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Girlboss - Por que odiamos Sophia?

Micheli Nunes
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Micheli Nunes
Girlboss - Por que odiamos Sophia?

Apesar da popularidade, os comentários sobre a série Girlboss, que estreou na Netflix no dia 21, não têm sido positivos. Não que a série não seja boa - é boa - mas por causa da personagem principal, Sophia. Um breve resumo é que ninguém gosta de Sophia. Mimada, privilegiada, arrogante, grossa, egoísta e babaca são alguns dos adjetivos direcionados a elas nas redes sociais. Mas se nós somos capazes de aturar esse comportamento em vários personagens, então o que torna Sophia especialmente odiável?

Quando se trata de personagens intragáveis, podemos dividir em duas categorias. Aqueles que amamos odiar (por exemplo, Joffrey de Game of Thrones) e os que são como Sophia, personagens pelos quais deveríamos torcer, mas que aparentemente não despertam simpatia o suficiente para que a gente goste deles. Quando isso acontece com a protagonista da série, especialmente nessa magnitude, algo está errado. No caso de Girl Boss, podemos listar três fatores que influenciaram o desgosto. 

Privilégio

Sophia é uma garota branca, heterossexual, magra, bonita e com um pai que tem dinheiro. Ela quer independência, por isso enfrenta dificuldades financeiras, mas se quiser pode sempre voltar a morar na casa confortável do pai. Ou se esforçar no trabalho (ela tem um emprego). Ela mora em um apartamento fofo e todos os seus problemas são de classe média. A série também sofre com falta de diversidade, que fica ainda mais gritante quando levamos em consideração que a trama se passa em São Francisco, uma cidade conhecida por sua comunidade LGBT. Os dois únicos personagens gays - um amigo de Sophia e um vizinho, interpretado por RuPaul - aparecem pouquíssimo, são descartáveis e estereotipados, com quase nenhuma influência na trama, e parecem ter saído de uma série dos anos 90, pré Will and Grace.

E em época de diversidade crescente nas produções de TV, especialmente na Netflix, com séries como The Get Down, Chewing Gum, Orange is The New Black e Unbreakable, uma personagem nesses padrões precisa ser muito carismática para conquistar o público, o que é o caso de Crazy Ex-Girlfriend, por exemplo. Criada para agradar os "millennials", Sophia absorve praticamente todos os estereótipos atribuídos a essa geração. E mesmo sendo inspirada em uma história real de uma mulher empoderada (e polêmica), que construiu sozinha um império, os percalços de Sophia não parecem desafiadores o suficiente para gerar empatia. 

Ela é egoísta, não trabalha direito, age como se fosse dona do mundo e não respeita as regras. Como se apenas isso fosse gerar identificação com a realidade do público alvo, o que passa longe de ser verdade. Sophia é privilegiada, naturalmente talentosa, e seus desafios não parecem afetá-la de maneira significativa, pelo menos na primeira metade da temporada. E esse é um problema estrutural da série, o que nos leva ao segundo ponto.

Falha de desenvolvimento de personagem

Um bom personagem precisa de duas caracteristicas básicas: falhas e propósito. É isso que dá a ele humanidade. E quando as fraquezas o impedem de alcançar seus objetivos, e a superação dessas fraquezas o leva ao sucesso, temos um bom arco de personagem. Mas para que a audiência se identifique com ele, o personagem precisa também de uma personalidade genuína, o que no caso de Sophia demora muito a aparecer. Apesar de sua humanidade e de seu sonho, apenas no quinto episódio Sophia vislumbra alguma consequência para suas ações muito questionáveis dos primeiros três episódios. Mesmo em tempos de maratonas, é um longo período para testar a resiliência do espectador.

John Truby, famoso roteirista, professor e consultor em mais de 1.800 filmes em Hollywood, argumenta que muitos criadores erram ao enfatizar somente a transformação pessoal dos seus personagens ignorando o impacto moral das ações deles em personagens secundários. Essas falhas são relativamente comuns desde que a moda dos anti-heróis, marcada por House e Dexter, se estabeleceu. É muito fácil pesar a mão ao criar um personagem questionável e torná-lo irritante. Mas por que temos uma tolerância maior com a maioria dos anti-heróis e perdemos a paciência tão fácil com Sophia?

Machismo

Nós aturamos, e até adoramos, personagens babacas e chatíssimos como Ted Mosby (How I Met Your Mother), Ross Geller (FRIENDS), Danny Castellano (Mindy Project) e dezenas de outros homens que deveriam ser os caras legais das suas respectivas séries. Isso sem contar os personagens que foram criados para serem antiéticos e até criminosos, como Don Draper e Walter White. Porém, para que uma personagem feminina seja odiada, é preciso muito pouco. Lori, de The Walking Dead, e Skyler, de Breaking Bad, foram execradas pelos fãs a ponto de terem suas participações diminuídas e até cortadas das séries. As atrizes, inclusive, receberam ameaças de morte e de estupro na vida real. E ambas personagens foram criadas apenas para serem mulheres fortes que se vêem em situações adversas, e não vilãs.

Quando uma personagem feminina demonstra qualquer característica que não seja de abnegação e generosidade, ela quase que irremediavelmente vira uma egoísta. É super ok para personagens masculinos pisarem em outras pessoas para alcançarem seus objetivos, mas uma mulher deixar de sacrificar a própria individualidade por um objetivo é questionável. E quando se trata de uma mãe, não se espera nada menos dela do que sofrimento e gratidão. Ambição, liderança e empreendedorismo ainda são características que só se traduzem positivamente no universo masculino, e Sophia sofre com isso. Ela não fez nada que Don Draper não faria, mas ele será sempre o publicitário charmoso e sedutor, enquanto ela é uma patricinha mimada insuportável. O nome disso é machismo.