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É tudo culpa desses millennials mimados

Micheli Nunes
há 2 meses27.9k visualizações
É tudo culpa desses millennials mimados
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Imagem: Divulgação/Mattel

Recentemente fui a uma reunião negociar um freela com um cliente e o diretor da agência perguntou se eu gostaria de ser contratada como funcionária fixa. Eu disse que estava feliz como freelancer, mas se a posição fosse boa, e se o salário fosse melhor do que eu estava ganhando com os freelas, eu poderia aceitar. Ele me olhou com um sorrisinho irônico e disse: "Nem foi contratada e já quer ser promovida? Essa geração de millennials é fogo mesmo".

Esses millennials - mais conhecidos nas redes sociais como "essa geração" - são definidos como pessoas que nasceram entre o começo da década de 80 até quase os anos 2000. Mas esse "recorte" que é promovido pela mídia e muito discutido no LinkedIn, refere-se mais aos "late millenials" (a galera de vinte e tantos anos) e aos "post millennials" (jovens e adolescentes que estão entrando no mercado de trabalho), e diz respeito, via de regra, apenas aos jovens urbanos de classe média a alta e com formação superior.

Você provavelmente já deve ter se deparado com algum textão no facebook ou alguma coluna de um grande jornal ou revista reclamando do comportamento "mimado" e "egocêntrico" dos tais millennials. A narrativa é sempre similar, generalizada e mal contada: algum XÓVEM folgado não quis "seguir as regras", não foi comprometido, desistiu fácil e fodeu com a vida dos pobres colegas ou chefes, que são os verdadeiros trabalhadores dedicados. "Essa geração, viu?"

Reclamar das gerações mais jovens não é nada novo, faz parte do clássico discurso cíclico de que "no meu tempo não era assim". Mas com a crise financeira e o boom das redes sociais, os millennials acabaram se tornando as vítimas específicas de uma cultura tóxica, que abre espaço para todo tipo de situações abusivas no mercado de trabalho. 

É tudo culpa desses millennials mimados

O selo de "entitled" que essa geração ganhou - sem recorte de região, raça, classe social ou gênero -, coloca todos os jovens em um ambiente inóspito que só joga contra eles. Somos a geração que aceita trabalhar em troca de "ajuda de custo" ou "nome no portfólio", por medo de não conseguir outra coisa em uma economia falida, que herdamos no meio de uma crise mundial. E o discurso de que somos reclamões, folgados e mimados nos silencia e nos isola.

Nossa geração não conhece o conceito de trabalhar das nove às cinco e simplesmente ir para casa. Estamos sempre conectados. Temos nossos chefes no Facebook e no WhatsApp. Recebemos mensagens de trabalho aos domingo, às 23h. Precisamos de inglês e espanhol fluentes, curso superior completo, pós-graduação e experiência. Precisamos estar disponíveis o tempo todo, dispostos a trabalhar fora do horário e sempre animados. Isso tudo para conseguir vagas com salários cada vez menores e que oferecem cada vez menos benefícios. E não podemos reclamar ou pedir aumento, porque isso é coisa de millennial mimado! 

 Mesmo com evidências de que somos uma geração mais realista com o mercado de trabalho e mais disposta a trabalhar duro, o discurso de que somos "difíceis" é muito mais conveniente para os patrões. Páginas como Vagas Arrombadas e Entrevistamento, que têm milhares de seguidores no Facebook, recolhem evidências dessa cultura e transformam um cenário depressivo em humor. Coisa que nós fazemos muito bem. 

Mas o problema aqui é muito pior do que um "conflito de gerações", apesar da mídia reforçar essa ideia. Na verdade estamos falando de dinâmicas de poder. Essas vagas que pagam mixarias mas oferecem "ambiente descontraído" e "videogame" não foram criadas apenas por cinquentões engravatados, mas também por outros millennials mais privilegiados que se beneficiam desse discurso. Os empreendedores das startups descoladas.

Todo esse hype nas redes sociais está ganhando proporções ridículas. As pessoas usam a muleta do "essa geração" para coisas que não fazem absolutamente nenhum sentido. Tem gente viralizando nas redes sociais dizendo que "essa geração não é emocionalmente disponível", com base em absolutamente em nada. Que tipo de evidência temos de que geração anterior era melhor nesse aspecto? Nenhuma. A pessoa leva um fora do crush e coloca a culpa na geração inteira, apenas porque é conveniente. Isso dá a ideia de que ela apenas foi vítima de um defeito geracional, e que não precisa repensar suas escolhas pessoais. E repetir discursos sem refletir ou pesquisar não é exclusivo dessa geração. É só dar uma olhada nos grupos de Whatsapp de família para confirmar isso.

É verdade que estamos vivendo em um mundo muito diferente do que aquele no qual nossos pais viveram. A tecnologia tem seu preço, e temos cada vez mais dificuldades de lidar com processos. Estamos treinando nossos cérebros para receber um milhão de informações por segundo e ter tudo na ponta dos dedos, o que nos deixa impacientes e ansiosos. Muitos de nós, antes leitores assíduos, hoje têm dificuldades para ler um livro inteiro. Não lidamos bem com o fato da outra pessoa receber nossa mensagem no celular e não responder imediatamente. Mas nada disso indica propensão à preguiça. 

Uma série de pesquisas publicadas em um artigo do NY Times revela que produzimos de maneira diferente em relação à geração anterior. Trabalhamos melhor em grupos e somos mais criativos e multitarefas. Mas o ponto principal é que trabalhamos muito mais. Fazemos mais trabalhos comunitários e dedicamos mais horas aos nossos empregos, principalmente por causa da cobrança por disponibilidade frequente, e pela facilidade que os chefes têm em nos acessar o tempo todo. 

Isso tudo está prejudicando nossa saúde mental. Somos mais depressivos e ansiosos, os suicídios entre jovens vêm aumentando por diversos fatores, e essa aura de que não devemos reclamar nunca não está ajudando. A parte boa é que também estamos mais dispostos a buscar tratamento e a priorizar a nossa saúde mental, mesmo que isso signifique perder algumas oportunidades. 

O entrevistador que ironizou a minha "geração" acabou fazendo uma proposta de emprego com um salário um pouco abaixo do que eu havia pedido. PJ, sem plano de saúde, sem vale refeição, sem vale alimentação e sem 13º. Eu agradeci e declinei. Por enquanto prefiro viver de freelas e trabalhar de casa, tranquila e com o meu gato no colo. E o cara, que não ficou nada feliz com a minha resposta, a essa altura deve estar reclamando dos millennials que não têm senso de responsabilidade. 

Foto de editoras da Marvel causa mimimi machista e DC responde maravilhosamente

Micheli Nunes
há 3 meses125.1k visualizações
Foto de editoras da Marvel causa mimimi machista e DC responde maravilhosamente
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Em mais um capítulo da novela "não existe machismo no mundo nerd", um bando de homens resolveu criticar Heather Antos, uma editora de quadrinhos da Marvel, simplesmente porque ela postou uma foto tomando milkshake com mais seis colegas de trabalho, todas mulheres.

"Será que dá pra deixar o feminismo e justiça social de lado e fazer quadrinhos? Deus, a DC me parece cada vez melhor", comentou um usuário, que aparentemente quer que apenas homens sejam contratados pelo selo, já que a existência de mulheres significaria feminismo. Outro usuário reclamou que as vendas da empresa estariam baixas por causa da foto, e nós não entendemos muito direito.

Ao ser questionado pelo motivo da fúria, um dos usuários disse que não liga para os milkshakes, mas está incomodado porque a Marvel parece estar sendo controlada por garotas. O que é uma ideia absurda e traz uma ideologia machista de que homens deveriam estar no comando! Em resposta, Heather lançou a hashtag #MakeMineMilkshake, um trocadinho com o antigo slogan da Marvel: “Make Mine Marvel", e até o canal oficial do selo se manifestou:

Mas a resposta mais genial veio justamente da concorrente, a DC! O twitter oficial da marca publicou uma foto com mais de 50 mulheres que trabalham na criação de suas revistas, todas fazendo o gesto da Mulher Maravilha, e mandando um "alô" pras colegas da Marvel. Agora imaginem a cara do sujeito que estava achando MUITO uma foto com sete funcionárias na Marvel, dizendo que a DC era melhor.

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.