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A bissexualidade em 'Crazy Ex-Girlfriend' é tudo o que nós queríamos

Micheli Nunes
há 5 meses4.4k visualizações
A bissexualidade em 'Crazy Ex-Girlfriend' é tudo o que nós queríamos
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Em tempos de luta por representatividade na mídia e com cada vez mais minorias em papéis relevantes nos filmes e nas séries, um grupo continua inexplicavelmente invisível: os bissexuais. E é por isso que o personagem Darryl, um tiozão nada descolado da ótima série Crazy Ex-Girlfriend, salta aos olhos quando sai do armário como bi.

A letra B sempre foi o irmão invisível dos LGBTs, preterida em relação às lésbicas e principalmente aos homens gays, que praticamente monopolizam o movimento*. Quando um bi está com alguém do mesmo sexo, é chamado de gay/lésbica, quando está com alguém de outro sexo, é visto como apenas um heterossexual querendo chamar a atenção. E julgamentos assim acontecem mesmo em meios gay-friendly. Bis são quase sempre apagados, e quando aparecem é de maneira distorcida. Isso promove uma sensação de falta de identidade que faz com que bissexuais tenham mais problemas com depressão e ansiedade e cometam mais suicídio do que gays e lésbicas.

Personagens bis até aparecem na cultura pop com certa frequência, mas 99% das vezes, não usam a palavra "bissexual" para se descreverem. Muitos repetem o clichê do "prefiro não usar rótulos", e alguns até verbalizam sua sexualidade como "em transição", reforçando o estereótipo de que bissexuais são "indecisos". E é muito comum também que personagens que são retratados como gays ou lésbicas fiquem com pessoas de outro sexo, o que imediatamente faz com que o público conclua que eles não são mais gays, se tornaram heterossexuais, sem ao menos contemplar a bissexualidade como possibilidade.

Em Orange is The New Black, uma série aclamada por sua diversidade, Piper diz claramente em um episódio que gosta de homens e mulheres, mas em outro afirma que "era lésbica" quando estava com a Alex, implicando que voltou a ser heterossexual quando começou um relacionamento com Larry. Em uma briga, mesmo depois de meses de relacionamento, Alex também acusa a namorada de ser hétero. Mais tarde, Piper chega a mencionar a escala Kinsey, um conceito mais complexo, que enxerga a sexualidade como um espectro, mas nunca se diz bi, o que deveria ser muito mais fácil de explicar.

E a coisa é tão feia, que mesmo os personagens que abertamente sentem atração por mais de um gênero, mas não saem do armário como bi, são dolorosamente estereotipados. Eles são escritos como extremamente sensuais e geralmente são interpretados por mulheres jovens e atraentes ou latinos - outro grupo que sofre com estereótipos hipersexualizados -, que têm dificuldade de manter apenas um relacionamento e constantemente fazem sexo a três e orgias. 

Assim, a ideia de que pessoas bis seriam ninfomaníacas, de pouca confiança e com tendências a trair seus parceiros se perpetuou como fogo na nossa cultura. Na realidade, estatisticamente bissexuais não traem mais ou praticam mais ou menos sexo do que as pessoas monossexuais (gays e héteros). Outro ponto importante é que bissexuais não são necessariamente poliamorosos, e praticam a monogamia na mesma medida que a sociedade em geral.

E é por isso que a representatividade bi em Crazy Ex-Girlfriend é tão importante! 

Na trama, Darryl é o dono de uma empresa de advocacia e passa por um divórcio sofrido. Com seu bigode não-irônico e seus gostos cafonas, ele é um tiozão nada descolado, daqueles que fazem a piada do pavê no almoço de família. Um dia, Darryl se vê atraído por um amigo e descobre que é bissexual. Sua cena de "saída do armário", em um número musical hilário no maior estilo pop britânico dos anos 80, é um oásis de informações corretas.

A letra da música que ele canta, "Getting Bi" - um trocadilho que pode ser traduzindo como "sendo bi" ou "sobrevivendo" -, reflete sobre os problemas da invisibilidade bissexual. "Alguns dizem 'Você é apenas gay, por que não se assumir?', mas não é isso, porque a bissexualidade é legítima", canta Darryl, que continua: "Ser bi não implica que você é cafajeste ou safado. Eu gosto de sexo, mas não sou 'putão', gosto de levar as coisas devagar até me sentir confortável". Um fofo <3 

Confira a música maravilhosa abaixo e aproveite para assistir a Crazy Ex-Girlfriend, que está inteira disponível na Netflix.

*Como o artigo é sobre sexualidade, trans e queers, termos que se referem a identidade de gênero e não a orientação sexual, não foram mencionados.

Campanha da Dove quer mudar a maneira como mulheres são retratadas na mídia

Micheli Nunes
há 5 meses2.3k visualizações
Campanha da Dove quer mudar a maneira como mulheres são retratadas na mídia
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Quando se procura por "mulher" em bancos de imagens, existe uma grande chance de todas as imagens mostrarem mulheres brancas, magras, super produzidas. A maioria em poses sensuais, ou comendo saladinhas, ou fazendo exercícios em uma academia. Esses bancos de imagens refletem a falta de diversidade de mulheres na mídia e estabelecem um padrão inalcançável para nós. Além de contribuir com a objetificação e a hiperssexualização de garotas desde a puberdade. E é isso que a nova campanha da Dove quer mudar. 

"Como indústria, nós desempenhamos um papel na representação de gênero na mídia. Quando usamos imagens que não refletem a sociedade, que mostram mulheres como objetos, nós ditamos ideais irreais", diz a campanha, que afirma que 68% das mulheres não se identificam com o que vêem na publicidade. A mudança, segundo a Dove, é hackear o sistema pelo lado de dentro, e assim mudar a autoimagem das mulheres.

E como eles fizeram isso?  Entraram no maior banco de imagens do mundo, fizeram o upload de centenas de imagens de mulheres fugindo do estereótipo, com maior diversidade e trabalhando, lutando, brincando, exercitando a criatividade e o talento em áreas consideradas "masculinas". Daí eles tagearam essas imagens com termos como "mulher", "mulher bonita", "mulher real". Dessa maneira, quando esses termos forem buscados no site, em vez de uma mulher de biquini, vai aparecer uma mulher fazendo manobras de skate.

Campanha da Dove quer mudar a maneira como mulheres são retratadas na mídia

A Dove também fez campanhas em outdoors em todo o mundo, convidando agências de publicidades a serem embaixadoras da causa e a usarem suas imagens de mulheres reais em suas campanhas. E não é que funcionou? Mais de 1700 imagens foram baixadas e 42 agências ao redor do mundo de fato colocaram nas ruas as fotos que a Dove colocou no ar. Arrasou!

Confira o vídeo da campanha Image_Hack aqui:

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.