Marcas que estão no século errado
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Criaram um iluminador vaginal e nós falhamos como sociedade

Micheli Nunes
há 22 dias42.2k visualizações
Criaram um iluminador vaginal e nós falhamos como sociedade
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A marca dinamarquesa The Perfect V conseguiu aparecer em jornais, revistas e sites de todo o mundo na última semana com um lançamento um tanto polêmico. Com o objetivo de fazerem as mulheres alcançarem a "vagina perfeita", eles criaram uma linha de produtos vaginais que fogem bastante do tradicional sabonete íntimo. Além de um esfoliante (socorro) para a região íntima, eles têm um serum rejuvenescedor, um condicionador, um spray revitalizante, um tonificante e um ILUMINADOR VAGINAL.

Isso mesmo! Sabe aquele produto de maquiagem que se passa nas maçãs do rosto e no nariz para dar uma finalizada no look? Pois é o mesmo princípio, só que na vulva. O site do produto promete dar uma "beleza extra" à região, "iluminando e apagando as imperfeições". Além do completo absurdo de criar a necessidade de maquiar uma vagina, o produto pode ser extremamente perigoso. Médicos recomendam que a vulva, que é muito delicada, seja lavada com bastante água e, no máximo, um sabonete neutro sem perfume. Enfiar produtos desconhecidos e potencialmente abrasivos nos órgãos genitais pode irritar a pele, causar alergias, e infecções, matando as bactérias "do bem" e criando um ambiente próprio para a proliferação das bactérias "do mal".

Padrões cada vez mais inalcançáveis

Se o problema fosse apenas uma marca dinamarquesa criando um produto absurdo, seria fácil de resolver, mas não é bem assim. Os padrões inalcançáveis de beleza feminina já chegaram faz tempo à região íntima, fenômeno que é associado ao acesso fácil à pornografia online. Cada vez mais adolescentes recorrem a cirurgiões plásticos para mudar a aparência da vulva antes mesmo de terem relações sexuais, e o Brasil é líder no procedimento. E tudo fica ainda mais triste se levarmos em conta os riscos dessa cirurgia, que corta fora centenas de terminações nervosas, pode comprometer a circulação sanguínea da região e diminuir muito o prazer sexual de garotas que ainda não chegaram aos 20 anos. Isso em uma cultura que permite que apenas 22% das mulheres brasileiras hoje chegam ao orgasmo.

Criaram um iluminador vaginal e nós falhamos como sociedade

Segundo dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica, somente em 2016, 25 mil brasileiras fizeram a cirurgia, que só é indicada em raríssimos casos de hipertrofia, nos quais a mulher sofre de dores, dificuldades para andar e assaduras. E elas fizeram isso simplesmente porque não sabem como é a aparência de uma vagina normal. A ideia de inadequação aparece quando elas passam a ver atrizes pornô com vaginas consideradas "delicadas", com lábios minúsculos e irrealisticamente simétricos, quando na realidade as vaginas têm formas extremamente diversas.

'Pânico' passa de todos os limites e aterroriza Panicats com novo quadro

Micheli Nunes
há 4 meses11.3k visualizações
'Pânico' passa de todos os limites e aterroriza Panicats com novo quadro
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Dizer que o programa Pânico, da Band, passou dos limites é quase uma redundância. Apesar da audiência praticamente nula, nas últimas semanas eles se envolveram duas polêmicas nas redes sociais. Primeiro mostraram um pênis ao vivo, em uma cena de claro assédio na TV aberta, e fazendo o apresentador e cria de Silvio Santos, Dudu Camargo, passar as mãos na genitália de dançarinas. Mas aparentemente, na corrida para fugir do traço de audiência vale absolutamente qualquer coisa. Segundo o colunista Flávio Ricco, do UOL, uma pessoa da direção do programa criou um quadro chamado “Churrasquíni”, em que as Panicats seriam vestidas em biquinis feitos de carne assada e oferecidas a moradores de ruas, para que eles comessem as peças.

A ideia, que segundo o colunista já recebeu o "sinal verde" para ser produzida no Rio de Janeiro, teria aterrorizado as Panicats, com toda razão. Essas garotas, todas na faixa dos 20 e poucos anos, são usadas como decoração e submetidas a todo tipo de humilhação por salários baixíssimos desde o surgimento do programa. E a coisa tem ficado cada vez pior à medida que a audiência vem caindo e a produção recorre a situações cada vez mais vexatórias que, via de regra, exploram as Panicats e seus corpos. Dessa vez, porém, não são apenas as jovens deslumbradas com a fama a serem exploradas. O programa quer humilhar e constranger também outro grupo ainda mais vulnerável: os moradores de rua. 

Ter um programa como o Pânico no ar em 2017 já é uma aberração inexplicável. Eles usam do que há de mais baixo no universo do entretenimento e mascaram de "politicamente incorreto". Machismo, homofobia, transfobia, racismo, xenofobia e outras diversas formas de preconceitos são perpetuadas sem constrangimentos, em troca de algumas risadas e uns pontos de audiência, tudo isso em uma emissora que goza de concessão pública

Todos os absurdos que esse programa já colocou no ar deveriam, no mínimo, ser questionados, mas expor funcionárias nesse nível e oferecer comida a uma pessoa faminta em troca de exploração não é nada menos que criminoso. Se esse quadro de fato for produzido, o programa mostra que passou há muito do "politicamente incorreto" e foi direto para a barbárie.

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micheli.nunes
Micheli é jornalista especialista em cinema, e escreve sobre filmes, séries de TV, feminismo e cultura pop há 9 anos.