Homens passando vergonha
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Quando o assédio dói no bolso do agressor

Micheli Nunes
há 8 meses555 visualizações

Ontem a página do Daily Mail no facebook postou o vídeo de uma ciclista sendo assediada por um homem em um furgão. Depois de momentos tensos, em que o motorista tenta inclusive agarrá-la pelo braço, a mulher persegue o veículo e arranca o retrovisor!!! Pois é, nem todas as heroínas usam capa. O vídeo, que já tem quase 38 milhões de views, foi feito por um motociclista, que o fim aproveitou para tripudiar do assediador: "Você teve exatamente o que mereceu, seu verme". <3

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Acredito fortemente que mudanças sociais efetivas só ocorrem com educação. Estamos claramente evoluindo na questão do assédio, e as novas gerações já são mais conscientes e intolerantes com esse tipo de comportamento. Mas também acredito que algumas pessoas não vão entender nunca. O motorista do vídeo é um exemplo. Ele claramente vê que a moça está desconfortável e irritada, e mesmo assim tenta tocá-la enquanto pede seu telefone. Não é uma cantada, ele sabe que ela jamais daria o número pra ele, é uma questão de poder e intimidação, e ele faz isso por diversão. É a misoginia em seu estado mais enraizado.

Em casos como o dele, vídeos no YouTube, textos na internet e conversas francas não vão resolver. Ninguém vai convencer o cara, com uma discussão racional, de que aquilo é desrespeitoso e que ele precisa parar. Nesses casos, acredito que a punição é a única maneira de prevenir esse comportamento recorrente. Assédio de rua ainda não é crime por aqui, e ainda não temos leis e multas do nosso lado. Por enquanto, o que resta para as mulheres nesse aspecto é reagir. E foi o que a moça maravilhosa do vídeo fez, à sua maneira. Se foi efetivo ou não, esta aberto a interpretações, mas acredito que depois de um prejuízo de uns R$ 500 (o conserto ficaria mais de 150 libras, segundo o google), eu duvido que o motorista se arrisque a assediar outra ciclista tão cedo.

Quando o assédio dói no bolso do agressor

Mas por mais satisfatório que seja o vídeo, não é sempre aconselhável que todas as mulheres que são assediadas retaliem o assediador arrancando o retrovisor deles (até porque não ia sobrar um retrovisor inteiro - risos). Não pelo patrimônio deles, entendam, mas pela segurança delas. No Reino Unido, onde aparentemente o vídeo foi feito, a tolerância com assédio de rua é muito menor do que no Brasil, e a ciclista sentiu-se segura o suficiente para revidar, o que é ótimo. Porém, em outras circunstâncias, a mulher correria risco de ser agredida, perseguida e até atropelada.

Eu mesma raramente deixo passar um assédio em branco. Volto, respondo, discuto, xingo, exponho os agressores. Mas só faço isso quando me sinto segura, em um lugares cercados por pessoas, iluminados, próximos a comércios. Cada mulher deve reagir - ou não - da maneira que achar própria, pois a sua integridade física está sempre em jogo. 

E, nos momentos em que não dá para reagir, podemos em vez disso apoiar iniciativas como o Chega de Fiu-Fiu, da ONG Think Olga (link abaixo), e sempre votar em pessoas - preferencialmente mulheres - que lutam pelas causas das mulheres e são abertamente anti-assédio. São essas pessoas que definirão novas leis e programas sociais para tornar a nossa vida mais segura e igualitária. Estamos no caminho certo.

Revolta com notícia sobre estupro mostra que não entendemos o consentimento

Micheli Nunes
há 9 meses325 visualizações
Revolta com notícia sobre estupro mostra que não entendemos o consentimento
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Um francês na Suíça foi condenado por estupro por ter tirado camisinha sem o conhecimento da parceira durante o sexo. Ele a conheceu no Tinder e decidiram transar, daí ele colocou camisinha, mas, no meio do ato, tirou o preservativo sem que ela percebesse. No fim ela notou (vocês devem imaginar como) e o caso foi parar nos tribunais. 

Em vários países da Europa, recusar-se a usar camisinha quando o parceiro pede é legalmente proibido e considerado estupro (caso o ato sexual ocorra sem o preservativo). Então essa condenação não é nenhuma novidade. Mesmo assim, a notícia chegou por aqui e os homens ficaram desesperados com a possibilidade da "moda" pegar no Brasil. 

Essa revolta toda (que você pode ler nos comentários da notícia, por sua conta e risco), mostra que muita gente não entende nada de consentimento. Vi algumas pessoas argumentando que a mulher corria um enorme risco naquelas circunstâncias, desde uma gravidez indesejada até DSTs graves. O que é verdade, mas não é o ponto principal. O ponto é que a vontade dela e a soberania dela sobre seu próprio corpo não foram respeitadas.

Todo ato sexual precisa ter consentimento de ambas as partes. Sem consentimento, qualquer "ato libidinoso" é considerado um estupro. Mesmo se a mulher disse sim pra uma coisa, não significa que está tudo liberado. Se ela topou fazer sexo com camisinha e ele tirou a camisinha escondido, o consentimento dela não existiu. Aquele ato não teve a permissão da outra pessoa, o que configura abuso sexual. É simples.

O medo desse tipo de condenação passar a ser aplicada aqui evidencia uma coisa preocupante: os homens não estão respeitando a vontade das parceiras. Qual o medo deles? De não poderem mais se recusar a usar o preservativo? De serem obrigados a respeitar o que elas pedem?

E mesmo com todo esse alarde, no fim o homem foi condenado a 12 meses de prisão, mas conseguiu permanecer em liberdade. 

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.