial. Começou a flertar comigo enquanto ainda tinha namorada, mas não me contou nada. Um dia disse que terminou com ela. Eu acreditei. Desenvolvemos um relacionamento que ele nunca chamou de namoro, mas cobrava de mim uma "conduta" de namorada.

Ele nunca me bateu, mas me controlava em praticamente todos os aspectos, tudo com chantagem emocional. Se eu era "boa", ele era um amor, se eu "saísse da linha", ele era outra pessoa completamente diferente. Ele vigiava meu orkut e se visse algum depoimento ou scrap de outro homem, ficava dias sem falar comigo. Do nada. Um dia era extremamente afetuoso, no outro desaparecia. Não ligava, não respondia e-mail, não atendia o telefone, não via sms, não ficava online no msn. Quando um colega de classe tentou me beijar, ele ficou meses sem falar comigo. 

Depois de um tempo ele reaparecia, mas era frio. Mal falava comigo. Era grosso. Se eu questionava ele se fazia de desentendido, dizia que eu estava "inventando coisas". O famoso gaslighting. Quando se cansava da minha insistência, ele dizia: "se você não sabe o que você fez, não sou eu que vou dizer". E daí eu apagava todos os scraps, deletava amigos homens do orkut, mudava minha foto. Pedia desculpas por tudo, tentava justificar qualquer coisa. Ele mal reagia. 

Quando achava que eu já havia sido castigada o suficiente, ele voltava a ser fofo. Dizia que a internet era cheia de homens mais velhos que não prestavam, que se preocupava comigo. Dizia que teve "uma experiência horrível com a ex-namorada louca" e por isso era "cauteloso". Dizia que me amava "mais que tudo no mundo", que tinha feito uma playlist pensando em mim. Me mandava oito, nove, dez e-mails por dia, me dava presentes, escrevia cartas enormes. Dizia que eu era diferente das outras meninas, que eu era especial, que íamos envelhecer juntos.

Ele nunca saía comigo em público, preferia ficar em casa. Estava sempre cansado demais pra ir ao cinema. Quando eu não quis fazer sexo, ele insistiu, me puxou pelo braço, me prendeu com o peso do corpo dele. Insistiu. Insistiu. Insistiu. Eu odiei, mas fingi que gostei. Um dia desconfiei que ele ainda estava namorando a suposta ex. Questionei. "De onde veio toda essa cobrança? Estamos casados e eu não sabia?". Eu virei a louca, que não deixava ele em paz, que mandava mensagens demais, que atrapalhava o trabalho dele. 

Depois que eu terminei, fiquei completamente destruída. Levei mais de um ano pra enxergar os abusos. Eu? Feminista, independente, corajosa, de temperamento forte e sem filtros na língua? Eu jamais ficaria num relacionamento abusivo por seis anos. A verdade foi difícil de engolir. Levei mais uns três anos pra jogar tudo que ele tinha me dado fora. E-mails, cartas, desenhos, mensagens. Foi um exorcismo. Ainda sinto agonia quando vejo alguém com a silhueta dele na rua, ou com o mesmo nome. Nunca mais fui a mesma. Mas nunca mais nenhum homem abusou de mim.