Homens passando vergonha
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Tadinhos! Rodrigo Hilbert está fazendo os homens se sentirem "pressionados"

Micheli Nunes
há 7 meses2.3k visualizações
Tadinhos! Rodrigo Hilbert está fazendo os homens se sentirem "pressionados"
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Rodrigo Hilbert é ator, modelo, apresentador, rico e famoso. Ele cozinha, é ferreiro, faz crochê e dança. Tem 1,90m de altura, 36 anos, olhos azuis e uma cara e um corpo que poderiam pertencer à família Hemsworth. Mas mesmo com todos esses atributos, acho que nem mesmo o próprio Rodrigo Hilbert imaginaria que viria a ter esse papel inesperado: o de, sozinho, PRESSIONAR toda uma geração de homens brasileiros padrão.

Na última semana, o jornalista Fernando Guifer fez um texto entitulado "ALGUEM PRECISA PARAR O RODRIGO HILBERT" (assim, em caps). Claro, entendemos o humor do post, mas entendemos também a mensagem e o desabafo que ele carrega. E ó... de PRESSÃO a gente entende. Então senta aqui, vamos conversar.

A primeira coisa que chamou a atenção é que, entre as características INCRÍVEIS do Rodrigo, Guifer mencionou lavar e passar roupa, lavar louça e ser bom pai. Olha, eu entendo você dizer que ser lindo, rico, famoso e ter um corpo escultural são realmente características raríssimas, mas classificar tarefas cotidianas que não passam da sua obrigação como um padrão inalcançável já passou pro lado ridículo. Imagina se eu sair por aí falando que não aguento a Gisele Bündchen porque ela é boa mãe? 

Outra curiosidade bastante relacionada com os papéis de gênero, é que Rodrigo Hilbert está sendo endeusado por desempenhar tarefas que são culturalmente vistas como femininas, e aqui incluímos cozinhar e fazer crochê. Mas por ele ser alto, forte e casado com uma mulher linda, sua masculinidade não é posta à prova. Aliás, recentemente ele ganhou destaque pela participação no programa Amor & Sexo, apresentado pela esposa, onde apareceu vestido de drag queen, fato que curiosamente Guifer não mencionou no seu texto.

Tadinhos! Rodrigo Hilbert está fazendo os homens se sentirem "pressionados"

Se você acha que cozinhar super bem e fazer crochê o tornará mais atraente para mulheres, vá em frente, desenvolva essas habilidades! Mas vamos esclarecer que essas coisas não são esperadas de todos os homens, e não são impossíveis de se alcançar. Muito diferente do que geralmente se espera das mulheres. 

Guifer menciona que se sente uma mistura de "Tiririca e Bruxa do 71" comparado ao apresentador. E de fato não é possível que todos os homens sejam bonitos dentro desse padrão Thor, ou que sejam ricos e famosos. Esses sim são ideais inalcançáveis. Mas o Rodrigo é só um cara. E se sua parceira compara você a ele em toda DR, é melhor repensar esse relacionamento.

Tudo isso parece óbvio, mas a quantidade de compartilhamentos do texto mostrou que é hora de reconhecer o privilégio masculino. Rodrigo Hilbert é uma novidade para os homens, mas nós mulheres sempre tivemos figuras similares como modelos inalcançáveis. Em todo o último século, mulheres magras, jovens, altas e ricas (e geralmente brancas e loiras) foram alçadas ao posto de mulher ideal. E diferentemente dos galãs, aos quais basta a carreira, as mulheres famosas sempre são cobradas e escrutinadas em suas vidas pessoais. Sempre aparecem em capas de revistas como ideais de beleza, maternidade e feminilidade. E mais recentemente como modelos de sucesso profissional.  

Tadinhos! Rodrigo Hilbert está fazendo os homens se sentirem "pressionados"

Gwen Stefani na capa da Vogue: "1 Marido, 2 filhos, 3 Selos, barriga de tanquinho e muito descolada". Jessica Simpson "Dona de Casa do Ano", limpando o chão se salto alto e calcinha infantil na capa da Rolling Stone

Todos os dias, a mídia nos bombardeia com esses alvos femininos inalcançáveis. Dizem que precisamos ser magras, ter cabelos sempre perfeitos, estar sempre com a pele bonita, mas sem exagerar na maquiagem. Dizem que precisamos ser mães 100% dedicadas, mas também precisamos ter carreiras de sucesso e nos comportar de maneira sexy (mas sem ser "vulgar"). Dizem que precisamos ter barriga de tanquinho três meses após dar à luz, e nunca podemos envelhecer ou mostrar sinais de cirurgias plásticas. E quando não alcançamos esses ideais, eles lucram com a nossa autoestima degradada, vendendo produtos e pseudo soluções. 

Então acredite, de pressão nós entendemos. E não é apenas um apresentador do GNT que oprime o nosso gênero, é todo um sistema machista. Ninguém precisa parar o Rodrigo Hilbert. É você que precisa rever seus privilégios. E começar a lavar a louça. Muito mais do que uma barriga de tanquinho ou saber fazer crochê, o que esperamos dos parceiros é que dividam as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos. 

A fragilidade do homem hétero e o machismo que machuca meninos

Micheli Nunes
há 7 meses1.1k visualizações
A fragilidade do homem hétero e o machismo que machuca meninos
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Recentemente, um doutor e professor universitário (que eu escolhi não expor para evitar a fadiga) reclamou no Facebook que a professora de seu filho pediu que ele escrevesse sobre seus sentimentos. Um print do post - que já foi apagado - acabou sendo bastante compartilhado e criticado no twitter. 

A fragilidade do homem hétero e o machismo que machuca meninos

A ideia de que garotos não devam falar dos seus sentimentos é um dos maiores malefícios de uma criação machista para eles. O hábito de não demonstrar ou falar do que se sente afeta psicologicamente os meninos, que acabam por sofrer sozinhos e calados quando passam por problemas emocionais. Este é um dos principais fatores que explicariam a taxa de suicídio ser até 4 vezes maior entre homens do que entre mulheres, segundo a OMS. Além disso, meninos que não aprendem a verbalizar o que sentem tendem a usar agressividade e violência quando experimentam emoções, levando a problemas de comportamento e de relacionamentos na vida adulta.

Dizer que sentimentos são coisas de meninas é uma enorme falácia. Todos estamos sujeitos às mesmas emoções, na mesma proporção. Ver um professor universitário reproduzir esse tipo de preconceito machista em 2017 é estarrecedor. Sem mencionar a contradição do sujeito. Ao reclamar que o filho teria que escrever sobre sentimentos, o próprio autor estava justamente escrevendo sobre seus sentimentos - em um desabafo acalorado - e até expondo os sentimentos do filho, quando ele afirma que o menino acha o dever de casa humilhante. 

Enquanto reprime a pedagoga por passar um dever de casa tão "absurdo", acusando-a até de querer transformar seu filho em menina (como se isso fosse possível), o pai transmite a mensagem de que não existe espaço para diálogo em sua casa. Fica claro que quando seu filho tiver problemas, não vai ser no pai que ele vai encontrar um ombro amigo para desabafar. 

Em sua inabilidade de gerenciar os próprios sentimentos, o homem hétero inseguro tem essa necessidade de impor publicamente limites, numa constante reafirmação (ou compensação) de valores retrógrados e de uma masculinidade fictícia. Por que todo esse medo e parecer menos "homem"?

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.