POLÍTICA

Feminismo foi a palavra do ano, mas ainda temos um longo caminho pela frente

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Feminismo foi a palavra do ano, mas ainda temos um longo caminho pela frente

Imagem: Henri Meilhac

No fim de novembro, o site Dictionary.com divulgou que a palavra do ano de 2017 seria "cúmplice", depois que a busca por ela cresceu 300% em relação a 2016. Em resposta, o dicionário Merriam-Webster publicou em dezembro sua lista de palavras do ano, e em primeiro lugar ficou "Feminismo" - que esteve no top 10 nos últimos anos, mas só chegou agora ao topo. Curiosamente, essas duas palavras tiveram uma correlação muito forte em 2017, com todos os escândalos sexuais de abusadores "escondidos" à vista de todos. Mas por mais que responsabilizar os abusadores e seus cúmplices seja fundamental, é muito mais otimista e esperançoso que o foco esteja no Feminismo.

Nós sabemos que não foi em 2017 que o Feminismo se popularizou, mas seu destaque na mídia foi constante. A palavra pipocou nas buscas depois da Marcha das Mulheres, que aconteceu em Washington, nos EUA, e em vários lugares do mundo no mês de março. Com o lançamento da série "The Handmaid's Tale" e o filme da "Mulher Maravilha", as buscas pela definição de Feminismo também subiram. Depois das denúncias contra Harvey Weinstein, e da campanha com a Hashtag #MeToo (#EuTambém), o interesse aumentou ainda mais.

Mas é muito importante lembrar que no centro do Feminismo estão as mulheres. E quanto mais os temas ligados ao feminismo são discutidos na mídia mainstream, maior é a tendência de focar a história nos homens. No recente clima pós-Weinstein, uma das perguntas mais repetidas foi "por que elas não disseram nada antes?". E a resposta é simples: elas disseram sim, nós todas dissemos! Mas as outras pessoas não ouviram, não acreditaram ou escolheram ignorar. E mesmo agora, que começamos a ser ouvidas, homens ainda conseguem de alguma maneira ganhar os holofotes.

Em outubro, as jornalistas Jodi Kantor e Megan Twohey reuniram relatos de mais de 50 mulheres que acusaram Weinstein e foram caladas por décadas em uma matéria para o New York Times. Mas apenas cinco dias depois, quando um homem, o jornalista Ronan Farrow, publicou sua reportagem expondo Harvey na revista New Yorker é que as coisas começaram a acontecer. E mesmo que essas duas jornalistas tenham feito o furo de reportagem, e que as mulheres que denunciaram tenham arriscado suas reputações e carreiras, quem ganhou os créditos foi Farrow.

Feminismo foi a palavra do ano, mas ainda temos um longo caminho pela frente

The Times: Ronan Farrow - 'O homem que derrubou Weinstein' (reprodução/Twitter)

Isso tudo certamente fala sobre a cumplicidade da sociedade com os homens, e principalmente sobre a dificuldade em estar ao lado das mulheres que acusam homens. E as coisas só vão de fato mudar quando começarmos a enxergar esses padrões e a tentar corrigí-los. Mesmo sendo a palavra do ano, o Feminismo ainda não foi praticado institucionalmente em 2017. Ainda somos minorias em todos os lugares, dos cargos políticos aos blockbusters nos cinemas. Não temos autonomia sobre nossos corpos e não estamos seguras nos nossos trabalhos e nem dentro das nossas casas. E mulheres negras e LGBTs são ainda menos representadas e estão em maior risco. Temos muito o que mudar e a luta está apenas começando.